Marco Gil
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Marco Gil

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As escolhas da vida são tão certas como erradas

A vida não teria o mesmo sentido se optássemos sempre pelo lado correcto. São os caminhos improváveis que nos fazem seguir em frente ou cada vez mais longe

Bateu com a porta, foi pelas escadas para não esperar pelo elevador e quando saía do prédio, num instante desenhado pelo mundo, passava uma criança que deixou cair uma bola, ele baixou-se para a apanhar e quando levantava o olhar curvou-se perante Rute que passava do outro lado da rua. Hoje, passaram 66 anos sobre aquela tarde e nada lhe demove a certeza de que se tivesse escolhido o elevador, não chegaria a tempo, e que cada segundo lhe roubaria o caminho certo da vida.

São as opções tomadas muitas vezes pelos receios, outras pela ausência de coragem perante o risco ou até pelo "feeling" de que nos dão a conhecer o lado que escolhemos e nos abrem dúvidas em repetidos "E se..."; pela vida fora. Normalmente castigamo-nos pelas escolhas e tentamos descobrir como seria se não tivessemos feito aquela eleição dramática, procuramos a desculpa que melhor se adeque e ou nos resignamos perante tudo ou a luta nunca encontrará a glória na impossibilidade de nunca virmos a conhecer o desfecho.

Gosto das escolhas certas, mesmo as más ou as piores. Aquelas que tomamos por impulso e por cima do joelho. Aquelas que nos dão a certeza de que optámos, porque a opção é o maior dos caminhos.

Dizem que o destino toma conta disto tudo, mas acredito que somos nós e é porque lhe traçámos a direcção. Mesmo quando não é a escolha que deviamos ter feito, é muito mais simples perceber a aprendizagem que tomámos por ser o lado errado, do que tentar perceber como seria se assim não fosse.

O mais caricato é quando tudo corre bem e escolhemos o caminho certo, o que nos levou ao regojizo de finais felizes, porque mesmo assim e naquele momento de fortúnia pensamos muitas vezes "...caraças, mas como seria se não tivessemos ido por ali?"; no meio da solução ainda queremos perceber qual seria o problema. A vida não teria o mesmo sentido se optássemos sempre pelo lado correcto. São os caminhos improváveis que nos fazem seguir em frente ou cada vez mais longe.

Porque as nossas decisões são a maior bola de neve do planeta, - Se naquela manhã eu não conhecesse a Ana, não perceberia o meu fascínio por montanhas e só dessa forma consegui saber de forma mais concreta que o Grand Canyon faria parte dos meus planos e que os Estados Unidos seriam o País onde passaria três quartos da minha vida. Mas se no dia pisei solo Americano, Douglas não fosse o meu taxista eu teria voltado 3 semanas depois. Contudo tudo começou com a Ana, naquele manhã que existe há 50 anos. Mas foi o meu Professor de matemática quem me recomendou a Ana. E se fosse outra?....; Esta é das perguntas que nos fazemos, mesmo que de forma insconsciente ou que nem sequer tenhamos dado conta disso.

Podemos mudar todo o rumo da nossa vida se nos atrasarmos 3 segundos para um café e isso pode ser tão mau, como incrivelmente bom.

Nenhum de nós conseguirá alguma vez arrumar as dúvidas e acalmar as certezas, porque a vida dá-nos uma nova hipótese todos os dias. Podemos é aprender a viver com esse facto e dar-lhe apenas a importância adequada. A minha Mãe esta manhã disse-me, que ela com o meu Pai, estiveram quase a emigrar para o Canadá. Sentei-me no sofá da sala e cacei veados por meia hora, fiz três excurssões ao Alasca e comprei uma casa com um lago só para pescar aos fins-de-semana. Esqueci-me da licença de pesca mas passo lá mais logo quando tiver que ir comprar uma lata de tinta azul para pintar o alpendre novo.

Levantei-me do sofá e comi o pequeno-almoço, parece um Canadian breakfast, mas tem menos ovos, oiço um barulho que vem da rua, é uma das vizinhas, vai de férias para a Beira Baixa e quer despedir-se, ligo a televisão depois de tudo e nem preciso da Rtp internacional, o cheiro a verão aproxima-se e deram 40 graus para esta semana. Posso passar o ano todo em Portugal, junto dos meus, de todos, não preciso de vir apenas nas férias.

A grandiosidade que o pensamento nos dá de elaborar-mos um rumo tão detalhado como próximo, faz com que convivamos todos os dias com a incerteza ou que vivamos por momentos nas dúvidas. Por isso é que podemos realmente mudar a vida num minuto, são os 60 segundos que nos podem custar 80 anos e essa é a melhor das magias.

Hoje decidi escrever sobre isto, perceber como seria esse lado que só procuramos porque temos outro, mas se não o fizesse?

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