Património ferroviário destruído na estação da Régua

Infraestruturas de Portugal desmantelou complexo ferroviário da Régua sem consultar a Associação Portuguesa do Património Industrial

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

O que restava em Portugal de uma via algaliada foi desmantelado recentemente na estação da Régua durante uma “limpeza” realizada pela Infraestruturas de Portugal (ex-Refer) que eliminou os equipamentos mais antigos daquele secular complexo ferroviário.

Uma via algaliada é uma linha férrea dentro de uma outra. Tratava-se da via estreita da linha do Corgo (que ligava a Régua a Chaves) que, durante três quilómetros coexistia com a via larga da linha do Douro. Dentro da estação da Régua, que foi durante décadas o “Entroncamento” do Norte ferroviário, havia linhas de estacionamento e equipamento diverso dos tempos do vapor que foi também desmantelado pela Infraestruturas de Portugal (IP).

“Deixou de ser possível articular todo este complexo ferroviário com o complexo oficinal da EMEF localizado em Corgo”, denuncia Pinto Pires, especialista em museologia e que foi o primeiro presidente do Museu Nacional Ferroviário. “Esta medida resulta de uma atitude que não previu o futuro e delapidou um património ancestral de toda uma vida da linha do Corgo, descaracterizando um espaço de memória, quiçá dos mais fortes que encerra a história do caminho-de-ferro da via estreita em Portugal”, diz.

O investigador, num documento enviado à IP, cita a Carta de Riga de 2005 - uma carta de princípios que orientam a conservação, restauro, manutenção e utilização do equipamento histórico ferroviário - que foi claramente desrespeitada pela empresa, bem como a Carta de Nizhny Tagil 2003 que refere e especifica os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, como é o caso da via estreita da estação da Régua.

Contactada a IP, fonte oficial da empresa disse ao PÚBLICO que esta procedeu ao levantamento da via estreita “por se tratar de uma infra-estrutura sem utilização e que se encontrava em avançado estado de degradação”. A sua recuperação, diz a empresa, implicava um investimento de 850 mil euros, ao passo que a opção pelo desmantelamento “permitirá poupanças com custos de manutenção em material não utilizado na ordem dos 20 mil euros por ano”.

Questionada sobre o valor histórico desta infra-estrutura e por que motivo não foi consultada a Associação Portuguesa do Património Industrial nem a Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, a mesma fonte respondeu que “dado esta actividade [levantamento das linhas] ser uma prática corrente na empresa, é entendimento da IP não proceder de forma regular à consulta prévia às entidades mencionadas para a execução da intervenção em causa”.

Pinto Pires acha que estes valores são “claramente exagerados” e que a “IP diz o que lhe apetece para justificar o injustificável”, acrescentando que se perdeu a oportunidade de articular o comboio histórico do Douro, que está baseado na Régua durante o Verão, com um comboio histórico de via estreita que ali está parqueado e que ficou sem comunicação por lhe terem levantado a linha.

Lopes Cordeiro, professor universitário e membro da direcção da Associação Portuguesa do Património Industrial, disse ao PÚBLICO que esta operação da IP é um “exemplo de uma má prática” porque não preserva nem respeita a memória do caminho-de-ferro naquela região. “A Refer [agora IP] e a CP estiveram sempre à margem das preocupações de preservação do património e quando há qualquer coisa que está obsoleto ou desactivado, a preocupação é logo destruir”, disse. “É um pouco frustrante para nós, Associação Portuguesa do Património Industrial, assistirmos a isto. Que mal fazia deixarem lá aquilo?”