Reportagem

Ei, ei, ah, bismillah, que tudo corra bem, Turquia”

Conservadores religiosos e ferozes seculares juntaram-se para encher a praça e entoar os mesmos refrãos. O palco da Taksim, montado pelo AKP, deu lugar ao líder do maior partido da oposição. O golpe que não aconteceu fez o seu pequeno grande milagre.

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Um mar de gente no comício do CHP com o AKP na praça Taksim, em Istambul AFP/BULENT KILIC
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Manifestantes com a imagem do "pai" da Turquia miderna, Mustafa Kemal Atatürk AFP/OZAN KOSE
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O líder do CHP, Kemal Kiliçdaroglu, dirige-se à multidão AFP/OZAN KOSE

Por uma vez, turcos apoiantes do AKP, no poder, e simpatizantes do CHP, o maior partido da oposição, dançaram juntos ao som da mesma canção. As bandeiras de uns a tocarem nas dos outros, os cartazes de uns misturados com os de quem vota e pensa de outra maneira, os primeiros a gritaram sozinhos “Allahu Akbar” (Deus é Grande), todos juntos a entoarem o refrãos de uma canção a dar vivas à liberdade e à nação – “Ei, ei, ah, bismillah, ei, ei ei, ah, Turquia”.

A liderança do CHP (Partido do Povo Republicano), o mais antigo partido político turco, fundado pelo “pai” dos turcos, Mustafa Kemal Atatürk, convocou para a praça Taksim, de Istambul, o seu “Comício da República e da Democracia”. A praça vestiu-se a rigor, com gigantescas faixas de Atatürk penduradas bem alto, os vendedores também se prepararam e foram desenterrar toda a parafernália em que a Atatürk é protagonista, incluindo balões vermelhos em forma de coração com, não uma, mas três fotografias do maior herói nacional.

O CHP está na oposição desde 2002 e as relações dos seus dirigentes com o AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), no poder, principalmente com o actual Presidente da República e antigo primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, não podiam ser mais azedas. Há poucos palavrões que uns e outros não tenham usado para se referir aos rivais numa Turquia profundamente dividida.

O consenso não é comum por aqui, mas na noite de 15 de Julho, todos os partidos e instituições, sem excepção, condenaram o golpe de Estado tentado por uma parte dos militares, alegadamente encabeçados pelos seguidores de um imã a viver exilado nos Estados Unidos, Fethullah Gülen. O consenso é tão raro que é preciso celebrá-lo. O CHP não se limitou a fazer o seu próprio comício no espaço que há mais de uma semana é ocupado em permanência por apoiantes do AKP, também convidou o partido no Governo a estar presente. O AKP aceitou e o resto é história.

A Taksim, epicentro da vida da metrópole, não se encheu, ficou, literalmente, a transbordar. A polícia montou barreiras e tentou até revistar quem chegava, começando a meio da rua Istiklal, aquela por onde, num dia normal, circulam três milhões de pessoas. A câmara municipal (governada pelo AKP) manteve a gratuitidade dos transportes públicos mais um dia e abasteceu a multidão de bebida e comida, como tem feito toda a semana. O AKP mandou dirigentes, membros do Governo e do partido, mas o palco foi do CHP.

Restaurar o Estado

“O Estado não pode ser gerido com ódio, ira e preconceito. Os que tentaram este golpe têm de ser julgados de acordo com a lei e no cumprimento do Estado de direito. A dignidade e a seriedade do Estado obriga a que seja assim”, defendeu Kemal Kiliçdaroglu, líder do CHP, perante a multidão entusiasmada.

Torturar ou ameaçar os conspiradores colocaria o Estado no mesmo nível, disse o político, que veio à Taksim acompanhado por muitos dirigentes do CHP e pela totalidade dos 133 deputados que formam o grupo parlamentar do partido, na Assembleia Nacional, em Ancara. O que este golpe veio demonstrar, repetiu várias vezes, é que a administração deve ser orientada pelo mérito – uma referência aos milhares de funcionários públicos que terão acedido aos seus postos por serem seguidores de Gülen quando este e Erdogan ainda eram aliados. Muitos têm sido afastados nos últimos dias.

“Por outras palavras, devemos enterrar na história a ideia de capturar o Estado em vez de o dirigir. Neste contexto, a reestruturação do Estado é uma necessidade”, afirmou.

Engin concorda com tudo o que ouviu a Kiliçdaroglu. E nunca, “nunca, por nenhum motivo”, votaria no seu partido. Fervoroso apoiante do AKP, um partido que se diz pós-islamista e de centro-direita, e das conquistas sociais dos últimos anos, ainda olha para os deputados de centro-esquerda do CHP e vê neles uma elite habituada a tratar a Turquia como sua. Mesmo passado tanto tempo, mesmo quando, para tantos, é agora Erdogan que se porta como se os turcos fossem seus servos.

Emoções e unidade

Engenheiro de 34 anos, Engin não podia faltar à chamada. Já tinha vindo à Taksim em dias anteriores. Aliás, veio na própria noite do golpe, decidido “a defender a democracia e a nação”, depois do apelo de Erdogan. Mas vir domingo era mais importante do que em qualquer dia, desde 15 de Julho. “O ambiente político na Turquia é muito diferente do da Europa. Unidade é um conceito muito problemático na Turquia”, diz.

“Os turcos são muito emocionais e isso pode ser um problema. Mas agora é bom. Estarmos aqui, com os símbolos nacionais é muito importante”, afirma, sempre a sorrir e a agitar a bandeira turca que segura na mão. “Acredito que este acontecimento infeliz é uma oportunidade para os turcos se unirem, independentemente de etnias e religião”, diz. “A democracia é o mais importante.”

Se fosse tão fácil os políticos entenderem-se na Turquia como foi pôr rivais a dançar e a agitar bandeiras, o futuro seria bonito. Em teoria, todos os turcos que aqui se juntaram defendem o mesmo: democracia, “Milletindir” (Povo da nação), República, liberdade, Estado de direito, Justiça. As palavras que uns gritam até fazem parte do nome do partido do rival. O problema é que as palavras nem sempre querem dizer o mesmo para quem as usa.

Nevsin veio com a mãe e com o namorado. Na testa tem uma fita onde se lê Turquia e, atada ao pescoço, uma bandeira que lhe chega quase aos pés com o rosto de Atatürk. A mãe, 62 anos, não exibe nenhum adereço tão grande mas ganha na quantidade: chapéu de palha com pin de Atatürk, T-shirt justa com o mesmo motivo e, às costas, um saco de ginástica com… Atatürk. Dançam sem parar e Nevsin usa a bandeira-capa para marcar o ritmo.

A Taksim é de todos

“Tínhamos de vir. A Taksim é de todos. A Turquia também”, diz a professora de liceu, que se queixa das mudanças que o Governo do AKP quer introduzir nos currículos. “Querem que o Corão seja ensinado a adolescentes. Eu acho mal, mas não sei se é assim tão grave. Afinal, os adolescentes não gostam de ser obrigados a aprender nada, não é? E o Corão é bem chato.”

Uma miúda pequena está mesmo ao lado, entretida a esmurrar a barriga bem desenhada do pai, T-shirt com o rosto de Erdogan a atenuar os golpes. A pequena começa a rodopiar e aproxima-se, pedindo a Nevsin que se vire para ver o que tem estampada a sua bandeira-capa. A miúda rechonchuda mostra a sua aprovação com o sinal universal do dedo, Nevsin ri-se para ela e continuam ambas a dançar ao som de uma canção patriótica.

“Estes ao menos foram eleitos”, diz Nevsin, passado um bocado, num intervalo para beber água e recuperar forças. “Acredito que serão derrotados nas urnas, nem que demore.” Nevsin não é religiosa e preferia que houvesse menos mulheres de lenço na cabeça na Turquia. “Mas se elas se sentem bem assim, eu não vou julgar. Só me irrito quando Erdogan diz que o lugar das mulheres é em casa, que servimos para fazer filhos e cuidar dos maridos. Na minha escola, há professoras de lenço e isso é normal. ”Desde que ninguém seja obrigado a fazer nada que não queira.”

Nevsin não tem nada contra o islão. Só não suporta “o pio Erdogan”, que “usa a religião para ter mais poder”. “É um autoritário, quer ficar na história, mas aqui estou eu, em 2016 e o herói dos turcos ainda é Atatürk, que proibiu o lenço.”

O intervalo já acabou e na praça onde parece caber o mundo toda a gente se mexe, entre os que levantam os pés e os que dançam a valer, como Nevsin. Entre canções, o animador incita a multidão. “A Turquia, a Turquia está toda aqui, na Taksim, vá lá Turquia”. Volta o êxito do momento, “Ei, ei, ah, bismillah, ei, ei ei, ah, Turquia”, é o refrão que todos cantam.

Afinal, religiosos ou não, há poucos turcos que não pontuem o seu discurso com “bismillah”, expressão que significa “Em nome de Deus”, mas que, no fundo, quer dizer “Que tudo corra bem!”. Nisto, pelo menos, estão todos de acordo. “Ei, ei, ah, bismillah, ei, ei ei, ah, Turquia”.