Este gangue do bem chamado Mighty Sands

Nasceram como história de amor mas transformaram-se rapidamente em colectivo. Fazem música romântica e sonhadora, fortemente escapista, nostalgia anti-nostálgica. “Big Pink Vol.2” é o lançamento mais recente.

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Luz baixa sobre os músicos, que são atravessados pelas imagens projectadas na parede de galáxias e de oceanos a bailar. Vemo-los na penumbra enquanto a música vai do lento vogar psicadélico à aceleração que faz bem aos corpos que querem dança e ao cérebro que responde ao fervilhar do órgão e à acidez das guitarras. Não demora muito a sentir-se o efeito desta música romântica e sonhadora, fortemente escapista, nostalgia anti-nostálgica. Não demora nada: o universo deles é o nosso. Entregamo-nos com prazer.

5 de Maio. Estamos nas Damas, no bairro da Graça, em Lisboa, no dia em que os Mighty Sands apresentam o seu segundo EP, Big Pink Vol.2. Não poderiam estar sozinhos. A banda que nasceu de uma história de amor é um trabalho colectivo que, neste momento, abrange mais que a banda em si. Pelo palco passam também os Eternal Champions, onde encontramos dois dos Cave Story, Pedro Zina e Gonçalo Formiga. Big Pink Vol. 2 apresentado, aparecem outros convidados, os americanos Blank Tapes, parceiros nos prazeres do psicadelismo rock.

Os Mighty Sands, inicialmente baptizados Los Black Jews, nasceram praticamente com editora/promotora acoplada, a Spring Toast Records. “Há muita coisa a acontecer [em Lisboa] e queremos estar presentes”, explica André Chaby Mendonça, vocalista e guitarrista. “A palavra editora é um pouco assustadora para nós. A nossa ideia era mais um colectivo. Ajudar os amigos e alargar o núcleo de amigos. Construir qualquer coisa. Há vários núcleos de pessoas a trabalhar neste momento? Então ‘bora fazer um sindicato”.

Os Mighty Sands são também banda sintonizada com o presente que o mundo oferece – Teresa Castro e André Chaby Mendonça, é deles o amor que fez nascer a banda, aproximaram-se quando Chaby mostrou os Growlers a Teresa, e a Spring Toast, que privilegia as edições em cassete, inspirou-se vagamente na californiana Burger Records, casa de um sem fim de preciosidades garage rock e power pop.

Mais um dia deste escaldante Julho de 2016. Estamos abrigados sobre a nova estrutura de bambu que decora o terraço da Galeria Zé dos Bois. No fim-de-semana anterior, o cenário tinha sido bem diferente do que encontramos agora, na lazeira desta tarde em que partilhamos uma mesa com os cinco Mighty Sands (a Teresa e Chaby, guitarristas e vocalistas, juntam-se o baixista João Farmhouse, o baterista Pedro Morisson e Martim Teixeira, teclista e realizador dos vídeos para as canções e das projecções nos concertos). Dia 9 de Julho, a ZDB acolhera uma festa Spring Toast, com concertos de nomes ligados à editora (Vaiapraia e as Rainhas do Baile, Jasmim, Sun Blossoms), com jogos de ténis-de-mesa interactivo, com festa comunitária como se deseja. Tudo isto emanou dos Mighty Sands. Concentremo-nos neles.

“O gosto pela música foi o que sedimentou esta amizade, mas nasce de uma coisa em particular, o encontro feliz entre mim e a Teresa”, conta Chaby logo a início. “O Pedro chega imediatamente a seguir, depois o Farmhouse, o Martim entra já numa fase…”. A frase fica em aberto. Martim interrompe. “É uma história de amor. Não a queres contar?”. Teresa conta. Nós resumimos.

Voltar a uma raiz

Teresa e Chaby conhecem-se em 2013. Chaby apresenta-lhe os Growlers, a banda californiana de Chinese Fountain, Teresa adora os Growlers, psicadelismo que é encenação nocturna de um delirante vaudeville rock. Teresa e Chaby apaixonam-se. Os Mighty Sands estavam a uma viagem de distância - uma viagem ao Porto e a Guimarães, quando os Growlers por lá passaram. “Temos que formar uma banda”, exclamaram no final do último concerto. Pouco depois, estavam a viajar até à Dinamarca para trabalhar na colheita de ervilhas do campo. “Trabalhávamos das cinco da manhã à uma da tarde e depois passávamos o resto do tempo a andar de bicicleta e a fazer música com uma viola pequenina. Foi assim que escrevemos a maior das canções de Big Pink Vol.1”, conta Teresa sobre o EP editado em 2015. A ideia, nessa altura, era fazerem música em duo e, caso necessário, reunir uma banda para tocar ao vivo. Não seria assim. Chegou Pedro e Farmhouse, chegaria Martim – inicialmente, seria “apenas” o responsável por documentar a vida da banda em filme e fotografia, mas a banda precisava de alguém que tocasse teclas numa canção, ele tocou e gostou tanto que rapidamente se tornou o teclista do grupo.

PÚBLICO -
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Os Mighty Sands são, como classificará Pedro Morisson, “um gangue do bem”

Ao ver a forma como completam frases uns dos outros e a sinceridade com que contam que passam dia após dia juntos e não se fartam dessa rotina, percebe-se que seria impossível manter a ideia inicial de duo + músicos reunidos para tocar ao vivo. Os Mighty Sands são, como classificará Pedro Morisson, “um gangue do bem”.

O título dado aos dois EPs que editaram, Big Pink, revela a natureza das suas canções. É uma referência a Music From Big Pink, o álbum de 1968 dos The Band que marcou o início de um regresso à terra depois dos anos de entrega à vertigem psicadélica. “É a vontade voltar a uma raiz que não temos bem definida, que estamos ainda a descobrir. Tentar trazer a música para um nível mais lento, mais simples, mais artesanal, e evoluir a partir daí”, explica Chaby. Mas Big Pink é também referência extra-musical. Teresa Castro: “O planeta Júpiter tem aquela mancha vermelha, aquele olho que se chama ‘Big red spot’. Formou-se por efeito de uma série de ventos e de tornados, mas está lentamente a desaparecer e a tornar-se cor-de-rosa. A tormenta, a confusão está a desaparecer. É também disso que andamos à procura” – em “Mozambique”, a última canção de “Vol. 2”, longa de 13 minutos, estão incluídos, não por acaso, sons de Júpiter registados pela NASA.

A música dos Mighty Sands é feita de sonho e romantismo, de canções que se espraiam lentamente em estúdio e que se expandem quando tocam o palco. São os anos 1960 da Califórnia que ambicionava escapar para uma nova realidade, são sintetizadores de uma chillwave que se preocupasse com essa preciosidade chamada canção. É rock’n’roll de tremolo bem activo, como na década de 1950, coberto por uma camada de pó espacial e alimentado a energia germânica – a do kraut rock, obviamente. “Ter essa liberdade [de cruzar tudo] é a vantagem de vivermos nos dias de hoje. Temos disponível toda a tecnologia, moderna e antiga, e nós até utilizamos mais a antiga, para criar o nosso mundo alternativo e uma viagem completamente nossa, recolhendo influências de todos os lado. Não há cânones”, defende Pedro Morisson. Não há, realmente. Existem estas canções, o que se esconde por trás delas e a forma como, através delas, através da banda e do colectivo que dela emanou, os Mighty Sands fazem o seu caminho. Estão todos convidados a segui-los nele. Vai valer a pena.