Crítica

Harmonia portuguesa

Dois jovens músicos portugueses exploram ideias novas em torno do piano: Luís Barrigas e Isabel Rato.

O pianista Luís Barrigas: algumas melodias são memoráveis
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O pianista Luís Barrigas: algumas melodias são memoráveis

Continuando o seu meritório trabalho de edição de jazz português, a editora Sintoma Records vem desenvolvendo um catálogo discográfico que exibe a vitalidade e diversidade do jazz nacional contemporâneo, complementando o trabalho de outras editoras como Clean Feed, Porta Jazz e JACC Records. Um percurso que é agora continuado com a edição de dois novos discos de jovens pianistas, Luís Barrigas e Isabel Rato. Ambos jovens, de técnica apurada e afinco no trabalho de composição original, Barrigas e Rato partilham também uma certa afinidade estética, fixando as suas músicas à volta daquilo que alguém já chamou de “harmonia portuguesa” — melodias que cruzam sentimento e nostalgia e nos deixam a sensação de uma coisa que é só nossa.

O pianista Luís Barrigas já não será propriamente um novato. Apresentou-se ao mundo com o disco 2:30, também edição Sintoma, com o saxofonista Desidério Lázaro como convidado. Já nesse disco de estreia se percebia uma vontade de originalidade pela atenção dada às composições. Neste novo disco o pianista dá mais um passo à frente, desta vez liderando um ensemble fora do comum, onde se destacam três vozes: Sofia Vitória, Guida da Palma e João David Almeida. Estes têm a companhia de um par de saxofones (Desidério Lázaro e João Capinha) e uma secção rítmica sólida formada por Mário Franco no contrabaixo e Alexandre Alves na bateria.

Como o título indica, o disco reúne um conjunto de canções, todas originais — umas com palavras, outras sem. Dando especial relevo à voz, juntam-se aqui duas cantoras e um cantor que se vão entrelaçando em harmonias vocais. No apoio instrumental está um grupo de músicos infalíveis, onde se destacam o piano de Barrigas e o versátil saxofone de Desidério Lázaro. Realça-se a qualidade de algumas melodias verdadeiramente memoráveis (Manhã, por exemplo), e saúda-se o arrojo da empreitada, o complexo trabalho de composição, organização e arranjos, e a sua impecável execução. Fica a ideia, contudo, que alguns dos temas poderiam ganhar se trabalhados de forma mais simples, favorecendo uma interpretação menos rígida, mais fluída.

Para a sua estreia discográfica a pianista Isabel Rato apresenta Para Além da Curva da Estrada, bem acompanhada por uma equipa forte (partilha alguns músicos com o grupo de Barrigas): João David Almeida (voz), Desidério Lázaro (saxofones), Gonçalo Neto (guitarra), André Rosinha (contrabaixo) e Alexandre Alves (bateria). Além destes, o álbum conta ainda com a participação de um quarteto de cordas. Apesar de se tratar de uma estreia, a pianista revela desde logo ideias bem definidas. São sete temas originais, um deles a fazer companhia às palavras de Pessoa, juntando-se ainda dois temas tradicionais, um português, outros basco — estes com arranjos particulares.

A uma base estável mais ligada ao jazz, Rato tenta injectar na sua música uma certa portugalidade (será exagerado procurar uma reminescência de João Paulo Esteves da Silva?). A nível instrumental, além da pianista, bastante forte, destaca-se novamente o saxofone de Desidério. O grupo é globalmente coeso, respondendo bem aos desafios da composição. Já o quarteto de cordas não é essencial, acrescentando apenas uma pincelada pontual. Não sendo exuberante, globalmente a música do disco é equilibrada, embora nem sempre ao mesmo nível (a revisão de Milho da Nossa Terra era dispensável).

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