Jihad aberta do Estado Islâmico degolou um padre francês de 86 anos

Sacerdote Jacques Hamel e outras quatro pessoas sequestradas durante a manhã tiveram de se pôr de joelhos para os jihadistas. A oposição francesa aperta com Hollande.

Fotogaleria
As autoridades procuraram explosivos durante a manhã CHARLY TRIBALLEAU/AFP
Fotogaleria
Polícia depois do fim do sequestro na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray CHARLY TRIBALLEAU/AFP

Há muito que o grupo Estado Islâmico escancarou as portas à sua jihad, dizendo aos seus seguidores que não precisavam de viajar até ao seu suposto califado para fazer a guerra ao “infiel”. Para isso bastava atacá-lo com o que tivessem, fosse uma faca, uma pedra ou um camião pesado, como aconteceu com um desfecho sangrento há apenas duas semanas, em Nice, às mãos de um tunisino de 31 anos que antes não se mostrara sequer próximo da doutrina dos fundamentalistas islâmicos que lhe reivindicaram o ataque. Matou 84 pessoas.

Esta terça-feira, nos arredores de uma outra cidade francesa, Rouen, um novo ataque executado em nome do Estado Islâmico e inspirado nas suas indicações aos “terroristas de oportunidade”. Dois homens armados com facas, uma pistola avariada e explosivos falsos entraram durante a manhã na igreja de Saint Etienne de Rouvray para matar os “apóstatas” católicos que lá se encontravam. As igrejas, como as sinagogas ou os locais turísticos, estão entre os alvos favoritos do Estado Islâmico: “o objectivo é levar o medo ao seu coração”, escrevia o grupo numa edição da sua revista em francês.

Chegaram à igreja por volta das 9h30 – menos uma hora em Portugal continental – e fizeram de imediato cinco reféns. Entre eles estava o padre Jacques Hamel, de 86 anos, que morreu degolado pelos dois homens e é, até à data, a única vítima do atentado. “Fizeram-nos ficar de joelhos”, conta Danielle, uma das duas freiras sequestradas pelos atacantes e quem soou o alarme. “Reagi no momento em que atacaram Jacques”, diz, falando do momento em que o padre foi assassinado. “Foi aí que fugi e saí rápido, enquanto ele estava ocupado com a faca e não me via. As pessoas gritavam.”

“Se não tiverem bombas ou balas…, atropelem-no com o vosso carro…”

Uma refém, supõe-se uma freira, está “entre a vida e a morte”. Os atacantes morreram quando saíam da igreja, abatidos pela polícia de intervenção que cercara rapidamente o edifício depois do alerta de Danielle. “No momento em que os dois sequestradores saíram, armados, foram imediatamente neutralizados pela polícia”, revelou um porta-voz do Ministério do Interior. Para a polícia francesa, as negociações com terroristas do Estado Islâmico são inúteis. “O Daesh é impiedoso, por que é que não o podemos ser?”, argumentava o antigo negociador Christophe Caupenne, em declarações ao canal BFM.

A investigação divulgou apenas a identidade de um dos atacantes. Trata-se de Adel K., tinha 18 anos e esteve detido até Março por associação criminosa com intenções terroristas. Adel tentou por duas vezes juntar-se ao Estado Islâmico na Síria, ambas em 2015, mas foi travado pelas autoridades turcas. Acabou por ser deportado para a França, onde, sob protestos dos procuradores, foi libertado há quatro meses com uma pulseira electrónica que lhe permitia sair de casa apenas entre as 8h30 e as 12h30. Foi o que fez esta terça-feira.

“Falava sobre isto comigo a todo o momento, falava do islão, de como estava para fazer algo como isto”, conta um dos seus amigos à rádio RTL. “Disse-me: vou atacar uma igreja. Disse-me isto há dois meses, quando saíamos da mesquita. Pela vida da minha mãe, não acreditei nele”, conta o homem, que preferiu não se identificar. E um outro amigo, também muçulmano: “Era um jovem como nós… não compreendo como é que virou desta forma. Estava com o cérebro trocado, não deve ser comparado aos outros muçulmanos.”

Raiva na oposição

O Presidente francês respondeu rapidamente ao atentado, apontando o dedo ao Estado Islâmico antes até de o próprio grupo reivindicar o ataque. François Hollande agendou para esta noite um encontro com representantes religiosos e um Conselho de Ministros. Para a manhã de quarta-feira, o Presidente convocou o Conselho de Segurança e Defesa. “Estamos face a um grupo, o Daesh, que nos declarou guerra. Temos de o combater com todos os meios”, prometeu, num discurso perto do local do atentado.

Mas as diligências de Hollande pouco importam à oposição, para quem a grande vaga de atentados em solo francês nos últimos dois anos é responsabilidade de um Presidente e de um Governo socialista demasiado brandos na resposta à ameaça terrorista – Hollande, como voltou a dizer esta terça, prefere preservar o Estado de Direito. Os dois prováveis candidatos para as eleições presidenciais do próximo ano, Nicolas Sarkozy, pelos Republicanos, e Marine Le Pen, pela Frente Nacional, apontaram armas ao Presidente, que, confrontado com a sua estrondosa impopularidade, ainda não anunciou se se recandidata ao cargo.

“A responsabilidade de todos os que nos governaram nos últimos 30 anos é imensa. Ver-vos discutir é revoltante”, argumentou Le Pen, em estado de graça depois do atentado em Nice. Já Sarkozy voltou a pedir a expulsão de todos os estrangeiros fichados nas listas “S”, onde a polícia tem os nomes de mais de 10 mil pessoas que, por suspeitas de radicalização religiosa ou política, podem ser um risco para a segurança nacional, mesmo que essa possibilidade seja remota.

“Temos de mudar completamente a nossa resposta. O nosso inimigo não tem moral, não tem barreiras, não tem limite. Peço que o Governo ponha em acção o que lhe estamos a dizer há meses. Não temos tempo a perder”, disse o líder dos Republicanos, num discurso televisivo. 

Notícia corrigida no dia 27 de Julho: a idade do padre Jacques Hamel era de 86 anos e não 84 anos.

Sugerir correcção