O meu barco é menor que o teu

Colear entre cordões de dunas num barco de cinco metros que antes deu choco e cavala a muitas bocas não é coisa que se repita ao acaso pelos 18 mil hectares da ria Formosa. Todos — mas não mais do que oito — a bordo do saveiro algarvio, à corda das marés.

À volta está um cardume de barcos: o barco-táxi, a lancha do Ribeiro, semi-rígidos prontos a sobrevoar as águas da ria Formosa, um catamarã no qual imaginamos Bond girls a encher flûtes com champanhe. “Todos gostam de acelerar”, diz Paulo Nugas, director da Formosamar, que realiza passeios na ria com foco no ecoturismo. “Mas as outras embarcações são mais um business. Quando lhes tocamos é ferro, não há história.”

Faro sempre foi entreposto comercial, desde os fenícios, por isso, ver barcos às voltas é quase um dado adquirido, ainda que a actividade de hoje seja outra — trocou-se o trabalho pelo lazer, em grande escala. Mas este Flamingo (assim se chama o saveiro trazido da Quarteira, onde há 30 anos talvez carregasse polvos apanhados com alcatruzes e muregonas) tem motor de 9,9 cavalos e a velocidade de uma planura.

PÚBLICO -
Foto

Paulo debruça-se para passar os dedos na água. Tem quatro embarcações semelhantes a esta e é dos poucos na costa mediterrânica algarvia e no turismo (embora não o único) a explorar o património náutico. “Todos os anos a madeira tem de ser lixada e algumas partes substituídas. É preciso encontrar a tinta certa, os produtos certos. E só trabalhamos com madeiras nobres, como kambalas [provenientes de África, duradouras e pouco permeáveis].” Resumindo, “é um trabalho chato; ninguém o quer”, prova disso é a sua mais recente venda: um saveiro que hoje serve de vaso a um restaurante da Quinta do Lago. Além de complexa, a actividade é dispendiosa, porque depende de competências raras. “Não é fácil encontrar calafates. Para se ter uma ideia, no estaleiro de Olhão cobram 20 euros à hora ao sábado e 25 ao domingo.”

“Este tipo de embarcações está praticamente em extinção”, lamenta Brígida Baptista, da Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo, sedeada em Santa Luzia, Tavira, que aponta para orçamentos de recuperação que ultrapassam os cinco mil euros e recorda o abate massivo de pesqueiros em cena a partir dos anos de 1980. Em 2008, o fim dos subsídios comunitários à construção de embarcações de pesca ditou uma viragem dos estaleiros algarvios para a navegação de recreio. “Por cada embarcação de fibra comprada, eu via ser abatida uma de madeira. Desapareceram muitas”, conta Paulo Nugas.

O privilégio dos pequenos

Enquanto percebemos que madeira é esta, Francisco Gonçalves, o biólogo de 26 anos que guia a viagem de 45 minutos pela ria, ergue um painel ilustrado de aves e lança perguntas aos seis passageiros, como numa sala de aula flutuante. Conduz passeios há “dois anos e uns trocos”, seis dias por semana no Verão e cinco no Inverno, e confirma que a procura tem aumentado, sobretudo por parte dos estrangeiros.

PÚBLICO -
Enric Vives-Rubio

Para quem queria ver flamingos, a expectativa complica-se. “Eles e os pernilongos estão mais na zona das salinas. Fazemos passeios pedestres aí”, informa. Por cá, andam mais ostraceiros, garças brancas, colhereiros ou pilritos de peito preto, dependendo da época. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, o Parque Natural da Ria Formosa é “local de invernada para um número considerável de aves aquáticas, local de nidificação para as que chegam na Primavera ou fazem da ria Formosa o seu habitat permanente”.

Paulo pede a Francisco que aproxime a proa das margens lamacentas. “Mais, encosta mais!” Nos canais estreitos, onde só uma embarcação pequena e pouco turbulenta como um saveiro é autorizada a navegar, vemos uns quantos boca-cava-terra. “Ah! É um caranguejo?” “Yes, it’s a crab.

PÚBLICO -
Foto

A poluição gerada por um saveiro (ainda que hoje use o motor em vez da vela) é significativamente menor do que a das restantes embarcações que atracam na marina, como se pode deduzir pelas contas de Paulo Nugas: “Duas horas num semi-rígido custam uns 120 euros de combustível, enquanto um barco destes, se chegar aos 15 euros, é muito.” O mesmo pode dizer-se da ondulação produzida durante a navegação, o que protege as margens da ria e a biodiversidade.

O grande turismo

Mas “o grande turismo é para as ilhas”, como a do Farol, onde “basta o vento para se sair de lá moreno”. “Faz lembrar as praias do Norte”, dir-nos-ia Joana (nome fictício), que trocou Santa Maria da Feira por Faro há dois anos. À entrada da residencial onde é recepcionista, atrapalham-se os panfletos a anunciar passeios de barco: circuito pelas ilhas por 33 euros; ida e volta ao Farol por cinco euros. Frequência de viagens? Pouca. Turistas? “Ui, tantos!”

Nos últimos três anos, “Faro deu um salto qualitativo, entrou na rota turística”, analisa Paulo, enquanto ajeita o pólo para proteger o escaldão de ontem. O timing coincide com a mudança do executivo em 2013, que terá resultado numa “postura mais activa”, mesmo que continuamente voltada para o Verão, um problema de sazonalidade que o Algarve quer combater com a aposta na promoção de rotas pedestres e cicláveis e que Paulo Nugas já reverteu. Para os estrangeiros, o Inverno e a chuva não são entraves para chegar mais perto da natureza, conta.

Voltando à ria, outra das grandes riquezas chega ao prato em forma de peixe, crustáceo ou molusco. “Em 2000, 97% dos viveiros do Algarve estavam na ria Formosa e 80% das ostras apanhadas são para exportação”, informa Francisco, orgulhoso dos números que estes homens e mulheres curvados, sob o sol de ferro, tratam de fabricar assim que a maré vaza. É como se a ria aparecesse dividida em minifúndios e nós, no Flamingo, fizéssemos parte do ecossistema. Mas o maior espanto, garante o biólogo, atinge o auge “quando chegamos à praia [de Faro] e eles [os visitantes] vêem de um lado a ria e do outro a rebentação”.

Os aviões continuam a sobrevoar o parque. Ingleses, espanhóis, franceses, holandeses hão-de chegar, olhar a marina e perguntar-se sobre como será o outro lado. Paulo Nugas, que é farense e cresceu na ria, mesmo sem ter “nada a ver com pescadores”, esteve para desistir de tudo. “Depois percebi que não devia. Comecei a ver casais que entravam no barco chateados [coloca o rosto sisudo] e saíam amigos. Aconteceu dezenas de vezes. Não podia deixar isto…”

No próximo sábado série Por este rio acima navega no Sado, a bordo de um galeão