Tanto mundo na música de Sons of Kemet e Goat

A banda britânica, dita de jazz, mas que é muito mais do que isso, assinou um concerto admirável e foi a grande surpresa de sexta-feira no Milhões de Festa, festival congregador que acolheu também os muito aguardados Goat.

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Sons of Kemet
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Goat
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Gath Money Recards
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Masshstepper Hhy Varg
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The Bug ft. Miss Red
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Gath Money Recards

Estamos no momento de pausa. Na piscina, o italiano Nan Kolé termina o seu set de techno sul-africano perante os últimos resistentes de calção e biquíni. A cinco minutos de distância, no Parque Fluvial, para onde este ano se mudou o Palco Taina, pratica-se aquilo que o baptismo indica – taina significa refeição farta de comida e bebida –, e come-se o rancho, a cabidela ou o chili enquanto a Rádio Popular de Paulo Cunha Martins oferece como banda sonora clássicos do Duo Ele & Ela para que a festa popular o seja realmente. Por essa hora, muitos dos que se deslocaram ao Milhões de Festa estariam a percorrer as ruas de Barcelos para encontrar lugar para a sua taina pessoal, necessária porque são longos os dias do festival.

A noite já desceu há muito sobre o parque, e a lua, que estava cheia há um par de dias, continua cheia o suficiente para que, caso fosse inexistente essa coisa chamada electricidade, os nossos passos fossem dados com segurança. Aquela luz, bonita certamente, é porém demasiado clara, demasiado natural para tudo aquilo que ouvimos. Já ultrapassámos as três da manhã. Duas silhuetas recortam-se no palco entre os flashes de cor relâmpago ou vermelho infernal. Ela, Miss Red, a MC israelita em cadência tumultuosa. Ele, The Bug, ou seja, o inglês Kevin Martin, de volta ao "lugar do crime" depois de, em 2015, ter protagonizado um dos momentos mais altos do Milhões de Festa.

Martin apresenta desta vez a sua interpretação do dancehall jamaicano, mas nada se altera no âmago da sua criatividade. O ritmo quebrado equilibra-se num som saturado de subgraves diabólicos e sons de um mundo em convulsão. Uma reverberação a que é fisicamente impossível ficar indiferente.

São três da manhã e, no Palco Lovers, instalado no terreiro e aberto para a alta e maciça parede de pedra que marca o limite do recinto, o público move-se em dança de movimentos quebrados como a música, que parece um fluxo sem fim – “Pórrtchugal”, incita Miss Red entre canções, pausa sem verdadeira pausa porque Bug não dá descanso: entre o fim de uma música e o início de outra, sons soturnos continuam a ser debitados das colunas.

Sequência perfeita, naquele palco, para o encontro entre Marshstepper, HHY e Varg, electrónica feita noise, noise feito lava sonora arrasando tudo à sua passagem – entre um e outro concerto, houve Goat no Palco Milhões, o principal, mas dos mascarados falaremos mais à frente.

Corrente de afectos

The Bug regressou um ano depois, porque há no Milhões uma corrente de afectos que se solidifica entre músicos, organizadores e público. The Bug não voltou com o mesmo concerto, porque a repetição dos mesmos sons, gestos ou rituais não faz sentido num festival que pretende representar o dinamismo e a capacidade de inovar e surpreender na música do presente.

Sexta-feira, o Milhões apresentou-nos, portanto, a crew da Goth Money Records, colectivo hip-hop cujos membros se espalham por Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles (a internet esbate as distâncias). Em Barcelos, estiveram dois deles, Black Kray e MFK Marcy Mane. Estiveram também, infelizmente, problemas técnicos que impediram que aquele hip hop que vêm classificando como "trap goth" (péssima designação, descrição eficiente) se apresentasse com o impacto desejado.

No final daquela sequência de canções que terminavam abruptamente, depois do tempo a ouvir aquelas produções esqueléticas mas que tocavam uma sensação de raiva e paranóia colectiva que os Death Grips, por exemplo, levam a um extremo (quase) insustentável (essa pequena distância a que se quedam é que os torna tão terrivelmente interessantes), Black Kray e MFK agradecem e prometem regressar com a equipa completa. É por esse momento que, agora, ansiamos. Não foi ali que o primeiro dia de Milhões de Festa totalmente operacional – quinta houve noite de festa, mas limitada ao Palco Taina – registou um momento para guardar na sua história. Esse aconteceria logo a seguir.

Portanto, The Bug regressou por causa da boa experiência do ano passado, e os Goat, cabeças do cartaz de sexta-feira, passaram por Barcelos, em parte, porque os compatriotas Graveyard, que aqui tocaram em 2011, lhes recomendaram o Milhões.

Também os Sons of Kemet pertencem a essa rede que se constrói em Barcelos. Há dois anos víramos o saxofonista Shabaka Hutchings oferecer-nos um final de tarde memorável com os seus Comet Is Coming, encontro de Sun Ra com psicadelismo electrónico. Agora, vimos Hutchings regressar, e regressar em grande. No Palco Milhões, os Sons of Kemet foram surpresa recebida com entusiasmo crescente pelo público e assinaram o melhor concerto da noite de sexta-feira.

Um abraço fraterno

O fundo de palco abre-se este ano para a paisagem da outra margem do Cávado. O céu estrelado, o verde natural e alguns edifícios denunciando presença humana misturam-se com a decoração simples da estrutura que emoldura o local onde actuam os músicos (relâmpagos, nuvens e explosões de BD). É ali que Shabaka Hutchings, um tubista, Theon Cross, e dois bateristas, Seb Rochford e Tom Skinner, se entregam a uma música que vem sendo classificada como jazz, mas que é antes um abraço fraterno, intenso, inspiradíssimo, entre sons de diversas origens. Burn é o título do primeiro álbum da banda. Lest We Forget What We Came Here to Do, o segundo, foi editado há um ano. Em Barcelos, vimos como a música registada em estúdio se torna em concerto uma experiência transcendente.

Shabaka parece em momentos Coltrane e Pharaoh Sanders a pesquisarem melodias caribenhas e egípcias. Theon Cross é um portento, um virtuoso que toca a tuba como o superlativo Larry Graham tocava o baixo nos Sly & The Family Stone. Atrás deles, o duo de bateristas complementa-se na perfeição, criando uma torrente rítmica que se impõe sem qualquer manifestação exibicionista.

No concerto, os Sons of Kemet mostraram a elegância do jazz etíope de Mulatu Astatke e a vertigem rítmica da música balcânica. Foram pesquisadores sonoros procurando outros céus para a sua música e generosos criadores de ritmos e melodias a que o público se pudesse entregar. Não demorou a que este se deixasse conquistar. Houve crowd-surf e dança frenética. Viu-se uma fila de conga formar-se espontaneamente e serpentear entre os restantes espectadores. No final do encore, os aplausos prolongaram-se por alguns minutos. Os músicos, que tinham sido alimentados pelo entusiasmo do público, mostraram então um sorriso aberto, tão felizes quanto surpreendidos pela recepção que tivera a sua música.

É nesse momento que nos lembramos: nem um telemóvel erguido para registar o momento, nada de conversas com o concerto como pano-de-fundo, nada de costas voltadas para o palco para registar mais uma selfie. No Milhões, festival que privilegia a proximidade, sem enchentes, há coisas mais importantes para fazer. Há música para ser vivida e apreciada com os sentidos no palco. O concerto dos Sons of Kemet mostrou que essa é uma escolha feliz. E depois, os Goat.

Durante a tarde, vimo-los passear incógnitos pelo verde do recinto, empurrando carrinhos de bebé, correndo atrás dos filhos novos em correria perigosamente próxima das escadas de pedra. À noite, sem crianças à vista, os Goat foram verdadeiramente os Goat. Duas guitarras, um baixo, uma bateria, um percussionista, duas vocalistas que cantam em inglês, mas com o tom subido nos agudos da tradição tuaregue (ou será indiana?). São torrente rítmica incessante e abandono de rock’n’roll psicadélico. São um homem vestindo uma burka branca encimada por flores vermelhas, outro vestido com túnica preta que parece saída de um episódio perdido da Guerra das Estrelas, e um outro, o percussionista, que se assemelha a um feiticeiro de tribo africana. São uma celebração de diversidade cultural disfarçada de banda rock (que não toca exactamente rock’n’roll).

Ouvimos o “save us” de No children no encore. Ouvimos, antes dele, a percussão turca guiar a caminhada, electricidade a transbordar das guitarras, da efusiva Run to your mamma. Um rapaz em tronco nu pareceu passar todo o concerto nos braços do público em crowd-surf interminável.

A banda tocou canção após canção como se todas elas fossem uma só onde convivem Ali Farka Touré, Tinariwen, Funkadelic, Fela Kuti, Jimi Hendrix, Can e Black Sabbath. Todos juntos numa banda sem rosto, agitando-se ao ritmo da pandeireta que as vocalistas tocam enquanto dançam com graciosidade. Todos juntos neste festival congregador chamado Milhões de Festa.

O festival continua este sábado com concertos de Sun Araw, The Heads ou Islam Chipsy & EEK. Termina domingo com El Guincho, Dan Deacon e Oozing Wound como destaques.