Nelson Garrido
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Nelson Garrido

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"Eu não sou racista, mas não gosto de ciganos"

E se, para bom entendedor, meia palavra basta, documentem-se, procurem no Google e leiam antes de tecerem juízos de valor e acusações de teor racista, saudosas de outros tempos e outras inquisições onde todos os males de um país juntamente com a sua sede de sangue se resolvem em fogueiras

Ou assim começava o "sketch" dos "Contemporâneos", numa clara alusão a todos quantos, em Portugal, dizem não ser racistas, mas… O mesmo parece aplicar-se ao psicólogo Quintino Aires, o qual, no programa da manhã da TVI da passada quarta-feira, entre muitos outros impropérios contra os elementos da etnia cigana, afirmou que "a maioria trafica droga e não trabalha" e "não respeita as normas do país onde vive. Invadem as escolas, invadem os hospitais. Não respeitam regra absolutamente nenhuma", rematando com “querem subsídios para todos e ainda batem nas pessoas se não estão lá. Querem a escola à maneira deles. Chegam aos hospitais, invadem, não respeitam as regras."

Infelizmente, e independentemente das queixas já levadas a cabo por não menos de 14 associações ciganas contra a TVI e a Ordem dos Psicólogos, os comentários de apoio ao dito psicólogo não se fizeram esperar. Afinal, de acordo com os internautas que de Norte a Sul compõem este nosso país, Quintino Aires tem direito à “liberdade de expressão“ porque “não é crime dizer a verdade“ e “o Dr. Quintino teve a coragem de dizer a realidade sobre a atitude geral dos ciganos“. Mais, parece que todos os ciganos, e sublinho todos, “não trabalham nem pagam renda, mas à porta têm carros de alta cilindrada“, “quando vão ao hospital passam à frente e partem coisas“ e “ciganos contribuintes são tão reais como pokémons“, sendo que “30 ciganos atacaram os bombeiros de Campo Maior“ e, portanto, por estes 30 hão-de pagar todos os demais. É justo. Se continuarmos a ler ficamos igualmente a perceber que a Ameixoeira está cheia de ciganos e “mais parece o Iraque“, “o povo português é pacífico e os ciganos são todos racistas“, “ os ciganos vão à estação dos CTT levantam o dinheiro, apanham banhos de sol e só bebem cerveja“, “até mesmo os vendedores de feiras a maior parte roubam as roupas“, passando por dizer como os ciganos “adoram viver desta forma ambulante e provocar medo e receio nos outros, pensam que mandam em tudo, não têm regras de higiene, são vingativos, maldizentes e não querem nada, nadinha saber de trabalho!“, terminando com um “nao querem integrar-se, nao querem trabalhar, vivem de subsídios (para nao falar de outras "actividades"), amedrontam tudo e todas“. Agora a sério, todos os comentários supracitados são de teor racista e o racismo é crime de acordo com o código penal português. Portanto, Dr. Quintino, não se preocupe, pois havendo justiça não estará só na pildra, ou não fosse a maior parte dos comentários acompanhada pelo nome e fotografia de quem os profere.

E agora, ainda mais a sério. Sim, existe um estudo, bastante recente por sinal (2015), sobre a etnia cigana em Portugal, o qual sublinha a necessidade que todos temos de dar ainda mais passos se, de facto, queremos incluir no nosso seio todos quantos se identificam como diferentes de nós, ciganos incluídos. Assim sendo, e apesar da ainda baixa escolarização e casamentos entre os 13 e 15 anos, a gravidez adolescente já não é tão frequente, nascendo o primeiro filho aos 19 anos de idade, em média. Cerca de 92% dos ciganos têm médico de família, 71% dos casos com filhos menores de 18 anos têm as vacinas em dia e a maior parte vive em moradias ou apartamentos de renda social. E se mais de metade dos ciganos não trabalham, tal deve-se ao facto de mais de metade dos ciganos terem menos de 18 anos de idade. "Capiche"?

E se, para bom entendedor, meia palavra basta, documentem-se, procurem no Google e leiam antes de tecerem juízos de valor e acusações de teor racista, saudosas de outros tempos e outras inquisições onde todos os males de um país juntamente com a sua sede de sangue se resolvem em fogueiras, findas as quais os males continuam por resolver.

Por consequência, comecem por não chamar cigano a quem é cigano, porque a mim também ninguém me chama português, mas João, e os ciganos também têm nomes: Gonçalo, Cristiano, Manolo, Jasmim, Sara, Vladimir, entre tantos outros. E depois de os tratarem pelo nome, lembrem-se da importância da escolaridade como o primeiro, e maior passo, no sentido da integração dos ciganos no mercado de trabalho e, por consequência, na sociedade. Mesmo que os ditos ciganos não queiram, ou não saibam, estudar. Afinal, estamos a lidar com uma cultura e um modo de viver com séculos de existência onde toda e qualquer mudança terá de ter em conta o factor tempo como elemento primordial.

Isto porque, no fim, queremos escrever “Não somos racistas.", desta vez com um ponto final e sem nenhum “mas“.