Reportagem

O fogo ronda a cidade no Funchal

Mais de 300 desalojados, três feridos e quase 150 pessoas assistidas, dois hospitais evacuados, casas e fábricas destruídas. Os incêndios que lavram na Madeira levaram à activação do Plano de Contingência Regional.

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Imagem de arquivo de um bombeiro: eles não têm vida fácil na Madeira Paulo Pimenta/Arquivo

Para quem não conhece o Funchal e nunca percorreu as estradas sinuosas que recortam a paisagem madeirense, os números dos meios técnicos e humanos mobilizados para o combate aos incêndios que desde a tarde de segunda-feira, em vários pontos da ilha, consomem mato e espalham pânico por entre a população, podem não impressionar.

Falar de 100 ou mesmo 150 homens parece curto, principalmente quando comparamos com as centenas de bombeiros que, nesta época em que o país arde, nos entram pelas televisões e ilustram jornais a enfrentar hectares e hectares de fogo.

É preciso, por isso, viajar até à baixa do Funchal, ali junto ao mar, e olhar para a cidade a crescer, serra acima, por entre lombos e falésias que foram verdes, e agora estão pintadas de cinza, para melhor medir a dimensão dos fogos que já provocaram mais de 300 desalojados, a evacuação de dois hospitais, um sem número de habitações destruídas e várias unidades fabris devastadas.

É preciso olhar para a densa nuvem de fumo, respirar o ar carregado de cinza que torna o céu vermelho fogo, para entender que mesmo sem as dimensões dos incêndios que atingem o continente, as consequências são tão ou mais dramáticas.

No Funchal, existem duas cidades. Aquela junto ao mar, de avenidas largas e ruas entrelaçadas de esplanadas e turistas, e a outra, as que os funchalenses chamam de zonas altas, onde a malha urbana divide o pouco espaço, por entre becos e ruelas, com manchas de floresta e mato. É ali, nas freguesias de São Roque, Monte e Santo António, que os incêndios andam, por entre as casas, postos de abastecimento de combustível, armazéns industriais e unidades fabris.

Segunda-feira, depois de horas e horas de desespero, a noite chegou com promessas de acalmia e com o anúncio da Polícia Judiciária da detenção de um homem de 24 anos, alegado autor do incêndio que originou toda esta situação. O suspeito, com antecedentes criminais por fogo posto, foi detido perto do local onde as chamas começaram. Mesmo assim, poucos dormiram, e havia poucos motivos para tal.

O fogo ganhou vida. Reacendeu-se onde o julgavam morto. Apareceu onde não o esperavam. Destruiu casas, consumiu fábricas, andou por quintais, lambeu paredes de postos de abastecimento. Ouviram-se explosões de gás, pessoas a fugir, outras que não queriam ir embora com medo de perder a casa foram forçadas a sair pela polícia.

Na manhã desta terça-feira, o autarca do Funchal, Paulo Cafôfo, pouco depois de anunciar a activação do Plano Municipal de Emergência, falava numa “noite dramática”, e elogiava o “trabalho dos bombeiros” e pedia calma à população.

Sensivelmente à mesma hora, depois de uma noite e madrugada de sobressalto, onde as temperaturas anormalmente elevadas mesmo para Agosto — os termómetros marcaram 38 graus —, e rajadas de vento a rondar os 70 km/hora, espalharam as chamas por vários pontos da capital madeirense e em outras zonas da ilha, o executivo insular decidia accionar o Plano de Contingência Regional.

Na prática, e numa altura que além da capital, existem incêndios nos concelhos da Ponta do Sol e Câmara de Lobos (ambos a Oeste do Funchal), significa que todos os meios disponíveis na ilha foram mobilizados: PSP, Forças Armadas, Protecção Civil e Cruz Vermelha Portuguesa.

147 pessoas assistidas

“Não há vítimas mortais, nem feridos a registar”, sublinhou o presidente do governo madeirense, Miguel Albuquerque, que passou a manhã a deslocar-se entre frentes de incêndio e o Regimento de Guarnição n.º 3 do Exército, para onde foram levados os cerca de 300 desalojados, entre os quais os doentes evacuados dos hospitais dos Marmeleiros e Dr. João de Almada. Aqui, enfermeiros e psicólogos prestam apoio aos desalojados, num quartel que, nos últimos anos, tem sido o porto seguro das populações em momentos de catástrofes, com foram os incêndios no Funchal em 2013 ou o temporal de 20 de Fevereiro de 2010.

A situação mudou já durante esta tarde, quando as chamas provocaram um ferido grave na freguesia do Monte, no Funchal. A vítima, um homem cuja idade não foi divulgada, sofreu queimaduras graves em 70% do corpo, na sequência de um fogo que destruiu por completo a habitação onde residia.

O homem, que é para já a vítima mais grave da vaga de incêndios que está a assolar o arquipélago, será, de acordo com Miguel Albuquerque, evacuado para Lisboa, num helicóptero da Força Aérea, para receber cuidados na Unidade de Queimados do Hospital de Santa Maria.

Durante a tarde, dois bombeiros de Câmara de Lobos que estavam também no Monte ficaram feridos, um deles com alguma gravidade, quando o autotanque onde seguiam capotou. Ao hospital central do Funchal já chegaram 147 pessoas, sobretudo devido à inalação de fumo e pequenas queimaduras.

Os incêndios estão também a afectar a circulação automóvel, com a principal estrada da ilha, a via rápida que atravessa toda a costa Sul da Madeira, a estar bastante condicionada. São essas mesmas estradas que, nas zonas altas, se revelam demasiado estreitas para a circulação das viaturas mais pesadas dos bombeiros. Um problema acrescido, mas nada que se compare às condições meteorológicas.

A Madeira está a ser fustigada por uma frente de Leste, onde os ventos trazem do Norte de África areia do Saara, provocando uma diminuição acentuada na humidade do ar e um aumento considerável das temperaturas. Este fenómeno é sempre acompanhado por vento forte. Tudo somado, é um barril de pólvora para a orografia madeirense, onde, garantem as autoridades, as condições não permitem o recurso a meios aéreos de combate a incêndios.