Reportagem

Atatürk já esvoaça na sede do partido de Erdogan

Duas semanas depois da tentativa de golpe fracassada, Presidente homenageia “mártires” e perdoa “insultos”. Numa Turquia que os estrangeiros evitam, os turcos continuam a festejar o que podem.

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Kizilay, a praça plantada no centro da grande Avenida Atatürk, é agora ponto de encontro para os habitantes de Ancara que todas as noites saem à rua para celebrar o fracasso do golpe de Estado Adem Altan/AFP

A Turquia é colossal mas o mundo é ínfimo. Ancara nem é Istambul, ao pé da cidade maravilhosa não passa de uma capital comedida. Conversas em várias línguas podem resultar em confusões, já se sabe, e acabar, por engano, no gabinete de Selçuk Dereli, na rua Nacatibey. Tudo bem. Se é para nos perdermos que seja, por exemplo, na Turquia.

Dereli é presidente do CHP (Partido do Povo Republicano) em Çankaya, a zona do Palácio Presidencial e de muitas embaixadas. Até 2010 foi árbitro internacional de futebol e quando se apercebe que alguém vindo de Portugal entrou na velhinha sede do seu partido, pára tudo.

“Conheces o [treinador do Fenerbahçe] Vítor Pereira? É meu amigo!”, diz. “E o [árbitro reformado] Pedro Proença? Meu amigo!”, repete, a apontar para uma fotografia sua com alguns anos e muitos menos quilos, equipado e tudo. “Cartão vermelho, cartão amarelo.” Claro que apitou jogos da selecção portuguesa, claro que esteve em Portugal.

Se é para nos perdermos o gabinete de Dereli não é mau destino. “Eu sou o presidente, eu resolvo”, diz, enquanto telefona para a sede nacional do CHP, para avisar da confusão e explicar o atraso. “É muito importante virem jornalistas ouvir-nos. Nós já tínhamos alertado para o que podia acontecer”, afirma, mais calmo depois do entusiasmo inicial.

“Nós” é o CHP, o maior partido na oposição; o que “podia acontecer” era um golpe como o de 15 de Julho, promovido, segundo o Governo e os opositores, pelo imã Fethullah Gülen, exilados nos Estados Unidos.

Duas semanas depois, gente que perdeu pernas e braços debaixo dos tanques continua nos hospitais. Os mortos, 246, incluindo 170 civis e 62 polícias, foram enterrados, menos os revoltosos, isso é outra contabilidade. Sabe-se que pelo menos o corpo de um já está debaixo de terra numa parte esquecida de um cemitério de Istambul que chegou a ostentar a placa “Cemitério dos Traidores”, entretanto retirada.

Sexta-feira, 29 de Julho, é noite de homenagem às vítimas que se atravessaram à frente dos golpistas.

Agora que a ponte sobre o Bósforo, que liga a Europa à Ásia, em Istambul, já se chama Ponte dos Mártires de 15 de Julho, agora que 60 mil pessoas foram afastadas da função pública e das Forças Armadas, agora que há 18 mil detidos por supostas ligações a Gülen, o Presidente Recep Tayyip Erdogan pôde inaugurar com pompa o novo Centro Cultural de Ancara. O enorme auditório cheio de familiares de vítimas.

Centenas de processos

 “Os mártires nunca serão esquecidos”, disse, e a audiência aplaudiu. “Alguns dão-nos conselhos. Metam-se nos vossos assuntos”, exclamou, e a audiência aplaudiu.

Para a maioria dos turcos, dentro do Centro Cultural ou nas grandes praças das principais cidades, onde centenas continuam a juntar-se todas as noites, numa espécie de peregrinação festiva, as palavras de Erdogan fazem sentido. Pelo menos agora, confiem nele ou duvidem de cada palavra, que este Presidente não deixa ninguém indiferente. 

Num discurso de 50 minutos há tempo para o Erdogan poderoso e para o Erdogan magnânimo, pelo menos por agora. “Vou retirar todos os processos relativos aos insultos desrespeitosos contra mim.” Não é pouca coisa: havia centenas de turcos em tribunal por terem insultado o Presidente, a maioria nas redes sociais, alguns já depois de 15 de Julho.

Ancara viveu o pior do golpe falhado. Talvez por isso se festeje tanto. A sede da polícia – dez andares na via-rápida a caminho do aeroporto, não há como escapar à imagem – foi bombardeada e é agora um esqueleto aberto à vista de todos. Dezenas de jovens agentes foram ali mortos.

A uns 15 minutos de carro, Kizilay, a praça no meio da grande Avenida Atatürk, espécie de rua de lojas e via-rápida juntas, cinco quilómetros de centros comerciais, cafés elegante e populares, muitas lojas e bancos mas também túneis, viadutos, estações de comboio. Na praça, os mais velhos montaram tendas à sombra das árvores; há ecrãs gigantes, imagens de Erdogan a dizer “obrigado”, bandeiras de Atatürk nos prédios à volta; à noite chegam cantores.

Conferências anuladas

Büsra não teve medo. “Estava na praia, em Sile, no mar Negro, a uma hora de Istambul”, conta a cientista de 32 anos. “Pensei voltar logo para casa, em Ancara, mas a minha família aconselhou-me a esperar”, diz. “Todos os anos, no Verão, vou a uma conferência internacional. Agora, ninguém quer vir, a conferência foi anulada”, explica a jovem. Se os académicos turcos estão proibidos de deixar o país, há poucos estrangeiros com vontade de visitar a Turquia.

Os cientistas que Büsra contava conhecer ou reencontrar, da área a que dedicou os últimos anos – investigação em medicamentos para diabetes – já não vêm. Quase não se vêem estrangeiros, aliás, culpa dos atentados dos últimos meses.

Os turcos sentem-se sozinhos. É também por isso que saem à rua e se encontram nas mesmas praças. “Vim ver o ambiente. Desde os protestos de 2013 [contra o Governo do AKP, o partido de Erdogan] que não havia manifestações. E estas são apoiadas pelo Governo e protegidas pela polícia”, diz Büsra, a chegar a Kizilay.

Selçuk tem evitado Kizilay. “Pouca comida e nenhum álcool. Não é o meu tipo de festa”, brinca, numa referência à maioria dos manifestantes, apoiantes do Governo conservador islamista. “Olha, a maior novidade é que o AKP pendurou a bandeira de Atatürk no seu quartel-general”, diz o político bonacheirão, já depois de chamar um funcionário e de o encarregar de nos levar de carro ao destino correcto. Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da Turquia moderna, foi o primeiro líder do CHP. “Durante muito tempo, tiravam as bandeiras de Atatürk, agora estão a içá-las. A história está a regressar, é um bom sinal.”