Nando Antunes, um futebolista perseguido em dois países

Um dos irmãos de Zico chegou a ser preso e torturado no Brasil e foi perseguido pela PIDE quando esteve em Portugal.

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Zico é o segundo a contar da esquerda e Fernando Antunes Coimbra DR

Quando se refere a qualquer coisa que envolva ditadura e repressão, Fernando Antunes Coimbra acrescenta sempre qualquer coisa. Vai polvilhando a sua história com “maldita”, malvada” e “filhos da puta” sempre que sente necessidade de reforçar um ponto em particular. O seu nome não será internacionalmente reconhecido, mas o apelido é. Antunes e Coimbra também são apelidos de um dos melhores jogadores brasileiros de sempre, nascido Arthur e conhecido como Zico. Nando é um dos seus irmãos mais velhos, também foi futebolista, mas a sua história não foi feita de golos.

Sofreu a perseguição de duas ditaduras, a brasileira e a portuguesa, porque, quando tinha 18 anos, foi voluntário num programa de alfabetização. Basicamente, quis ensinar pessoas a ler e, por isso, foi preso e chegou a ser torturado. “O meu crime foi ser professor”, diz ao PÚBLICO Nando Antunes, hoje com 71 anos, mas com uma memória muito fresca do que aconteceu quando era um jovem jogador a despontar nas camadas base do Fluminense. Agora, Nando já está reformado e vive no Rio de Janeiro. Escreve, pinta, cuida dos netos, nem sequer vai sair de casa enquanto a sua cidade estiver ocupada pelos Jogos Olímpicos, e conta a quem quiser ouvir a história que guardou durante mais de 40 anos. Só agora a conta porque antes, diz, tinha de proteger os irmãos.

A história precisa de um prólogo e esse é semelhante ao da história de Zico. Nando foi o terceiro dos seis filhos de José Antunes Coimbra, um português de Tondela que foi para o Brasil com dez anos de idade e que levou com ele uma devoção ao Sporting Clube de Portugal, a que se acrescentaria igual devoção pelo carioca Flamengo. Todos os domingos, José ouvia numa telefonia de ondas curtas os relatos dos jogos do Sporting, para além de receber a cada 15 dias o jornal do clube “leonino”, com as notícias, não só do futebol, mas também, recorda Nando, dos feitos de Livramento no hóquei em patins e de Agostinho no ciclismo. “O papai era um torcedor fanático do Sporting”, conta.

José Antunes Coimbra não queria que nenhum dos filhos fosse profissional de futebol, mas pode dizer-se que fracassou totalmente neste propósito. Dos seus seis filhos, só um não deu jogador, Maria José, a única rapariga. Todos os outros, em algum momento das suas vidas, foram jogadores. Zeca Antunes, o mais velho, jogou no Fluminense, no América e chegou à selecção, tal como Edu, que jogou ainda no Bahia e no Vasco da Gama. Tonico também jogou futebol, mas com menos projecção, e Nando esteve na formação do Fluminense e passou por vários clubes brasileiros (Madureira, Ceará, América) e dois portugueses (Belenenses e Gil Vicente).

Ao mesmo tempo que jogava nas categorias de base do Fluminense, Nando cumpria um dos desejos do pai, era estudante de filosofia e, a certa altura, aceitou o desafio da irmã, o de ser voluntário no Plano Nacional de Alfabetização (PNA), como professor. “A minha irmã falou comigo, fiz o concurso e passámos. Éramos nós os dois e mais uns primos meus. Fizemos três meses de formação e começámos a dar aulas. Mas em Março de 1964 rebentou a ditadura e eles extinguiram o PNA. Aqui começou a perseguição”, recorda Nando. “Mas, como estava no Fluminense, nem me preocupei, continuei a jogar bola.”

Depois, foi saltando de clube em clube, com sucesso relativo, mas acabava sempre por ser afastado e não percebia porquê. Até chegou a estar no América ao mesmo tempo dos irmãos Antunes e Edu, com quem iria jogar na frente do ataque, mas acabaria por ser afastado pelo treinador. Depois de um período com sucesso no Ceará, apareceu uma proposta para jogar em Portugal, no Belenenses, e Nando não hesitou. Em 1968, embarcou rumo a Lisboa e o que pensava ser o início de uma carreira de sucesso no futebol português, acabou por ser dois meses de sobressalto a olhar pelo ombro.

“Quando cheguei, levaram-me para o escritório do Belenenses, na Avenida da Liberdade. A proposta era só metade do que tinham oferecido antes e não assinei. Disseram-me que podia ficar a treinar no Belenenses e deram-me algum dinheiro, quatro mil escudos. Foi o que fiz, treinava de manhã, almoçava e ia dormir para o hotel”, conta.

Depois, o susto maior. “Um dia bateram na porta do meu quarto. Eram dois caras de terno, pensava que era da imprensa e abri. Os caras mostraram a carteira da PIDE e eu fiquei apavorado, mas não demonstrei. Deram a entender que sabiam muita coisa minha e queriam meus documentos. Tive sorte porque segui um conselho que me deram, de dizer que tinha os documentos todos na embaixada brasileira. Eles foram embora, mas disseram que iam voltar”, diz Nando, que alguns dias depois voltaria a ter um encontro imediato com alguém que também sabia da sua história.

“No Restelo estava tomando banho e disseram-me que estava lá fora alguém querendo falar comigo. Ele me disse que eu estava complicando muito e me disse para eu ter cuidado porque era filho de portugueses e podia ir parar à guerra em África. Sozinho em Lisboa, com 21 anos, fiquei desesperado. Falei com um representante do Belenenses que me colocou a viver numa pensão ao lado da pastelaria de Belém e passei a ir a pé para o estádio”, recorda. O fim da aventura lisboeta estava quase a terminar, mas ainda passou por mais um susto. A conselho de um representante do Belenenses, decidiu voltar para o Brasil sem dizer nada a ninguém e ficou um dia inteiro no aeroporto à espera do avião. “Qualquer pessoa que eu visse, pensava que me vinha prender. Só quando estava no ar é que respirei fundo.”

No pouco tempo que esteve em Lisboa, Nando fez um amigo chamado Eusébio da Silva Ferreira, por via de um colega no Belenenses que também era moçambicano. “Ficámos amigos. Ele era um apaixonado pelo Brasil e era um cara excepcional. O filho da puta do Salazar, para não deixar ele sair, obrigou-o a entrar para o serviço militar. Muitas vezes ia com ele ao quartel para ele assinar o ponto. Que maldade era a ditadura. Ainda tem gente que gosta.” Nando ainda voltaria, mais tarde, a Portugal para jogar no Gil Vicente, mas sofreu uma lesão grave e a sua carreira acabou quando tinha 26 anos.

Nando regressou ao Brasil e não pensou mais em futebol. Não contou a ninguém o que se tinha passado, nem aos pais, nem aos irmãos. Zico, nesta altura já despontava no Flamengo, a prometer o talento que mais tarde iria mostrar. Mas a perseguição continuou. Seria preso com vários outro membros da sua família e esteve cinco dias no cárcere. “Estive dois dias em pé com as mãos na cabeça. Quando as pernas começavam a falhar, eles vinham com as espingardas com baioneta, encostavam-me a baioneta nas costas e diziam-me. Se tu caíres, nós vamos te furar. Era interrogado toda a noite com vendas nos olhos, queriam saber se eu era de alguma célula comunista.”

Depois da passagem pelo Gil Vicente em 1971-72, Nando não voltou a jogar futebol. Fez vida como vendedor e, depois, como funcionário do ministério da educação no Brasil, sem nunca falar da perseguição, convencido de que podia prejudicar os seus irmãos e considera que a sua ligação ao PNA impediu, ainda durante a ditadura, que Edu fosse convocado para a selecção brasileira no Mundial de 1970 (em que o Brasil foi campeão) e que Zico fosse aos Jogos Olímpicos de 1972, ele que marcara o golo decisivo da qualificação. Mas Nando não se arrepende de nada do que fez aos 18 anos. “Claro que não. Fazia tudo de novo.”