Pelos caminhos da floresta com o ornitólogo perdido

O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, é uma obra de insuspeita maturidade que não deixa ninguém indiferente – para o bem e para o mal. A maior enchente das sessões de imprensa em Locarno até agora deixou o povo (profissional ou público) à toa. É o melhor filme do cineasta.

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Paul Hamy é aqui usado como um modelo bressoniano que quase diríamos “duplo” físico do realizador

É o momento pelo qual muitos esperavam: a maior enchente das sessões de imprensa em Locarno até agora, logo com um filme que parece milimetricamente concebido para deixar o povo (profissional ou público) à toa. Uma coisa é certa: na viagem do ornitólogo Fernando aos confins mais profundos dos bosques e montanhas do Norte de Portugal, caminho redentor de Santo António em vez de Santiago fotografado deslumbrantemente por Rui Poças, não chega querer embarcar. É preciso deixar-se levar pelas estranhas e maravilhosas curvas e contracurvas que levam ao coração das trevas, na certeza de que nada do que vimos nos filmes anteriores de João Pedro Rodrigues nos terá preparado para o “salto em frente” de O Ornitólogo, filme que as “bolsas de apostas” dão como à frente do “pelotão” para o Leopardo de Ouro desta edição (e há um leopardo lá dentro às tantas…) e que foi mostrado à imprensa no mesmo dia em que era revelado outro dos candidatos fortes ao prémio máximo, Inimi Cicatrizate, do romeno Radu Jude. Mas agora há que saudar a sensação de que João Pedro Rodrigues fez finalmente o filme de que o sabíamos capaz há muito tempo: reconhecivelmente seu, e contudo com o cinema todo lá dentro.

É verdade que O Ornitólogo é, no papel, mais uma viagem de transformação, quase sem regresso, de uma personagem principal confrontada com um desconhecido e um universo para o qual não está preparada, sob os traços do actor francês Paul Hamy (usado como um modelo bressoniano que quase diríamos “duplo” físico do realizador). Mas este é um filme infinitamente mais solto e lúdico, menos sisudo e sôfrego do que O Fantasma, Odete e Morrer como um Homem – ao mesmo tempo obra de uma espiritualidade asceta, quase radical, e de um paganismo sensual e abandonado, encontro desvairado e escarninho entre o Deliverance de John Boorman e A Palavra ou o Gertrud de Dreyer com uns toques de Wicker Man filmado em sufoco oriental por Apichatpong Weerasethakul, que atira para canto a coqueluche Alain Guiraudie (tomara ele ser tão provocador e esteta como Rodrigues). Porque este Fernando, ornitólogo em viagem de investigação, percorre uma espécie de via sacra, ou de caminho de cabras, iniciada com um desvio acidental por uns rápidos onde perde caiaque, mapa, medicamentos e rede no telemóvel, e onde cada encontro improvável o parece levar para um destino pré-definido do qual só ele não tem consciência.

Chinesas místicas especializadas em bondage, caretos demoníacos a embebedarem-se noite dentro, pastores surdos-mudos com tendências gay, amazonas topless a cavalo – entre as alucinações místicas ou os delírios do corpo, nunca saberemos ao certo quanto disto é verdade ou projecção, sonho ou realidade, porque há um momento em que Fernando começa a pregar aos peixes como Santo António o fez e essas distinções deixam de fazer sentido. A partir daí o “milagre” acelera e não temos remédio senão ser levados pelos rápidos. Como em qualquer viagem deste género, não somos exactamente à chegada os mesmos que éramos à partida. Estamos, eventualmente, um pouco mais à toa – mesmo que tudo o que causa confusão narrativa faça sentido instintivamente (alguém ao nosso lado invocava o surrealismo buñueliano, não é nada mal visto).

Pelo meio disto tudo, há que dizer que para nós O Ornitólogo é o melhor e mais conseguido filme de João Pedro Rodrigues, obra em que concepção e concretização vão de mãos dadas como nunca antes no seu cinema, aligeiradas pelo humor mais subterrâneo e burlesco introduzido na curta Manhã de Santo António. Não é um filme perfeito – sofre da mesma “pecha” das anteriores longas, a dificuldade de Rodrigues em “fechar” a narrativa, terminando-a de maneira que não traia o que ficou para trás, e a sua preferência por personagens insuficientemente desenvolvidas e trabalhadas (mesmo que, aqui, a simples presença física de Paul Hamy chegue e sobre para explicar tudo). Mas O Ornitólogo resolve muito melhor a questão do ritmo e da duração – sente-se que nada do que aqui está é redundante e que tudo tem uma razão para estar lá. Ver para crer, já dizia Tomé, santo tornado em careto tornado em surdo-mudo e ressuscitado por obra e graça do ornitólogo perdido.