Torne-se perito

BCP diz que proposta da Fosun é “credível” mas acções caem 5%

Banco acabou por ter a pior prestação do PSI 20.

A CMVM acusa nove ex-gestores do BCP de prestação de informação falsa ao mercado, entre 2002 e 2007
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BCP apresentou prejuízos de 197 milhões de euros no primeiros semestre de 2016 Foto: Adriano Miranda

A Fosun quer expandir ainda mais os seus negócios (tem pouca presença no sector financeiro), e o BCP precisa de um investidor com dinheiro. O casamento destas duas ideias já está a dar os seus primeiros passos oficiais, com o banco liderado por Nuno Amado a afirmar que o grupo chinês  é “um investidor muito credível” e que a sua proposta para adquirir uma posição de primeiro plano “não é hostil”.

O avanço da Fosun, referiu fonte oficial do BCP, mostra “que há players internacionais interessados em apoiar a estratégia do maior banco privado de Portugal”. Com a proposta a chegar cerca de 24 horas depois da apresentação de resultados, e após o banco ter mostrado prejuízos, a mesma fonte destaca que a Fosun não pretende o controle do banco, mas sim uma “posição relevante”.

Numa altura em que o BCP tem ainda de devolver 750 milhões de euros de capital contigente ao Estado (só depois disso poderá voltar a distribuir dividendos aos accionistas), a injecção de dinheiro fresco ajuda a resolver esse problema. Esta segunda-feira, o Jornal de Negócios destacava que a questão da devolução das ajudas estatais era mesmo, do ponto de vista da gestão, um dos maiores atractivos da oferta.

Acções em queda

Mesmo assim, a proposta do grupo chinês, que passa por adquirir 16,7% do banco via aumento de capital, podendo depois subir até aos 30%, não evitou que as acções do BCP fechassem em queda, registando a pior performance do PSI 20. A meio da manhã, a subida dos títulos chegou a superar os 12%, atingindo os 0,0277 euros. No entanto, esta revelou-se pouco duradoura, e ao início da tarde já estava a perder perto de 3%. Os títulos acabaram por fechar a perder 5,45%, para 0,0191 euros, abaixo do valor proposto pela Fosun (0,02 euros). O volume de transacções foi bastante expressivo, atingindo cerca do dobro da média dos últimos dias.

A volatilidade dos títulos do banco, que é empolada pelo baixo valor das acções, foi influenciada pelos outros dados que foram também conhecidos nos últimos dias. Na sexta-feira à noite, a administração do BCP revelou que, no primeiro semestre deste ano, registou um prejuízo de 197,3 milhões de euros. Ao mesmo tempo, no entanto, foi anunciado que o banco conseguiu apresentar um rácio de capital superior a 7%, quando sujeito, nos testes de stress, a um cenário de três anos de conjuntura económica e financeira muito negativa.

Para já, espera-se que a comissão executiva liderada por Nuno Amado analise a proposta da Fosun, e que apresente a sua avaliação, com a respectiva recomendação ao conselho de administração, algo que deverá ocorrer em Setembro.

Investimento de 236 milhões

O aumento de capital, que seria apenas subscrito pela Fosun, representaria um investimento de 236 milhões de euros (a 0,02 euros por acção), e daria à empresa o estatuto de maior accionista do banco. Actualmente, este é ocupado pela Sonangol, com 17,8%, mas a petrolífera estatal angolana, uma vez que fica fora do aumento de capital, irá descer a sua posição para cerca de 15%. A estratégia da Fosun surge na sequência das deliberações da assembleia-geral do banco do final de Abril, onde os accionistas tinham aberto a porta a uma operação deste género.

A Sonangol (o actual segundo maior accionista é o espanhol Sabadell, com 5%, seguindo-se a EDP — cujo principal accionista é a empresa estatal chinesa CTG — e a Interoceânico, ligada a interesses angolanos) está com dificuldades financeiras com o grupo a iniciar um processo de reestruturação para melhorar as suas contas (e que contempla a passagem da posição no BCP para as mãos do Ministério das Finanças angolano).

De acordo com a Fosun, o valor a aplicar no BCP terá origem em fundos próprios ou numa mistura de fundos próprios e financiamento externo, numa altura em que a empresa se esforça por diminuir o grau de endividamento. Assim, não é de estranhar que, nesta segunda-feira, o seu presidente executivo, Liang Xiujun, tenha afirmando à Bloomberg que está a planear vender activos de 40 mil milhões de yuans (5,38 mil milhões de euros) para fazer descer a dívida e, com isso, melhorar os seus ratings.

Por norma, quem tem dado a cara pela Fosun é Guo Guangchang (presidente não executivo, além de fundador e accionista), mas este tem tido uma atitude um pouco mais reservada desde que no final do ano passado esteve “desaparecido” alguns dias, o que fez surgir suspeitas de problemas com as autoridades chinesas.

O certo é que, dentro do quadro das aquisições da Fosun, o investimento no BCP não é de grande dimensão. A posição de controlo na Fidelidade custou mais de mil milhões de euros, tendo a factura da compra do ex-grupo Espírito Santo Saúde (após uma luta de preço contra outros interessados) chegado aos 460 milhões. Já a nível internacional, para dar apenas um exemplo, o grupo chinês aplicou perto de mil milhões de euros.

Lista de condições

Mesmo com o apoio da gestão e dos accionistas do BCP, para que a estratégia da Fosun se concretize são ainda necessárias várias condições, como a concretização da diminuição do número de acções (o reverse stock split), ao fundir lotes de 75 títulos em uma só acção (fazendo assim aumentar o valor unitário, sem alterar posições accionistas).

Embora a medida tinha sido aprovada em assembleia geral, o banco espera ainda as devidas alterações ao Código de Valores Mobiliários que dêem cobertura legal à operação (algo que agora não está contemplado). Depois, terá de haver luz verde por parte dos reguladores (onde se destaca o Banco Central Europeu), a garantia de que não há “surpresas” quanto a contribuições especiais para o Fundo de Resolução (nomeadamente por causa dos efeitos do Novo Banco, a cuja compra a Fosun esteve na corrida no ano passado) e que são eleitos dois membros da Fosun para a comissão executiva do BCP.

Por fim, a Fosun exige ainda que a blindagem dos votos passe dos actuais 20% para 30%, de modo a acomodar o seu desejo de reforçar o investimento e respectiva influência. O tema da manutenção ou não da blindagem, e em que moldes, já teria de ir a votos em assembleia-geral até ao final do ano, na sequência do diploma publicado pelo Governo e como qual se pretende ajudar a resolver o diferendo que existe no BPI.

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