"Amamento de cara fechada, que é para as pessoas nem se meterem comigo"

Encontro Nacional de Amamentação decorreu este domingo em 18 cidades do país, apesar do calor.

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Nelson Garrido
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Encontro Nacional de Amamentação no Parque da Cidade, no Porto Nelson Garrido
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Encontro Nacional de Amamentação no Parque da Cidade, no Porto Nelson Garrido

O termómetro, no Porto, marcava 37 graus este domingo à tarde. A paisagem até parecia tremer. Romana Naruna nem tinha vontade de sair de casa, mas não podia deixar de o fazer. “Era bem feio”, disse ela. O Encontro Nacional de Amamentação estava marcado para as 17h30 em 18 cidades e ela respondia pelo Porto.

Chegou meia hora mais cedo, com o marido, José Silva, e as filhas – Ava, de três meses, e Malu, com quase três anos. Escolheu um lugar à sombra, um pouco elevado, perto da entrada do Parque da Cidade. Estendeu uma manta na relva e colou dois cartazes num pinheiro manso. “Parece que escolhemos o dia mais quente do ano”, comentou a jornalista, de 27 anos, com o companheiro. “Quer ver que ninguém vai aparecer!”

Ali, perto do Atlântico, soprava uma brisa suave. Rosa Santos e José Oliveira já lá estavam com a filha, Rita, de 14 meses. E, em menos de meia hora, começaram a aparecer outras mulheres e crianças para dar forma à iniciativa, que se repete pelo quarto ano consecutivo na Semana Mundial de Aleitamento Materno.

Quando Romana se mudou do Brasil para Portugal, em 2012, notou que a amamentação, a existir, se fazia com recato. Depois, descobriu no Facebook o “Amamentação com desmame natural”, um grupo fechado, que pretende “ser um espaço de informação, orientação e incentivo à amamentação”. E foi desse grupo que partiu este encontro.

O  encontro, que se multiplicava por 18, serve para trocar experiências, mas também para quem amamenta tentar “criar empatia” com quem está numa fase diferente da vida. Procura afirmar que amamentar é natural, que há desmame natural, e combater o “preconceito” que afecta quem opta pela “amamentação prolongada”.

“Não há muitos casos conhecidos de aleitamento prolongado; a partir do meio ano de vida, é raro haver quem amamente”, afirmou Rosa, perna estendida na manta esticada debaixo do mesmo pinheiro. É enfermeira e bem vê o espanto estampado sempre que alguém, no centro de saúde onde trabalha, sabe que ainda amamenta.

Não lhe parece que a entrada das mulheres no mercado de trabalho justifique tanto recurso a leite artificial, biberons, chuchas. “Muitas pessoas nem sabem muito bem como funciona a amamentação. Acham que o leite não chega, que é preciso dar um suplemento”, disse. Com a quebra abrupta da natalidade, o recuo da família como retaguarda, o recurso a infantários, há muito quem chegue à parentalidade sem nunca ter lidado com um bebé.

Romana sente-se observada sempre que amamenta em público. “As pessoas não são desagradáveis. É aquela censura travestida de preocupação”, considera. Numa ocasião, numa feira medieval, sentou-se à entrada do fraldário e começou a dar de mamar. Um funcionário perguntou-lhe se não preferia fazer aquilo lá dentro, numa sala. “Eu neguei umas cinco vezes. Ele insistiu. Acabei por ir. Comecei a chorar.”

Sabe que muitos olhares nem são de reprovação, que alguns expressam um certo encantamento ou mesmo alguma cumplicidade, mas já não se quer arriscar. “Eu amamento de cara fechada, que é para as pessoas nem se meterem comigo”, explicou. “Faço cara feia mesmo.”

Está decidida a amamentar enquanto aguentar e Ava quiser. Malu contava quase dois anos quando deixou de mamar. Romana tinha acabado de ficar grávida de Ava. “Foi natural. Ela não pedia, eu não oferecia. Eu estava cansada. A mãe é a outra parte da equação.” Por mais, que a Organização Mundial de Saúde diga que o leite materno é a melhor alimentação que um bebé pode ter, “se a mãe está cansada, é preciso levar isso em conta”.