Mosteiro de S. Bento da Vitória está de portas abertas, fora da sombra daquilo que já foi

As visitas guiadas ao Mosteiro de S. Bento da Vitória são uma viagem por três séculos, da era do hospital-militar das invasões francesas aos tempos em que se expõem e visitam os cenários do Teatro Nacional de S. João.

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As visitas ao TNSJ acontecem de terça a sábado, às 12h30. Pode-se entrar no mosteiro às 12h, de segunda a sexta-feira Paulo Pimenta
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Ana Almeida sai do escritório de edições e despede-se dos colegas na recepção do Mosteiro de São Bento da Vitória para ir almoçar. Sai para a rua com o mesmo nome, que separa o largo junto à antiga Cadeia da Relação, hoje Centro Português de Fotografia, do Miradouro da Vitória. Ao mesmo tempo, entram os dois últimos visitantes que esta manhã integram a visita guiada.

É uma interrupção na rotina deste mosteiro convertido em teatro, sob a égide do Teatro Nacional de S. João (TNSJ), que hoje tem responsabilidades sobre o mosteiro e o Teatro Carlos Alberto. Depois de muitos turistas terem entrado a pedir o mesmo – uma visita ao emblemático edifício construído durante mais de um século, entre 1604 e 1728 –, a direcção do TNSJ decidiu abrir as portas e guiar a visita ao mosteiro.

Já que a programação fica suspensa em Agosto, numa altura em que se prepara a temporada 2016/2017, as portas do TNSJ e do mosteiro abrem-se a uma nova forma de ver o teatro: nas suas entranhas. No mosteiro é possível visitar o claustro nobre convertido em sala de espectáculos, o Centro de Documentação do TNSJ – uma biblioteca de artes performativas aberta ao público –, a “Sala do Tribunal” para os espectáculos de pequena escala e a exposição Noites Brancas.

Quem não fale português pode acompanhar através de uma aplicação em inglês, francês e espanhol. Pode-se entrar no mosteiro às 12h, de segunda a sexta-feira, para uma visita de cerca de 40 minutos, por três euros.

É nesta hora de descanso, para actores, técnicos de palco e funcionários do teatro, que Sérgio Silva deixa a bilheteira para narrar a história deste espaço que já foi de tudo. Sobre o solo do antigo bairro judaico, onde os judeus viveram até à expulsão e perseguição “aos hereges” em 1496, é mandado construir, um século depois, o convento da Ordem de S. Bento do Porto. O convento beneditino torna-se, entretanto, num hospital militar para responder ao caos das invasões francesas, em 1809. Nem trinta anos depois, as disputas entre liberais e absolutistas após o Cerco do Porto levam os militares e monges dispersos a ocupar esta casa monástica.

Foi sede de regimentos de infantaria, batalhões de sapadores e de artilharia. Foi um tribunal militar. Uma prisão. Uma caserna militar. Um distrito de recrutamento e reserva. Foi sede de telégrafos militares. Mudou de funções, mas nunca de donos durante mais de dois séculos, até sofrer um incêndio, cair na degradação e deixar por fim as mãos dos militares.

Por entre tantos séculos e tantos ocupantes, a arquitectura do mosteiro tornou-se espelho da própria história. Construído numa tipologia maneirista e barroca, pelos desenhos do arquitecto Diogo Marques Lucas, discípulo do italiano Filippo Terzi, as influências de diferentes períodos são evidentes no interior do mosteiro e na ornamentação da igreja. Influência que seria talvez ainda mais evidente se tivessem chegado aos nossos dias o mobiliário e os objectos decorativos que acabaram por ser levados pelas infinitas mãos que tiveram poder no mosteiro.

Apesar de o nome se ter vulgarizado, não é a todo o Mosteiro de S. Bento da Vitória que temos acesso. Apenas – se é possível usar esta palavra para um espaço já por si tão grande – a ala nascente, parte da ala sul e o claustro pertencem ao espaço cultural, em tempos propriedade da Orquestra Sinfónica do Porto. Em 2007, dois anos depois da passagem da orquestra para a então recém-inaugurada Casa da Música, o espaço passa para as mãos do teatro. O resto do edifício foi atribuído à Igreja e ao Arquivo Distrital do Porto.

“Esta é uma rua muito estreita. A maioria dos turistas não espera encontrar um mosteiro, muito menos um teatro. É uma agradável surpresa.” Rosalina Babo sabe-o pelos 19 anos que trabalha no TNSJ. “Entram, visitam e a visão dos claustros deixa-os muito surpreendidos.”

Caroline e Jéssica também entraram na visita “por acaso” e o guia em português foi uma surpresa. “Nas tours, os guias falam sempre em inglês e estávamos a perceber pouco. Mas hoje passámos aqui e ficámos com muita curiosidade”, conta Caroline, brasileira e estudante de Arquitectura, que se diz encantada pelo edificado do mosteiro. Mais tarde, querem voltar para ver uma peça e “talvez o caminho vá dar à visita ao S. João”. As visitas ao TNSJ acontecem de terça a sábado, às 12h30, e custam cinco euros, ou seis euros se comprar a visita conjunta com o mosteiro.

É nestes sábados à noite que as visitas mais se enchem de vozes portuguesas, muitas com sotaque nortenho. “Nota-se que os portuenses aproveitam o fim-de-semana para conhecer o teatro. Afinal podem passar lá todos os dias, mas não o conhecem por dentro nem a sua história”, reconhece Rosalina Babo.

Cenários em exposição

Quando uma peça deixa os palcos, a rotina repete-se. As luzes apagam-se, os flyers vão para a gaveta e recolhem-se os cartazes. Os actores hão-de esquecer as falas e os cenários são levados para o armazém. E lá ficam.

O manto do Mercador de Veneza. O chão de madeira inclinado de Don Juan. Os berbequins e as sanitas da tragédia cómica Ubus. A cama, o caixão e as flores d’O Saque. O vestido esfaqueado d’As Lições. Mesmo as folhas e o terramoto das Casas Pardas. E a gigante bola vermelha de Tambores da Noite.

“Mas os técnicos não queriam que ficassem sempre guardados e insistiram muito para que fossem para exposição.” É deles a ideia que criou Noites Brancas, a exposição cénica interactiva que enche os corredores do primeiro andar do mosteiro, nos antigos corredores de acesso aos dormitórios. Estão lá, desde Abril, oito cenários, adereços, roupas, jogos de luzes e de som, vídeos e fotografias de cena de oito peças encenadas no TNSJ. “Temos aqui o que esteve em cima do palco das peças mais emblemáticas dos últimos anos do S. João”, explica Rosalina.

“Fez-me sentir em palco”, é a reacção de Jéssica, amante de teatro.

Num autêntica viagem pelo som e pela luz, entra-se num percurso de descoberta de alguns truques da cenografia e onde se pode não só ver, como sentir os figurinos. É a segunda vida dos cenários de Pedro Tudela, Nuno Carinhas, Giorgio Barberio Corsetti e João Mendes Ribeiro e dos figurinos de Bernando Monteiro, Maria Gambina, Nuno Carinhas e Vin Burnham.

É aqui, praticamente em cima do palco, que termina a visita. Antes, o grupo de cerca de 15 pessoas parara na “Sala do Tribunal”, ainda conhecida pela função que desempenhara quando este espaço foi sede de um tribunal militar. Hoje é lá que decorrem as peças de pequena escala ou os concertos mais intimistas, sobre um restauro cru, onde se vê grande parte das madeiras e paredes originais.

No rés-do-chão, onde chegamos pelas escadas de Santa Escolástica, o Centro de Documentação é um arquivo de artes cénicas, fundamentalmente composto pela história do próprio TNSJ, num antigo espaço de descanso dos monges. Guarda as gravações das peças, autênticas bíblias da representação e múltiplos livros sobre teatro, cinema, música e dança, que qualquer pessoa pode consultar. E tudo o que seja programa, flyer ou cartaz tem também aqui um local reservado.

Quem sabe venha aí uma nova edição do “Assalto ao arquivo”, um evento que doou flyers, muppies e todo o género de cartazes dos últimos 20 anos de peças do TNSJ a quem os viesse buscar.

E, como Rosalina antecipara, a vista do Claustro Nobre do mosteiro valeu aos visitantes exclamações de surpresa. O espaço, fechado à luz solar, tem uma carga dramática. Talvez pese a atmosfera “do Silêncio” ou “do Cemitério” como também é designado por ter sido o local de sepultura de monges, seculares e ministros. Luzes que dão realce à arquitectura e a uma acústica acolhedora. E quem sai do mosteiro relembra como começou a visita: “Este espaço sempre foi uma importante casa monástica e com ela uma importante escola de artes”.

Texto editado por Ana Fernandes