Volta a Portugal: prepare-se para um déjà vu

Gustavo Veloso e a W52-FC Porto estão prontos para repetir a fórmula do sucesso na 78.ª edição, beneficiando de um percurso tendencialmente prejudicial aos trepadores. Alejandro Marque será o principal rival do bicampeão.

A Volta a Portugal arranca amanhã
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A Volta a Portugal arranca amanhã Miguel Manso

Para aqueles que gostam de ciclismo e que, desde o final da parada de estrelas nos Campos Elísios, que, no domingo, confirmou o "tri" de Chris Froome (Sky), não sabem como ocupar as suas tardes, o PÚBLICO tem uma boa notícia: é já hoje que começa a rolar a 78.ª Volta a Portugal, com a apresentação das equipas e das suas principais figuras em Oliveira de Azeméis – para vê-los em acção terá de esperar por quarta-feira, dia de prólogo e da definição do primeiro camisola amarela. Mas não se entusiasme muito: se foi daqueles que achou a última Volta a França um marasmo, é muito provável que, entre amanhã e 7 de Agosto, tenha um déjà vu.

É assim há dois anos na Volta a Portugal. Um homem, uma equipa, uma vitória sem contestação e sem ataques consistentes. A haver um equivalente internacional para Gustavo Veloso e a sua W52-FC Porto estes teriam, inevitavelmente, de ser Chris Froome e a Sky. Com as devidas distâncias – nem o palmarés do galego se aproxima do do britânico, nem o orçamento da formação "azul-e-branca" se compara com o da "negra-e-azul" -, aquilo que o binómio Veloso-W52 têm feito em Portugal é muito semelhante àquilo que se viu no Tour.

Aqui, como lá, as coisas estão bem definidas: o líder é Veloso e o lema é “um por todos, todos por um”. Unidos como nenhuns outros, os "dragões" abdicaram das suas ambições pessoais para lutar pela amarela, que sentem como sua, e nunca se esquecem do seu papel. Impressionantes durante toda a temporada, vão chegar à Volta a Portugal com o moral em alta, um planeamento estratégico perfeito – estudaram o percurso, no local, ao detalhe -, com uma preparação impensável para qualquer outra formação nacional – estiveram todos concentrados em altitude, em Navacerrada (Madrid) – e com um líder "fresco".

Obrigada a restruturar a sua preparação, devido à fractura de duas costelas, o galego de 36 anos está completamente despreocupado com o facto de acumular apenas 18 dias de competição. “Não tenho por que acusar a falta de ritmo competitivo. Até pode ser bom, porque chego com vontade de correr. No Troféu Joaquim Agostinho, tive boas sensações e isso motiva-me”, resumiu ao PÚBLICO.

Veloso está confiante e isso percebe-se, porque, em teoria, ninguém terá pernas (e equipa) para o impedir de chegar ao "tri", nem mesmo o seu antecessor no palmarés dos campeões. Voltar a vestir a amarela que conquistou por quatro segundos em 2013, quando era o "escudeiro" do homem de Vilagarcía de Arousa, é o sonho que move Alejandro Marque. Um percurso com menos chegadas em alto – haverá uma única, no domingo, na Senhora da Graça – e um contra-relógio demasiado longo (32 quilómetros) para as pernas de todos os outros adversários, à excepção do seu amigo galego, seriam o cenário idílico para um segundo título.

Mas, tal como no ano passado, o desejo de "Alex" pode esbarrar na opção táctica de uma liderança bipartida e, consequentemente, na ambição de um jovem trepador português. O ciclista da A Estrada saiu da Efapel à procura de uma equipa em que fosse a única aposta e encontrou na LA-Antarte o porto de abrigo perfeito. Um percalço de saúde no início da época – um vírus atirou-o para a cama de um hospital e fê-lo correr risco de vida – manteve-o afastado de competição o tempo suficiente para Amaro Antunes se evidenciar, com o décimo lugar e o estatuto de melhor português na Volta ao Algarve. Em franco crescimento, o algarvio ganhou o direito de coliderar a LA-Antarte nesta Volta a Portugal.

O filme repete-se para Marque, que há um ano viu Joni Brandão "assaltar-lhe" o lugar de líder. "Vice" na edição de 2015, o corredor Santa Maria da Feira vai, pela primeira vez na sua carreira, ser o chefe de fila único da Efapel, uma condição que dificilmente o perturbará. Provavelmente o melhor ciclista nacional ainda a correr em solo português, Brandão pode ser uma séria dor de cabeça para os "dragões" nas subidas, mas o seu carácter cauteloso será um entrave para que ataque de longe em tiradas como a sexta, em que a dupla passagem pela Torre, perdida à distância da meta, será muito mais atractiva a homens como Rui Sousa ou Rinaldo Nocentini.

Em ano de despedida, o "quarentão" da Rádio Popular-Boavista promete ser um dos grandes agitadores, algo que também se espera do experiente italiano, que terá a missão de comandar o Sporting-Tavira no regresso dos "leões" à estrada após quase 30 anos de ausência. Mas sem um percurso à sua medida – os 1618,7 km entre Oliveira de Azeméis e Lisboa são, muito provavelmente, os mais desequilibrados dos últimos anos, devido à ausência de chegadas em alto -, o papel dos dois conhecidos trepadores deve resumir-se ao de meros figurantes em nova glorificação de Veloso e o seu "gangue", que só a melhor versão do contra-relogista (tornado ciclista completo) Marque poderá impedir.