E o vertebrado vivo mais velho do planeta é... o tubarão-da-gronelândia

Analisados os olhos de 38 tubarões da espécie Somniosus microcephalus, para lhes medir a idade. O animal mais velho tinha 392 anos. E as fêmeas só começam a reproduzir-se aos 156 anos.

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Um tubarão-da-gronelândia devolvido ao mar depois de ter sido estudado Julius Nielsen

Há 392 anos, Portugal era regido por Filipe III. Quem nascesse em 1624, iria ter alguma probabilidade de viver a Guerra da Restauração, iniciada em 1640, que pôs fim à dinastia filipina. Em Inglaterra, poderia ser testemunha do incêndio de Londres em 1666 e, com alguma sorte, ter conhecimento da publicação de Principia, de 1687, onde Isaac Newton descreveu as leis da gravidade. Seriam raras as pessoas nascidas em 1624 que iriam viver a alvorada do século das luzes. Mas um tubarão-da-gronelândia do mesmo ano só iria atingir a idade da reprodução mais de século e meio depois, em 1780, poucos anos antes da Revolução Francesa. E, o mais incrível, é que poderia ainda estar vivo hoje.

Um estudo publicado na edição de sexta-feira da revista Science mediu a idade de vários tubarões-da-gronelândia (Somniosus microcephalus) capturados por acaso na pesca. Um deles tinha 5,02 metros de comprimento, e terá vivido os tais 392 anos. “Os nossos resultados mostram que o tubarão-da-gronelândia é o vertebrado que mais vive”, lê-se no artigo escrito por John Steffensen, da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, e por colegas.

No grupo dos animais com coluna vertebral, os humanos não estão mal em termos de longevidade, com vários casos de indivíduos a ultrapassarem largamente os cem anos. Mas não se pode comparar esta longevidade com várias espécies de tartarugas-gigantes que ultrapassam os 150 anos ou com o Sebastes aleutianus, um peixe do oceano Pacífico, que pode atingir os 200 anos.

Já há muito tempo que havia informação sobre o tubarão-da-gronelândia que fazia suspeitar da longevidade anormal desta espécie que deambula pelas águas do Árctico, é encontrada a profundidades entre 132 e 1200 metros, e tudo leva a acreditar que é um predador de topo (nunca foi visto no acto, mas já se encontraram focas no estômago destes peixes).

“Há rumores de que eles são muito velhos”, explica John Steffensen ao PÚBLICO. “[O biólogo] Paul Hansen mediu, etiquetou e libertou cerca de 425 tubarões-da-gronelândia entre 1936 e 1952. Vinte e cinco animais foram recapturados e medidos outra vez, mas ele só acreditou nos resultados de três das medições feitas por ele ou por um colega seu. Os resultados mostraram que esses três tubarões cresceram apenas entre 0,5 e um centímetro por ano ao longo de 16 anos”, conta o biólogo marinho.

Um crescimento tão lento indica uma grande longevidade. “Fiquei preso a esta informação e quis estudar o envelhecimento destes tubarões”, diz John Steffensen.

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Um tubarão-da-gronelândia ao largo da ilha que lhe dá o nome Julius Nielsen

Entre 2010 e 2013, a equipa analisou 28 fêmeas de tubarão-da-gronelândia pescadas acidentalmente ao largo dessa ilha. Para determinar a idade dos animais analisam-se estruturas calcificadas como os ossos, que apresentam marcas anuais. Mas os tubarões são peixes cartilagíneos e os seus ossos são constituídos por cartilagem. Por isso, aquele método estava fora de questão.

A equipa teve assim de encontrar outra forma de medir a idade dos peixes. Para isso, obteve amostras do cristalino do olho destes animais. “O carbono mais virgem do corpo está [nas proteínas] no centro do cristalino”, diz John Steffensen. Este carbono permite fazer análises de idade com a famosa técnica de carbono 14.

As 28 fêmeas mediam entre 81 centímetros e 5,02 metros. A idade média para o tubarão mais comprido foi de 392 anos, com uma janela superior e inferior de 120 anos. Por isso, se quisermos ser cautelosos, esta fêmea teria uma idade mínima de 272 anos – o que equivaleria, numa pessoa, a ter nascido em 1744. “É o vertebrado vivo mais velho do planeta!”, diz John Steffensen, resumindo num ponto de exclamação a espectacularidade da descoberta.

Outros aspectos interessantes desta espécie: as fêmeas atingem a maturidade sexual aos 156 anos, quando têm cerca de quatro metros; e os tubarões com menos de três metros ainda não são centenários.

A maioria dos animais capturados ainda não eram sexualmente maduros. A equipa não sabe a razão para esta proporção anormal de capturas dos mais novos, mas John Steffensen tem uma hipótese: “Milhares de tubarões foram apanhados desde cerca de 1890 até à II Guerra Mundial para tirar o óleo do fígado. Nalguns anos eram apanhados 30.000 tubarões. Estes animais poderiam ser adultos hoje.”

O próximo passo será etiquetar indivíduos para os seguir por satélite e conhecer a área que habitam, explica o cientista: “Também esperamos descobrir onde nascem os tubarões – o local é desconhecido e pode ser a grande profundidade no oceano.”

Vidas Longas

No planeta, há outros seres vivos que nos surpreendem pela sua longevidade.

Tartaruga da realeza
A Tu'i Malila era uma tartaruga-radiada da espécie Astrochelys radiata. Até morrer, em 1965, pertenceu à família real do Tonga, um arquipélago no oceano Pacífico. Conta a lenda que o réptil foi uma oferta do comandante britânico James Cook à família. Tinha 188 anos quando morreu; nasceu por volta de 1777.

Pinheiro do tempo dos egípcios
É preciso ir até às Montanhas Brancas, na Califórnia, para ver o indivíduo que não é clone mais velho do mundo, um pinheiro da espécie Pinus longaeva, com 5062 anos. Este indivíduo nasceu pouco depois do início da antiga civilização egípcia, há cerca de 3100 anos a.C.

Jeanne Calment
Com 122 anos e 164 dias, Jeanne Calment foi a pessoa que viveu mais tempo de que há registo. Nascida em 1875, em Arles, em France, viveu até 1997. Lembrava-se do pintor Vincent van Gogh em Arles. Aos 100 anos, ela ainda andava de bicicleta.  

Ming, o bivalve
Ming terá nascido em 1499, entre a chegada de Vasco da Gama à Índia e a de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Ming é um bivalve da espécie Arctica islandica. Foi apanhado do mar perto da Islândia, em 2006, viveu 507 anos.

Oliveira portuguesa
Em 2011, foi identificada a árvore mais antiga de Portugal. É uma oliveira bravia com 2850 anos. Vive em Santa Iria da Azóia, perto de Loures.