Opinião

500 anos depois de Thomas More: cansados da Utopia, desligados da Cultura

Começamos a perceber que não conseguimos pensar em saídas, de tão imóveis que nos tornámos, de tão reféns que somos de coisa nenhuma.

“Sem dúvida, caro More, para vos falar com toda a franqueza, em toda a parte em que a propriedade é privada, em que o dinheiro é senhor absoluto, é difícil e quase impossível que os negócios públicos sejam bem orientados, floresçam e prosperem.”

Thomas More, Utopia

Faz agora 500 anos que estas palavras foram escritas por Thomas More na sua marcante Utopia, proferidas nesse texto por um português, Mestre Rafael. Este imaginário português é a personagem perfeita para em 1516 questionar todo o statu quo e apresentar uma ilha com um modelo de governo e de vida radicalmente diferente dos conhecidos. Nesse momento, a Europa letrada via nos portugueses os arautos da mudança, da inovação, da utopia.

More sabia bem o quão irreal era a sua narrativa, ou não a tivesse designado como “não-lugar”, o não-topos. Mas isso não o inibiu de lançar para o papel o desejo tornado texto de algo diferente, mesmo que impossível. Era, obviamente, o confronto, matizado com algumas coisas de outros pensadores, especialmente, de Platão, que o pensador procurava lançar na discussão.

E esta vontade de falar e de reflectir sobre uma não-realidade, algo de não realizável, é a dimensão que tão correntemente se percebe que nos falta hoje em dia. Parece que somos cada vez mais incapazes de pensar além do corriqueiro dia-a-dia, do normal e do banal “politicamente correcto”, como se o próprio acto de ir mais além no pensamento fosse uma não-necessidade, um pecado, até, uma mácula que nos acusaria de irresponsabilidade.

Relembro constantemente Cioran quando dizia que nos esvaziamos de pensar o diferente, o utópico. De facto, após a tão proclamada falência das utopias do século XX, especialmente com a desagregação soviética, parece que nos regozijamos por ter chegado a lado nenhum, tendo decidido não mais sonhar.

Foi, somos, verdadeiramente, um Fim da História, no título do clássico de Fukuyama. Nada mais há a pensar porque para lá da realidade bancária nada há que possa fazer crescer um valor de PIB ou uma economia subjugada à gestão financeira. O modelo estava encontrado e encerrada a busca. Mas a busca dera-se por encerrada, não porque se chegou a um Eldorado, mas porque ela nos cansou, avassalados que estamos com a gestão orçamental corrente.

O problema da Utopia é que ela cansa e não é nunca encontrada...mais vale o imobilismo da burocracia aos dramas existenciais das procuras, decidimos nós enquanto civilização europeia. Não se percebeu –ou melhor, foi bom, e proveitoso para muitos, deixar-se de perceber– que o mais importante na busca não é o fim em si, tanto mais se ele for a tal Utopia, o não-lugar, mas sim o caminho. Só o caminho interessa.

Mestre Rafael, esse que é a imagem de como Thomas More nos via, “utópicos” de tão banhados por novos mundos, poderia até habitar em nós, hoje novamente tão imersos que estamos em novas realidades. Mas não, a avalancha de informação que diariamente temos acesso não parece despertar em nós a centelha da mudança. Poderiam parecer semelhantes os tempos! Mas não.

O que More escreveu, de tão actual que é, não vale nada. Vale exactamente o mesmo que Platão vale numa balança de trocas. Parece uma simples curiosidade livresca, não um instrumento de questionamento, de constante actualização na praxis das nossas formas de nos relacionarmos com o mundo, com os outros, com a Res Publica, tornando-nos incapazes de notar que estes textos correspondem a um acumular de reflexão sobre muitas crises que nos poderia ser muito útil hoje.

Mas tal como no tempo de More, uns Europeus seguiram novas vagas e novos caminhos, seja com a Reforma, seja com as novas práticas científicas e filosóficas. Portugal, vinte anos depois desta obra que usava um português como porta-voz das grandes novas, abria as portas à Inquisição, em 1536. O caminho estava escolhido: se More tivesse escrito a Utopia uns 50 anos mais tarde, não teria inventado uma personagem portuguesa para dar “novos mundos ao mundo”!

Mas este passado, estes textos, nada têm de útil para os nossos líderes, nada têm de útil para nós. Vivemos o momento presente desvinculados da nossa cultura, dos nossos pensadores, desapegados do pensar e desiludidos com tudo. Baralhados nos números, viciados nos índices, deitámos a Utopia fora no saco do que é supérfluo.

Só que não o era. E agora, começamos a perceber que não conseguimos pensar em saídas, de tão imóveis que nos tornámos, de tão reféns que somos de coisa nenhuma.

Coordenador da Área de Ciência das Religiões da Univ. Lusófona