Crítica

Literatura e revolução

Um grande romance da literatura russa, mas escrito em francês por um exilado: O Caso do Camarada Tulaev, de Victor Serge.

Ler este romance de Victor Serge é sentir o peso da grande literatura russa do século XIX
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Ler este romance de Victor Serge é sentir o peso da grande literatura russa do século XIX

Nascido em 1890 na Bélgica, Victor Serge (filho de emigrantes russos, o pai tinha sido oficial da guarda imperial e fora acusado de conspiração no assassinato do czar Alexandre II), cedo se juntou em França às brigadas anarquistas, actividade que o levou à prisão. Com o advento da Revolução Russa, parte para Moscovo em 1919, ligado à Internacional Comunista. Desenvolve intensa actividade revolucionária, nunca deixando de criticar as aberrações do estado soviético. Conheceu Trotsky, Gramsci e Lenine; e foi amigo dos poetas Esenin (o “anjo louro”, como lhe chama Rolin) e Mayakovsky, assim como dos escritores Pasternak e Mandelstan. A sua lucidez e integridade moral não o deixaram ser cúmplice dos poderes que instauraram a barbárie na União Soviética, e as suas permanentes crítica acabaram por o levar à prisão por ordens de Estaline. Evitou o fuzilamento graças a um movimento internacional e sobretudo devido à intervenção de Andre Gide, à época Serge tinha já uma obra literária importante. Exilou-se em França na década de 1930, mas posteriormente, e devido à ocupação alemã, partiu para o México, onde viria a morrer em 1947.

Escreveu várias obras em que retrata os primeiros tempos da revolução russa. De entre todas, e talvez aquela de cariz mais literário e que perdura como a sua obra-prima, é O Caso do Camarada Tulaev (romance escrito originalmente em francês) e que acaba de ser por cá publicada – é pena que a editora não tenha incluído o brilhante prefácio escrito por Susan Sontag que surge em várias edições europeias. A história contada inspira-se muito vagamente no assassinato em 1934 de Serguei Kirov, um dos “homens de mão” de Estaline, e cujas investigações sobre a sua morte serviram de pretexto para detenções, desterros e execuções, uma espécie de pântano onde se perdeu quase toda a geração revolucionária.

O Caso do Camarada Tulaev é um romance que não tem propriamente uma personagem central que controle a narrativa, mas que antes nos mostra uma multiplicidade de personagens cujas vidas se entrelaçam, sempre debaixo do peso do jugo da repressão e da perseguição política – nisto fazendo lembrar Vida e Destino, de Vassili Grossman (D. Quixote, 2011). É uma narrativa que emana força, paixão, fúria e amargura, como muita da grande literatura russa. “O céu da Primavera, pálido sobre a neve, tinha aquela luz de quando os rios se fundem no início do degelo e a terra retoma a sua vida. No seu deserto íntimo ali ao lado, Romachkin voltara a sentar-se, com a cabeça poisada nas mãos, completamente só, absorto, convencido de estar a pensar. Talvez estivesse mesmo.”

Todos os capítulos se centram numa personagem diferente, e assim Serge nos vai apresentando uma galeria de retratos que inclui velhos e novos bolcheviques, funcionários do partido, militares, secretários, e condenados a uma pena sem fim no degredo da Sibéria. Todos eles se entregam, ou entregaram, aos ideais da revolução mas sabem que têm sobre as suas cabeças a nuvem que lhes anuncia a morte – são variadas as razões, terem conhecido Lenine, por exemplo, ou terem um amigo em comum com Trostky, entre outros. “Em toda a parte a angústia e o sofrimento se encontravam misturados com um inexplicável triunfo incansavelmente proclamado pelos jornais”

A acção tem lugar em 1937: Kostia é um vulgar e pobre cidadão que um dia, por casualidade, mata uma importante figura do partido; essa é a razão para começar a caça implacável a uma suposta rede de suspeitos – um retrato do esquema das purgas estalinistas. Na história narrada não interessa saber quem foi o assassino (o leitor sabe de imediato), mas mostrar que se todo o crime merece castigo, essa ideia é aplicada de diferentes formas; assim, num sistema totalitário todo o crime merece alguém que seja necessariamente culpável, mas o estalinismo foi mais longe e estabeleceu que todo o crime merece uma purga de uma enorme trama conspirativa.

Ler este romance de Victor Serge é sentir o peso da grande literatura russa do século XIX. A acuidade e profundidade psicológica dos seus retratos, as divagações sobre o sentimento humano, em nada lhe fica a dever: “Todo o mal vem do que pensamos, ou antes: existe em nós um ser que pensa em nosso lugar e, de repente, profere no silêncio do nosso cérebro uma pequena frase ácida, insuportável, depois da qual já não é possível vivermos como antes.” Dividido em dez capítulos, com títulos como “Construir é perecer”, “Viagem na derrota”, ou “Cada um afoga-se à sua maneira”, é no capítulo “À beira do nada” (sem dúvida o melhor de todo romance), por entre sublimes descrições das paisagens siberianas, que surge a personagem Ryjik, a mais íntegra e inquebrantável, um homem que perdeu tudo e que ninguém consegue vergar, e que até ao último momento é capaz de se rir dos seus verdugos.