Opinião

O injustificável acordo orto(?)gráfico

A questão do chamado “acordo ortográfico” consiste, essencialmente, no facto de ele ser uma completa inutilidade.

Reabriu, porventura com redobrada intensidade, a (felizmente) nunca fechada querela acerca do chamado “acordo ortográfico”.

Importa começar por dizer que a alteração às normas da escrita do português que dá por esse nome é uma aberração injustificável, assente em equívocos provenientes de uma notória falta de ponderação e de uma gritante insensibilidade linguística.

É, evidentemente, por isso que tantos escritores recusam ter em conta o rol de incongruências que compromete e invalida essa proposta nova forma de escrever português.

Chamando as coisas pelos seus nomes, é uma completa irresponsabilidade que os políticos (de vários sectores) persistam em defender tamanha aberração, ou, como fez, há dias, numa entrevista, o meu velho amigo e excelente poeta Luís Filipe Castro Mendes, assumam uma atitude de ligeireza e quase indiferença perante a medonha agressão que o “Acordo” representa.

A questão do chamado “acordo ortográfico” consiste, essencialmente, no facto de ele ser uma completa inutilidade, que desfigura desnecessariamente o português escrito, em nome de um suposto objectivo cujo ponto de partida não passa do erro gerado por um entendimento absurdo do que faz divergir os diferentes usos da língua.

A que se destinariam, então, as alterações agora introduzidas na nossa grafia, tal como ela tem existido desde 1945?

O “objectivo” seria, segundo se afirma, “a unificação da ortografia do português em todo o espaço lusófono”.

A pretensa necessidade de aproximação colocar-se-ia, sobretudo, entre as duas variantes ortográficas principais, as utilizadas em Portugal e no Brasil.

O que foi feito assenta na suposição errónea de que as diferenças entre o português europeu e o sul-americano são fundamentalmente ortográficas, quando sabemos bem que a separação maior dessas duas vertentes não reside no domínio da ortografia, e sim nos planos vocabular e sintáctico.

Nenhum brasileiro, alguma vez, deixou de entender um texto oriundo de Portugal, por causa da grafia usada até há pouco (e que continua a ser utilizada por muitos, entre os quais me incluo), assim como nenhum português jamais encontrou qualquer especial dificuldade, por causa das diferenças gráficas, em apreender o que tenha sido escrito de acordo com as normas vigentes em terras brasileiras.

Poderei, a simples título de exemplo, citar um caso que me parece representativo de diferenças de outra ordem, que não a ortográfica, entre as duas vertentes da língua.

Encontrei, em dado momento, uma notícia publicada no jornal O Globo, com o curioso título “Jornalista preso por grampos”.

Era na altura em que muito se falava dos escândalos do jornal britânico The Sun, quando vários jornalistas foram acusados de fazer escutas telefónicas, ilegítimas, evidentemente. Lendo o artigo, percebia-se facilmente o que a frase “jornalista preso por grampos” significava: é claro que os “grampos” eram as tais “escutas telefónicas”, que teriam levado à prisão do jornalista em causa. Mostrei esta frase a várias pessoas, que, sem conhecerem o texto da notícia, não conseguiram interpretá-la, imaginando talvez que o jornalista teria sido pendurado com molas, numa corda, como roupa a secar.

Na verdade, nenhum acordo ortográfico poderá impedir estas barreiras semânticas, assim como, no domínio da construção frásica, nenhum brasileiro deixará de dizer “Me diga”, onde os portugueses dizem “Diga-me”; e também não vale a pena supor que, algum dia, algum brasileiro escreva ou, menos ainda, diga “Dar-te-ei”, “Far-me-ás” e outras conjugações pronominais como estas.

Tanto no plano vocabular como no da construção frásica, as diferenças são, como se sabe, múltiplas e enormes. Alguém já se preocupou em fazer um “acordo” para essas áreas?

É claro que não: toda a gente sabe que isso seria estúpido e inútil, tão estúpido e tão inútil como o chamado “acordo ortográfico”, que não se entende como não foi ainda completamente e definitivamente afastado das nossas vidas, continuando, pelo contrário, a espreitar-nos e a assombrar-nos, em cada esquina televisiva e em vários periódicos de estimação (e saúdo, naturalmente, os que não se submeteram a essa prática aberrante).

As alterações que o acordo estipula vão, em geral, contra a etimologia das palavras: são, evidentemente, entre muitos outros, os casos de “actor” ou de “espectador”, que, perdendo-o agora em português, conservam o “c” em várias das línguas de origem latina, o mesmo acontecendo com “espectro”, por exemplo – o que sucede até em inglês, que tem, como sabemos, uma ampla raiz latina. 

Para os escritores, em particular, essas mudanças implicam também uma perda de sensibilidade linguística, já que descaracterizam as palavras, despojando-as de traços inalienáveis da sua natureza filológica, com tanto peso na imagem gráfica respectiva.

É óbvio que, para dar como exemplo um caso frequentemente referido, a aberrante grafia “espetador”, aproximando o vocábulo do verbo “espetar”, é uma monstruosidade que choca quem tiver um mínimo daquela sensibilidade linguística que mencionei.

Não posso deixar de referir, muito rapidamente, o facto de, entre muitos outros casos semelhantes, “espectador”, “recepção”, “óptico”, manterem, na grafia brasileira, respectivamente, o “c” e os “p”, enquanto em Portugal eles são absurdamente eliminados. Não se destinava o acordo a “unificar a ortografia em todo o espaço lusófono”?! É assim que a unificação é feita? O que justifica a supressão dessas consoantes, se, em vez de aproximar, ela afasta as duas grafias?

Terminarei com mais um significativo caso, elucidativo, a meu ver, da insensatez, ou, talvez mais exactamente, da incompetência linguística, dos responsáveis pela elaboração do “acordo”: ao abolirem o “p” nas palavras “óptica” e “óptico”, relacionadas com a visão, estabelecem uma confusão absoluta entre esse fenómeno e o fenómeno acústico, uma vez que o vocábulo “ótico”, que, obviamente, já tinha esta grafia, se tornou indistinto do outro “óptico”, o visual.

Em Outubro de 1958, o número 3 dos Cadernos do Meio-Dia, dirigidos por António Ramos Rosa e Casimiro de Brito e publicados em Faro, abria com um poema de Emiliano da Costa, intitulado “Quiasmas”, cuja base era, precisamente, um jogo entre o “óptico” visual e o “ótico” auditivo.

Eis o curto poema: “Num cruzamento fibrilar, neurótico, / Feito de som e luz, de luz e som, / Ouvi-me, dentro, vi-me um orfeom, / Eu, todo sensorial – um ótico-óptico. // Como é belo ouvir, / Ouvir tua voz, / Depois teu olhar / Ver dentro de nós! // Tecidas por mim, / Tecidas em cruz, / Fibras sensoriais / De ver e de ouvir. / – Óticas de som. / – Ópticas de luz.”

Com o chamado “acordo ortográfico”, este poema não poderia existir.

Termino, apelando ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, ao Ministro da Cultura, para que reabram este processo, no cumprimento do dever cultural que é a defesa das raízes e das características linguísticas e filológicas do português.

Poeta, crítico literário e encenador