Opinião

O Daesh e a vingança do Sul do Mediterrâneo sobre a Europa

A liberdade, a democracia e a Europa, tal como a conhecemos, não são realizações eternas. Apenas se perpetuarão no futuro se tiverem continuadores à altura dos sacrifícios das gerações anteriores.

1. Ao início da manhã de 26 de Julho ocorreu mais um acto de terror. Agora numa igreja em Saint-Étienne-du-Rouvray, perto de Ruão, em França. O padre, Jacques Hamel, de 86 anos, foi barbaramente assassinado (degolado). Um dos fiéis ficou ferido em estado grave. No Iraque e na Síria as minorias cristãs e as suas igrejas são um alvo frequente da barbárie islamista-jihadista. Na guerra civil da Argélia, em 1996, vários monges do convento de Nossa Senhora do Atlas, em Tibhirine, foram raptados e brutalmente assassinados. O impressivo filme de Xavier Beauvois, Dos Homens e dos Deuses (2010), deu a conhecer a perturbadora tragédia ao grande público. Mas isso ocorreu no Sul do Mediterrâneo. Quanto ao Iraque e à Síria são no Médio Oriente. Infelizmente, aí a violência e terror fazem, frequentemente, parte do dia-a-dia. Este acto de terror é o primeiro no género, em França e na Europa. Ataca-a no plano simbólico e no cerne do mais sagrado cristão. Não é que não tivesse já sido tentado anteriormente. Em Abril de 2015, Sid Ahmed Ghlam, um estudante argelino de informática, foi detido por planear atacar igrejas em Villejuif, nos arredores de Paris. Em simultâneo estaria também a planear um atentado contra a basílica do Sagrado Coração de Montmartre, em Paris.

2. Há um século atrás os europeus procuravam europeizar, à força, o Sul do Mediterrâneo e Médio Oriente. Um fluxo imparável de pessoas e de ideias dirigia-se do Norte para o Sul e Oriente. Estavam dotados de superioridade tecnológica e demográfica, ambas associadas a uma convicção profunda de superioridade dos seus valores e cultura. Tal como outras partes do mundo, as sociedades do Mediterrâneo Sul e Oriental foram alvos da sua expansão e opressão colonial. Ao longo do século XIX, a Argélia e a Tunísia ficaram sob domínio francês e o Egipto sob domínio britânico. No início do século XX, a Líbia ficou sob domínio italiano e Marrocos sob domínio francês e espanhol. Após a I Guerra Mundial (1914-1918), e o acordo Sykes-Picot (1916), os restos do Império Otomano do Médio Oriente passaram para controlo europeu. A Síria e Líbano para o domínio da França. O Iraque, a Jordânia e Israel / Palestina para o controlo da Grã-Bretanha. Menos de um século depois, estamos a assistir a um movimento histórico inverso. A superioridade demográfica está a Sul. Um fluxo imparável de pessoas vem daí para a margem Norte do Mediterrâneo, seja por fugir da guerra, seja por miseráveis condições económicas, atraído pela riqueza e bem-estar. Traz consigo uma convicção profunda da superioridade dos seus valores islâmicos. Apenas a supremacia tecnológico-militar se mantém a Norte. Mas nem sempre é usada da melhor maneira, como se viu nas desastrosas intervenções no Iraque e na Líbia. Amplificam o sentimento de injustiça e revolta a Sul.

3. Os europeus estão confusos, amedrontados e politicamente à deriva. Ao longo das últimas décadas, foram absorvendo os problemas e conflitos do Sul do Mediterrâneo, sem perceberem que o processo em curso era esse. Estavam habituados a verem-se o centro do mundo, a que as suas guerras civis fossem guerras mundiais. Tinham a ilusão de ter uma cultura e valores universais. Todos os povos a admiravam e queriam imitar. Na segunda metade do século XX, o extraordinário sucesso das Comunidades Europeias, hoje União Europeia, alimentou a ilusão. Julgavam ter entrado numa era de paz perpétua. A Europa era o perturbador do mundo. Se a Europa se pacificava e reconciliava consigo própria, o mundo também ficava em paz. E o mundo deixava os europeus em paz. Nada de mais enganador. Ao longo da história, a Europa — uma pequena península do grande continente asiático —, esteve quase sempre acossada e na defensiva. Durante o largo período medieval, os impérios árabes eram largamente superiores e ameaçaram dominar todo o seu Sul. As cruzadas foram um episódio menor, uma ferida no domínio árabe-islâmico do Mediterrâneo. No Renascimento e até ao seculo XVIII, o Império Otomano dominava não só a maioria do Sudeste europeu como era o maior poder militar, provavelmente só comparável ao Império Romano na Antiguidade. A Oriente, na Ásia, a Índia e a China sempre foram hegemónicas, excepto num relativamente curto período histórico, do século XIX à II Guerra Mundial. Provavelmente, estamos a voltar a um padrão de normalidade histórica, que os europeus das actuais gerações ignoravam, estupidificados por uma mentalidade que os reduz a meros homo economicus.

4. No imaginário europeu, o Daesh (Estado Islâmico) parece ocupar um lugar equivalente à Hidra de Lerna da mitologia grega da Antiguidade Clássica. Um monstro humanamente invencível — só Héracles conseguiu derrotar a hidra —, com corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Após uma cabeça cortada, outra crescia no seu lugar. Tinha capacidade de se regenerar dos golpes sofridos e um hálito e sangue venenosos. Em território europeu, só no último mês, uma quase contínua sucessão de acontecimentos trágicos parece sugerir uma nova hidra. A 14 de Julho, no dia nacional da França, um atentado cometido pelo tunisino Mohamed Lahouaiej Bouhlel, com um camião, matou dezenas de pessoas em Nice, sendo reivindicado pelo Daesh. A 18 de Julho, um jovem refugiado, de nacionalidade afegã, ou eventualmente paquistanesa, Riaz Khan Ahmadzai, atacou, com uma faca e um machado, passageiros num comboio em Würzburg, no Sul da Alemanha, também em nome do Daesh. A 24 de Julho um refugiado sírio a quem foi negado asilo na Alemanha, fez-se explodir em Ansbach, na Baviera, onde decorria um festival de música. Afirmava agir em nome de Alá e proclamava fidelidade ao líder do Daesh, Abu Bakr al-Bagdadi, prometendo vingar-se dos “alemães que se colocam no caminho do Islão”. Para a mentalidade secular europeia, é um passadismo incompreensível que julgava ultrapassado pela evolução e progresso.

5. O Daesh, como organização, não é uma hidra. Longe disso. Nos últimos meses sofreu pesadas derrotas no Iraque e na Síria, os seus principais territórios. Na Líbia, onde tem também implantação territorial, está a ser combatido, aparentemente com sucesso. Não significa que não continue a ter um poder temível. Os recentes atentados terroristas no Iraque e no Afeganistão mostram isso. Na Europa, os atentados terroristas, de Paris, a 13 Novembro de 2015, e de Bruxelas, a 22 Março de 2016, foram executados por indivíduos com algum tipo de ligações orgânicas ao Daesh. Já os mais recentes atentados de Nice, Würzburg e Ansbach não mostram essa ligação orgânica. Mas se a hidra não existe ao nível da organização, existe no plano ideológico. O problema é complexo. A ideologia islamista-jihadista incentiva à prática de actos de violência e terror sobre todos os que designa como inimigos do Islão. Está em crescendo. Há uma distinção que pode ser útil para separarmos o que é terrorismo feito em nome do Daesh, do terrorismo da autoria do próprio Daesh. É usual em matéria criminal. Distingue autoria material de autoria moral. A autoria material refere-se a quem executa. A autoria moral refere-se ao instigador, àquele que induz outrem à prática do acto. O Daesh é hoje o grande instigador. As populações do Sul do Mediterrâneo que, por qualquer razão, não se integram na Europa, são o terreno onde a sua ideologia fanática procura executantes. Alimenta um terrorismo atomizado e inorgânico, como autor moral. Pretende provocar um apocalíptico choque de civilizações entre a Europa e o Islão.

6. Em 2084. O Fim do Mundo (trad. port., Quetzal, 2106), o escritor argelino de língua francesa, Boualem Sansal, capta a angústia existencial face aos avanços do islamismo radical. Como esta ideologia totalitária viaja de Sul para Norte do Mediterrâneo, sabe bem do que fala. A experiência da guerra civil da Argélia nos anos 1990, opondo o exército aos islamistas da Frente Islâmica de Salvação — que pretendiam instaurar um Estado islâmico —, marcou-o profundamente. O livro é uma distopia que interage com o 1984 de George Orwell. Sinais dos tempos, não imagina nenhuma ideologia totalitária secular de origem europeia, como se prefigurava em meados do século XX. Não é daí que virá o futuro totalitarismo para governar a humanidade. Na parte interior da capa do livro há uma citação daquelas que ficam gravadas na memória — e muito tempo a remoer dentro da cabeça de quem o lê. “Nos somos governados por Wall Street — mas esse sistema totalitário que esmagou todas as culturas encontrou no seu caminho qualquer coisa realmente inesperada: a ressurreição do Islão. É o totalitarismo islâmico que vai dominar, porque se apoia sobre uma divindade e uma juventude que não tem medo da morte, enquanto a globalização se apoia no dinheiro, no conforto das coisas inúteis e perecíveis.” Cabe às actuais gerações perceberem o aviso. A liberdade, a democracia e a Europa, tal como a conhecemos, não são realizações eternas. Apenas se perpetuarão no futuro se tiverem continuadores à altura dos sacrifícios das gerações anteriores.

Investigador