Marco Gil
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Marco Gil

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Da alma de um bombeiro

Os bombeiros não têm estatuto, não se constituem por leis, não saem dos escritório para beber uma cerveja, não usam filtros nas fotos, não fazem publicações instantâneas, não se resignam, não baixam a cabeça nem perante o infortúnio

"Sabes o que mais me irrita quando ando nos fogos? É o telemóvel sempre a tocar para saberem se estou bem! Entendo a preocupação, mas estou bem! Eu aguento com o que vier e não vou abaixo.

Os nossos não imaginam o que nós vemos, as imagens que temos na cabeça, o medo que tanta vez sentimos, mas eu aguento e em casa ninguém pode saber.

- 'Como correu o fogo hoje? Aquilo estava complicado!', pergunta a mãe ou os amigos. E a resposta é sempre a mesma: 'Correu bem, nada de especial, tivemos que correr um pouco mas já está apagado'. Caramba, estou a mentir quando respondo assim, mas tem que ser. A consciência diz-me para não os preocupar.

- 'Porra, foi por pouco, foi tão duro, levamos um aperto, tivemos que arriscar, chegar muito perto, fui ao meu limite, dei o que tinha e o que não tinha, superei-me, tive que fugir duas vezes, senti o corpo a cozer durante minutos intermináveis, tive medo, pensei que não me safava, superei o meu recorde em apneia para não levar com aquele fumo todo, esperei até ao último segundo para sairmos juntos daquele inferno. Sim, é no inferno que por vezes eu estou, mãe' — e esta seria a resposta verdadeira.

Mas eu estou bem, faço o que gosto e porque quero, não espero que ninguém me bata nas costas e me diga 'muito bem, bom trabalho', não o faço porque é fixe e sou um herói.

Os heróis não tombam, mas nós sim. Não sou um herói, sou a pessoa com quem te chateias na fila do supermercado.

Nós nem somos apenas um, vivemos pelo plural, somos uma equipa e unida naqueles momentos em que conhecemos o abismo da vida ou naqueles que nos reerguemos.

Não gosto que tenham pena de nós, eu faço o que gosto porque assim quis, é uma opção de vida. Quero só que nos respeitem, porque também temos uma família que espera que voltemos para casa só para nos abraçar e nunca sabendo da possibilidade de ser o último aperto.

Só queremos ser respeitados, que nos respeitem sempre e não apenas quando estamos debaixo de chamas. Porque aquilo que fazemos não é fácil.

Quero apenas que nos valorizem. Que entendam a importância que temos na sociedade ou na vida dos outros e na de todos. Não nos critiquem quando nos vêm parados durante um fogo, se o estamos a fazer é porque não dá mesmo para mais, ou porque a intensidade é tanta que a segurança é primordial, é a estratégia da vida.

Eu saio de casa por cada vez que precisarem de mim, só quero voltar, o toque da sirene é um grito quem me pede ajuda e é com ele que os meus batimentos cardíacos aumentam na hora de prestar auxilio, é ele que me ajuda a ausentar-me dos pensamentos de quem fica em casa à minha espera e nunca lhe posso prometer que chego sequer a voltar."

É isto que "oiço" quando vejo os bombeiros que saem do quartel a qualquer hora da madrugada ou do dia, apenas obrigação do coração, das três horas que eles dormem em 15 dias, das refeições que não comem. Porque enquanto eu ou os outros passamos o Verão de banquete em banquete, mudamos de piscina ou desviamos a toalha na praia para não apanharmos a areia que vem de nordeste, eles guiam-se pelos ventos que podem aparecer de todos os cantos, lutam com o calor e o das chamas também.

Os bombeiros não têm estatuto, não se constituem por leis, não saem dos escritório para beber uma cerveja, não usam filtros nas fotos, não fazem publicações instantâneas, não se resignam, não baixam a cabeça nem perante o infortúnio.

Eles são anónimos, têm família, nome completo, usam com frequência o grupo sanguíneo na esperança de outrem, ajudam o próximo sempre antes deles, são presentes e olham para o perigo de frente, não sabem sequer desistir e, ainda que derrubados pelos outros ou por tudo, erguem-se sempre.

Sei que não querem honras nenhumas, não se importam com medalhas ou condecorações, nem sequer têm tempo para elas. Exigem que lhes tenham apenas respeito.

Quando observo um horizonte perdido de fumo e chamas não me lamento na rede social pelo verde que vai mudar de cor, penso sempre primeiro neles, na sirene que pisca e que já vai algures no meio da montanha, que carrega cinco homens valentes para um infortúnio incerto.

Pode estar ali aquele com quem me chateei na fila do supermercado e imagino sempre o abraço que a filha pequena lhe vai dar quando lhe correr para os braços sujos de carvão e lhe sentir apenas o cheiro a pai, o "herói" invisível.

Porque podíamos todos ser um deles, mas só eles o escolheram ser.

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