A continuar assim, nem a longo prazo a Turquia entrará na UE, diz Juncker

Prossegue a purga de críticos de Erdogan e do Governo. Foram anunciados 42 mandados de detenação para jornalistas e demitidos mais de 200 funcionários da Turkish Airlines.

Manifestantes de domingo vistos através de um vidro atingido por uma bala em Istambul.
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Manifestantes de domingo vistos através de um vidro atingido por uma bala em Istambul. OZAN KOSE/AFP

Desagradado com a purga de dezenas de milhares de pessoas na Turquia ao longo da última semana e meia, na qual parecem bastar as ligações políticas mais fugazes a supostos colaboradores com a tentativa de golpe de Estado do dia 15 para que seja ordenada a detenção ou demissão de militares e civis, Jean-Claude Juncker prometeu esta segunda-feira que, a continuar neste caminho, nem a longo prazo Ancara pode aspirar a ser um membro da União Europeia.

“Acredito que a Turquia, no seu estado actual, não está na posição de se tornar um Estado-membro nos próximos tempos, nem sequer num período mais longo”, afirmou o presidente da Comissão Europeia à televisão France 2, num novo dia de detenções e demissões em massa, argumentando, para além disso, que se Ancara reintroduzir a pena de morte, como já sugeriu o Presidente Recep Tayyip Erdogan, as negociações para a entrada da Turquia na comunidade europeia devem cessar imediatamente.

Já mais de 60 mil pessoas foram atingidas pela purga governamental que se seguiu à tentativa de golpe de Estado organizada por uma facção do Exército. Os responsáveis do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de Erdogan culpam o oposicionista exilado Fethullah Gülen e estão a afastar ou deter todos os seus supostos apoiantes nas instituições do Estado, arrastando pelo caminho jornalistas e académicos que se opuseram à deriva autoritária do Presidente turco nos seus últimos anos de poder.

Nesta segunda-feira, por exemplo, a Turquia emitiu mandados de captura para 42 jornalistas, incluindo uma das mais destacadas críticas do Governo, a escritora e comentadora política Nazli Ilicak, que, segundo os últimos relatos, pelo final da tarde ainda não tinha sido encontrada pelas autoridades. O Governo ordenou também a demissão de 211 funcionários da transportadora aérea nacional, a Turkish Airlines, dizendo que estavam ligados ao movimento de Gülen. Pelas regras do estado de emergência, as detenções sem acusação podem durar um mês.

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O AKP ordenou também a detenção de mais 40 elementos do exército, membros da Academia Militar turca. A maioria dos mais de 13 mil detidos são soldados – mais de 8800 –, mas entre os encarcerados, segundo disse o Presidente no domingo, há também 2101 juízes, 1585 polícias, 52 funcionários da administração local e dezenas de académicos e jornalistas. São suspeitos de pertencerem à “rede paralela” criada por Gülen, “traidores”, segundo Erdogan, que várias organizações humanitárias dizem estarem a ser torturados e maltratados. O Governo rejeita-o.

Mas enquanto avança a purga de Erdogan, que a comunidade europeia – mais ruidosa nos seus protestos do que os Estados Unidos – teme estar a ser conduzida para afastar obstáculos à concentração de poder de Erdogan e do seu AKP, a Turquia vive um momento de rara unidade nacional. No domingo, dezenas de milhares de pessoas, da oposição secular ao poder religioso, concentraram-se na Praça Taksim para denunciar a tentativa de golpe e defender o mesmo Estado de Direito que o Presidente turco vinha sendo acusado de atropelar.

Nesta segunda-feira, uma nova demonstração de unidade nacional. Erdogan reuniu-se com os principais líderes da oposição no seu Palácio Presidencial para acertar a estratégia para o pós-golpe. Só não foi convidado Selahattin Demirtas, a cara do único partido pró-curdo no Parlamento, que Erdogan repetidamente acusa de ter ligações ao grupo terrorista Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que ainda esta segunda-feira matou quatro pessoas num atentado à bomba no Leste do país. Três eram polícias.

Nunca, desde que Erdogan ascendeu à Presidência, ocorrera um encontro com os líderes da oposição no luxuoso Palácio Presidencial, cuja ostentação simboliza para muitos as aspirações sultanistas de Erdogan. O Presidente encontrou-se com o partido nacionalista MHP e com o CHP, de centro-esquerda, cujo líder, Kemal Kiliçdaroglu, prometera até nunca entrar no Palácio.

O gabinete de Erdogan anunciou apenas que no encontro se avaliaram os "passos a tomar em nome da liberdade, segurança e bem-estar da nação – unida em torno da democracia do Estado de Direito –", mas uma fonte do CHP, citada pelo diário Hürriyet, afirmou que a reunião foi “positiva em termos da normalização das políticas”.