A aventura do teatro, por uma seita de veteranos

As Árvores que Morrem de Pé é a nova encenação de Filipe La Féria e estreia-se esta quinta-feira no Teatro Politeama, em Lisboa, com Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho e Manuela Maria.

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Manuela Maria interpreta a avó Cortesia do Teatro Politeama
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Ruy de Carvalho e Manuela Maria em As Árvores Morrem Em Pé Cortesia do Teatro Politeama
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Maria João Abreu é iniciada na seita A Causa Cortesia do Teatro Politeama
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Manuela Maria Cortesia do Teatro Politeama
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Carlos Paulo é Maurício, dono da seita Cortesia do Teatro Politeama

Em 1966, a lendária actriz Palmira Bastos aparecia pela última vez nos ecrãs da televisão portuguesa na peça As Árvores Morrem de Pé, gravada no antigo Teatro Avenida, em Lisboa. De Norte a Sul do país, a frase “Morta por dentro, mas de pé, como as árvores”, dita pela protagonista quase no final da trama, entranhou-se no imaginário dos espectadores.

Agora, o texto do dramaturgo espanhol Alejandro Casona ganha nova vida com a encenação de Filipe La Féria, que reúne um elenco de veteranos do teatro como Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho e Manuela Maria. “Esta peça só teria razão de ser com enormes actores e é um orgulho para todos os portugueses ter uma Eunice, um Ruy e uma Manuela”, afirmou Filipe La Féria em conferência de imprensa esta segunda-feira, no Politeama.

A peça conta a história da seita A Causa, que supõe que os seus membros encarnem outras personagens e usem a ilusão e a poesia para tornar as pessoas mais felizes. E é a concretização de um desejo partilhado por La Féria, Ruy de Carvalho e Eunice Muñoz. A actriz de 88 anos, discípula de Palmira Bastos, mostra-se feliz por ter a oportunidade de prestar-lhe esta homenagem: “Tenho muitas saudades da minha mestre, que aos 90 anos sabia primeiro os papéis do que nós. Era uma mulher encantadora e muito talentosa." Já para Ruy de Carvalho, que completará 90 anos em 2017, esta “é uma história maravilhosa que sabe bem a um actor representar, porque dá conselhos para viver melhor”.

No decorrer da peça, chega ao escritório da seita um senhor com um pedido particular. Ao longo de vários anos, enganou a mulher escrevendo-lhe cartas do suposto neto, contando que endireitou a sua vida. Entretanto, o neto verdadeiro envia um telegrama a anunciar a sua chegada, mas acaba por morrer num naufrágio. É então que o avô pede à seita que leve à sua casa um casal, encarnando o desaparecido neto e a mulher. Tudo vai de vento em popa, até que chega o verdadeiro neto, que afinal está vivo. “A peça tem outra linguagem [relativamente à encenação de 1966]; hoje em dia temos muito mais imagem e síntese do que naquele tempo”, comparou Filipe La Féria.

Eunice Muñoz, que foi submetida a uma intervenção cirúrgica recentemente e espera “poder estrear esta peça no Politeama dentro de pouco tempo”, alternará no papel da avó com Manuela Maria, de 81 anos. A actriz considera “uma honra e um atrevimento” vestir o mesmo papel que Eunice, “a melhor actriz que nós temos”, por quem tem uma grande admiração. Da mesma forma, Ruy de Carvalho alternará com João D’Ávila, “afilhado do teatro” de Palmira Bastos, com quem se estreou no Teatro Nacional D. Maria II.

A missão de tornar a vida das pessoas mais felizes por meio da ilusão é encabeçada pelo director da seita, Maurício, interpretado por Carlos Paulo, e por uma jovem iniciada melancólica e à beira do suicídio, representada por Maria João Abreu. “Quando há qualidade, é muito fácil, porque alimentamo-nos uns dos outros e não sentimos o cansaço, o estímulo é permanente”, disse Carlos Paulo relativamente ao elenco veterano. Também subirão a palco nomes como Hugo Rendas, Ricardo Castro, Paula Fonseca e Rosa Areia, entre outros.

Publicada em 1950, a peça As Árvores Morrem de Pé, de Alejandro Casona (1903-1965), cruzava fantasia e realidade, vindo romper com os paradigma predominantemente naturalista do teatro da altura. “É um teatro poético e filosófico com uma grande influência de [Luigi] Pirandello; é quase um teatro dentro do teatro, com grande profundidade e estrutura”, explicou Filipe La Féria.

O compromisso entre a realidade e a ilusão, e o equilíbrio que daí pode advir para a vida humana, é a grande força motriz da peça. “É um jogo entre a verdade e a mentira, a loucura e a sanidade”, resume o encenador. A grande maioria das peças de Casona foi representada em Portugal no Teatro Nacional e no Teatro Monumental. Dizia o dramaturgo espanhol que “a grande aventura do teatro é a multidão de pessoas que o fazem”. Agora os veteranos do teatro português voltam a juntar-se a ela.

Texto editado por Inês Nadais