Análise

Turquia: a “revolução” começa na escola?

A “erradicação” dos gulenistas é a justificação da grande purga. Um apoiante do AKP compara esta caça às bruxas com “a caça aos trotskistas nos tempos de Estaline”.

Até onde quer e pode ir Tayyip Erdogan? Um dos mais significativos sinais enviados pelo contragolpe não diz respeito à depuração de militares, polícias ou serviços secretos, mas ao sistema de ensino. A depuração maciça de professores e reitores assinalará a vontade de transformar o Estado e a própria sociedade? Para lá de eliminar adversários e concentrar o poder Erdogan parece ambicionar muito mais. Pretende reconstruir o país "de cima para baixo" e inaugurar uma "nova república"? No relativo à escola, o desígnio seria "formatar" cultural e ideologicamente as novas e futuras gerações.

No dia 19, foram suspensos ou demitidos 15.200 professores do sector público e 21.000 do privado. O YOK (Conselho do Ensino Superior) pediu também aos 1500 reitores (1.100 nas universidades públicas e 400 nas privadas) que apresentassem a demissão. O YOK, criado depois do golpe militar de 1980 para controlar o ensino, tem uma influência decisiva tanto nas nomeações dos reitores como na elaboração dos currículos e na definição dos campos de investigação. Vai lançar uma "revolução ideológica"?

É bom ter a História presente. Kemal Atatürk iniciou a construção do moderno Estado turco a partir da justiça e da escola. A depuração da justiça começou há mais de um ano e culmina agora com milhares de juízes e procuradores saneados. E, pela primeira vez na história da República, foram presos magistrados do Conselho de Estado, do Supremo Tribunal e do Tribunal Constitucional.

O enigma "FETÖ"

Muitos enigmas permanecem sobre o golpe de 15 de Julho. Em contrapartida, torna-se dia a dia mais inquietante o desígnio do contragolpe. A maioria das informações que correm sobre o golpe, seus autores e suas motivações vem de fontes que falam sob anonimato e geralmente exprimem uma "narrativa oficial".

É intrigante o grau de envolvimento de membros do movimento de Fetullah Gülen, Hizmet (Serviço), aliado do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, de Erdogan) até ao conflito frontal em 2013, a pretexto da corrupção. Foi designado como "Estado paralelo", referindo a sua presença – "infiltração" — no aparelho de Estado. Agora, o Hizmet tem direito a outra designação: "Organização Terrorista Fethullista (FETÖ)". O que resta da imprensa independente adoptou obedientemente esta designação.

Sempre foi público que os gulenistas ocupavam importantes posições na justiça ou na polícia, tendo uma presença secundária nas Forças Armadas, já que os militares faziam nas academias uma triagem rigorosa de todos os suspeitos de ligações com o Hizmet. Até ao dia 21, foram presos 124 generais e almirantes. Serão do Hizmet?

A "erradicação" dos gulenistas é a principal justificação da grande purga. As "listas" estavam feitas há muito tempo. Nas instituições reina a "ferocidade". O Financial Times cita um apoiante do AKP que compara esta caça às bruxas com "a caça aos trotskistas no tempo de Estaline".

É aconselhável não pôr as mãos no fogo por ninguém sem mais informação. Mas importa dizer que o movimento Gülen não era apenas um obstáculo à vontade de poder total de Erdogan. É também, ou sobretudo, um rival ideológico dentro do islão. Condena o "islão político" e defende a separação rigorosa entre Estado e religião. Gülen criticou a deriva autoritária de Erdogan e a sua noção de "democracia eleitoral": quem vence eleições não tem contas a prestar.

Até 20 de Julho foram suspensos ou presos dezenas de milhares de funcionários. Anota Jean Marcou, fundador e ex-director do Observatório da Vida Política Turca (OVIPOT, Istambul): "Se estas pessoas são acusadas de terem ou terem tido ligações com o movimento Gülen, damo-nos conta de que a sua implicação no golpe é muito relativa ou até inexistente."

W. Robert Pearson, antigo embaixador americano em Ancara, expôs as suas dúvidas no Politico Magazine. "Se a acusação contra Gülen é verdadeira, tudo bem. Se não é verdadeira, de duas uma: a acusação revelaria então fraqueza do governo; quer saiba que a acusação é falsa e a usa para manipular a opinião pública; quer acredite que é verdadeira e significando a recusa de encarar o tsunami de descontentamento que pode ter influenciado a tentativa [de golpe]."

Pode Erdogan?

O Presidente está a caminho de se tornar no mais poderoso líder turco desde Kemal Atatürk. Tem o caminho aberto para criar um regime presidencialista onde acumulará todos os poderes. Nos próximos tempos, oposição e dissidentes terão dificuldade em se lhe opor democraticamente para não serem acusados de simpatizantes do golpe ou do "complot Gülen". Erdogan mobilizou os seus adeptos, que passaram a dominar a rua, ao lado de bandos islamistas. Na noite do golpe, a direcção dos assuntos religiosos (Diyanet) deu ordens de mobilização das mesquitas — outro facto inédito.

O quadro tem no entanto um reverso. "Na Turquia ninguém venceu a longo prazo", advertem Hugh Pope e a analista Nigar Gökser, especialistas do mundo turco no think tank International Crisis Group. "Os estragos no exército — mais importante do que nunca dada a turbulência nos países vizinhos — será severa. Internacionalmente, a reputação da Turquia desceu drasticamente." Aguarda-se uma remodelação do exército. Qual?

Tenderá a agravar-se divisão interna. "Metade do país que não apoia Erdogan permanece insatisfeita perante um partido crescentemente aberto ao islamismo e tentando ocupar todos os ramos do Estado e da economia." A legitimidade de Erdogan poderá descer com o autoritarismo e com a sua política de polarização do país. A sua liderança será vulnerável. "Quanto mais se isolar mais difícil lhe será continuar a vencer."

Diz à Reuters, sob anonimato, um crítico de Erdogan: "Ele pode tornar-se no Presidente que sonhou, mas o país está ingovernável. Não há leis que funcionem e façam baixar a temperatura. É um sistema fechado que acumula a pressão. (...) Entrámos no abismo."

A mobilização de rua "é extremamente perigosa porque 50% do país tem devoção por Erdogan e 50% detesta-o", observa Jenny White, directora dos estudos turcos na Universidade de Estocolmo. "Pode transformar-se numa guerra civil."

O modelo democrático turco, que teve momentos brilhantes, foi sendo minado nos últimos cinco anos. Escreveu há um ano Soner Cagaptay, analista turco-americano, que as políticas de Erdogan e a usurpação de poder produziram "uma tóxica mistura de polarização política, a generalizada oposição da minoria curda e a ressaca da guerra civil síria, incluindo os atentados do Daesh [Estado Islâmico] e de guerrilheiros curdos". Era de mais para que Erdogan "baixasse as tensões antes da explosão". Aconteceu o 15 de Julho.

"Nos anteriores golpes o exército tomou o poder argumentando que as instituições não funcionavam ou estavam cheias de islamistas. Mas as instituições continuaram. Desta vez, as instituições foram destruídas." Por Erdogan. Repete-se a pergunta: que instituições e que regime quer ele construir?