O cerco sobre Alepo caiu, mas os combates mais violentos ainda estão por vir

Regime e rebeldes estão a mobilizar milhares de reforços para os próximos dias. Assad não quer abrir mão do seu futuro político e os insurgentes querem agora tomar a cidade inteira.

Rebelde sírio aponta para os efeitos dos bombardeamentos russos sobre Alepo.
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Rebelde sírio aponta para os efeitos dos bombardeamentos russos sobre Alepo. Rodi Said/Reuters

A grande campanha rebelde em Alepo para quebrar o cerco do regime à sua metade da cidade parecia ter chegado ao desfecho intendido no fim-de-semana, quando os insurgentes, mesmo tendo por diante uma intensa barragem de ataques aéreos e centenas de tropas leais ao Presidente Bashar al-Assad, anunciaram o fim do bloqueio governamental, conquistando o estratégico bairro de Ramoussa, no Sul, e, com ele, um corredor inseguro para as zonas residenciais isoladas há mais de um mês. Os rebeldes recuperaram em apenas seis dias muito do terreno que o regime levou meses a conquistar.

Assad e os seus aliados responderam com bombardeamentos e disparos de artilharia pesada, mas esta segunda-feira não pareciam ainda próximos de recuperar os territórios perdidos. Os seus esforços mais evidentes vêm dos ares, onde caças sírios e russos vão bombardeando as novas posições rebeldes para impedir que estes as consigam consolidar. “Já capturámos toda a Ramoussa”, anunciava à AFP Abu al-Hasanien, comandante de topo de uma das alianças rebeldes que combatem o regime, admitindo que as bombas não os deixavam progredir. “Estamos nas nossas trincheiras, mas há ataques insanos de uma ferocidade sem precedentes.”

A situação no terreno mantém-se mais-ou-menos inalterada desde a noite de sábado. Os rebeldes conseguem passar para os seus bairros no Leste da cidade, mas o caminho que abriram é ainda demasiado perigoso para permitir a fuga de residentes ou o envio de muitos reforços e mantimentos. O regime, por sua vez, arriscando-se a que as suas zonas residenciais a Oeste acabassem cercadas por insurgentes, consegue ainda receber mantimentos e reforços desde o Norte, por onde há um mês completou o cerco. Apesar do impasse dos últimos dias, tudo aponta para que os combates mais violentos na luta por Alepo estejam ainda por vir.

Os confrontos da última semana podem ter causado perto de 700 mortos em ambos os lados do conflito, não contando com as dezenas de civis apanhados no fogo cruzado de artilharia, rockets e bombardeamentos, acreditando nas estimativas do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que monitoriza a guerra desde o Reino Unido. A brutalidade dos últimos dias demonstra a importância do domínio sobre o antigo centro económico da Síria: se os rebeldes se deixarem cercar novamente, terão perdido o controlo sobre o seu território mais importante e qualquer relevância que pudessem ter num cenário de pós-guerra.

Agora que romperam o cerco do regime, vários grupos armados preparam-se para combates ainda mais ambiciosos. A grande aliança de insurgentes, dominada pelos poderosos grupos extremistas de Alepo, anunciou na noite de domingo que pretende convocar centenas de reforços e lançar uma ofensiva que tome de assalto os bairros do regime e conquiste por completo a cidade. Poucos acreditam que o consiga fazer, visto que a cidade está firmemente dividida em dois desde 2013. A comprovar-se a ameaça, porém, tratar-se-á de um feito extraordinário e um estrondo nas ambições de Assad.

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“O regime e os seus aliados não estavam à espera que o cerco que preparavam há anos pudesse ser destruído em apenas seis dias”, lê-se num comunicado publicado do Exército da Conquista, um grupo de facções islamistas liderado pela antiga Frente al-Nusra, renomeada Fateh al-Sham mas ainda com fortes ligações operacionais e ideológicas à Al-Qaeda. “Começou uma nova fase para libertar Alepo no seu todo”, anuncia o grupo, visivelmente motivado pelas vitórias dos últimos dias sob as milícias leais a Assad e o seu Exército remendado. “Não pararemos até hastearmos a bandeira da vitória na cidade velha.”

Mas Assad não pretende abrir mão de Alepo. Conquistá-la – ou subjugá-la – será o mesmo que garantir a sua sobrevivência política, um feito que parecia altamente improvável antes de a Rússia ter chegado em seu auxílio no último ano. Se os rebeldes extremistas dizem estar prestes a “duplicar o número de combatentes” na cidade, o Observatório Sírio indica que cerca de dois mil homens leais a Assad tinham entrado esta segunda-feira pelas suas vias de abastecimento no Norte, deixando antever novos e mais violentos confrontos nos próximos dias.

A composição das facções rebeldes em Alepo levanta sérias dúvidas sobre o tipo de benefícios que a oposição no exílio pode colher dos reveses militares do regime. O Exército da Conquista dizia na noite de domingo que a vitória em Alepo não era apenas responsabilidade sua, mas também das “várias facções” que participaram na ofensiva, mesmo que nenhuma delas se aproxime da importância e capacidade da antiga Frente al-Nusra ou da Ahrar al-Sham, outra organização extremista. Mas isso não impediu que Anas al-Abdah, líder da Coligação Nacional Síria, reivindicasse vitória.

“Rompemos o cerco de Alepo e vamos libertar toda a Alepo”, disse o líder oposicionista esta segunda-feira, numa conferência de imprensa em Istambul. “Lançamos um apelo aos oficiais do Exército sírio: esta é a vossa última oportunidade para desertar.”