A praça central de Cleveland é um hipermercado de raiva, tensão e humor

O tiro que não é um tiro, o adolescente de megafone improvisado a fazer um "buuu" que não cabe nestas páginas, os manifestantes que atearam fogo a si próprios sem querer – houve um mundo paralelo nas imediações da convenção do Partido Republicano.

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Todas as manifestações cabem na praça central de Cleveland Lucas Jackson/Reuters

O som estala a caminho para a praça central de Cleveland, onde um mar de gente se acotovela como numa gigantesca lata de sardinhas sem espaço nem para mais uma espinha. Nos passeios que amparam a gigantesca Avenida Euclid, um polícia dos serviços secretos com colete à prova de bala olha de forma instintiva para um telhado de um edifício, como que à procura de um atirador furtivo; o homem que segue à nossa frente sublinha o palavrão com uma meia volta acompanhada por muitos outros; três jovens agacham-se encostadas ao vidro de uma loja, como se um atirador furtivo tivesse menos pontaria só porque o alvo está sentado no centro de uma cidade. Ninguém diz o que pensa, mas não era preciso ser dito: o momento que toda a gente temia desde o arranque da convenção do Partido Republicano está em marcha e é preciso encontrar um lugar seguro.

Poucos segundos depois, dezenas de polícias correm para o outro lado da avenida, e quem é inconsciente ou está apenas a trabalhar, ou as duas coisas ao mesmo tempo, corre na mesma direcção. Alguém disparou um tiro, quase já não há dúvidas.

De repente, grita-se a plenos pulmões, um mensageiro do alívio que todos querem sentir naquele momento: "É só um pneu furado, pessoal! É só um pneu furado!"

Parada a poucos metros dos sinais luminosos do outro lado da avenida, com a praça central mesmo em frente, uma carrinha amarela com o pneu do lado do condutor furado começa a ser rodeada de polícias, fotógrafos e outros jornalistas, pessoas de Cleveland que poucos segundos antes tinham ficado à beira do pânico, e pessoas de outras cidades que as compreendiam muito bem.

O sentimento de alívio chega numa torrente de gargalhadas, que cresce ainda mais quando uma mão-cheia de polícias diz aos três ocupantes para ficarem quietos, que eles mesmos iam tratar do assunto, abram só a bagageira, por favor. A história do atirador furtivo que nunca existiu passou a ser a história de um grupo de agentes fardados e armados quase até aos dentes a trocar um pneu, enquanto outros tentavam impedir que os curiosos — para quê esconder, a maioria eram jornalistas — causassem ainda mais problemas ao trânsito infernal no centro de Cleveland, dando ordens para que a outra via fosse desimpedida.

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Alexandre Martins

Sentado no lugar do pendura, Edwin Garcia, um veterano da guerra do Vietname que viajou 30 quilómetros de Lorain até Cleveland só para "curtir o ambiente" durante a convenção, grita "Hillary, amo-te, querida!" Já com as câmaras apontadas ao nariz, rodeado por um par de óculos fundo de garrafa, cabelo máquina 1 e barba por fazer, e complementado por uma T-shirt de manga cava que se estica para acompanhar a generosa barriga até ao limite do tablier, Garcia mostra-se radiante por ser o centro das atenções.

Respondeu a todas as perguntas com grande entusiasmo, mesmo as mais parvas – "Era você que vinha a conduzir?", pergunta alguém ao homem que vinha sentado no lugar do pendura e com o cinto de segurança bem apertado. "Não, eu não conduzo, tenho dinheiro suficiente para pagar a um motorista", atira com um sorriso irónico. 

"Hillary, amo-te, querida!", grita mais uma vez, para se certificar de que os milhares de republicanos que estão na cidade para a convenção do partido ouçam bem. "Vou votar nela, sem dúvidas!" Pouco depois, o condutor entra na carrinha amarela. "Obrigado!", dizem ambos aos polícias de Cleveland que tinham acabado de mudar o pneu do "carro mais feio que alguma vez provocou um incidente", nas palavras de um espectador mais entusiasmado.

Resolvido o problema, a avenida fica livre da fila que nunca mais acabava e fica também mais fácil continuar o caminho até à praça central, de onde já se ouvem assobios e palavras furiosas gritadas ao megafone.

Chegar a esta praça, abrigada por três arranha-céus com mais de 200 metros de altura e pontuada por um monumento aos soldados da Guerra Civil, é como entrar num hipermercado de manifestações, com prateleiras atrás de prateleiras dos mais variados protestos, frescos ou já fora de prazo para as páginas dos jornais.

O que atrai mais atenções e merece um forte cordão policial para evitar males maiores, porque nesta cidade as pessoas podem andar armadas no meio da rua — desde que não as apontem a alguém, se não ainda são capazes de levar uma multa —, é o dos fanáticos religiosos da Igreja Baptista de Westboro, uma organização que parou no tempo em que se dizia que a sida é uma doença enviada por Deus para matar os homossexuais.

Mas aqui estão eles, com os coldres à cintura mas sem armas que se vejam e a empunhar cartazes com as mensagens que podem ser lidas no seu site — é só pesquisar no Google o nome e vamos parar a GodHatesFags (Deus odeia os maricas).

A poucos metros dos cartazes em que se lê "Got Aids Yet?" ("Já têm sida?", cujas iniciais em inglês formam a palavra "gay"), mas separada dos homens da Igreja Baptista de Westoboro por polícias vindos da Califórnia para ajudar a manter Cleveland segura, Clara Lavinia já tem os braços doridos de tantos minutos a erguer as palavras "Queer Love" e "Queer Power" numa contra-manifestação que começa a ganhar peso.

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Um dos contestatários dos contestatários é Renan, um adolescente judeu de 16 anos que trouxe o seu próprio cartaz, onde se lê "Discurso com ameaças não são protegidos pela Primeira Emenda", com o "não" bem sublinhado. Renan tem uma tendência para dobrar o cartaz em forma de megafone improvisado para tentar abafar o discurso da Igreja Baptista de Westboro com um "buuu" que nunca mais acaba por falta de espaço nestas páginas.

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Mas esta praça e o resto de centro de Cleveland, onde decorre a convenção republicana, não se enche apenas de discursos de ódio e respostas furiosas. Também há espaço para o humor, a arma de quem não vê sentido em pôr duas pessoas com convicções tão afastadas a falar e esperar que daí saia algo de construtivo.

Um dos cómicos de serviço é Alan, um jovem de Cleveland vestido com uma T-shirt que diz "Os homens a sério amam gatos" e a passear um cartaz apontado a "todos os manifestantes que vieram para cá chatear as pessoas": "Make Cleveland Great Again. BY LEAVING" ("Tornem Cleveland grande outra vez. INDO EMBORA", numa adaptação do famoso slogan de campanha do nomeado do Partido Republicano à Casa Branca, Donald Trump.

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Um pouco mais à frente está um casal, imóvel há vários minutos, ambos vestidos com coletes florescentes. Ela segura uma bandeira dos EUA, e ele uma arma feita com uma mira telescópica falsa montada num gigantesco pincel, apontada aos céus: era a "equipa de resposta artística".

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Já perto de uma das saídas da praça, que a convenção está prestes a começar no pavilhão Quicken Loans, três muçulmanas espalham papéis com mensagens "contra a islamofobia neste país", e oferecem pastilhas elásticas mascaradas de medicamento, de uma marca que não se encontra em qualquer loja: o Islamophobin, que garante "um alívio rápido de todos os sintomas associados à islamofobia crónica" e "espalha o amor". Não esquecer: "Tome duas pastilhas e chame um muçulmano pela manhã. Aviso: pode provocar uma coexistência pacífica."

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Já às portas do Quicken Loans, a poucos metros da jaula de ferro por onde os credenciados têm de passar, acaba de ser controlado o confronto mais violento desde segunda-feira, durante uma queima da bandeira dos Estados Unidos — uma prática protegida pela Primeira Emenda da Constituição, segundo uma decisão de 1989 do Supremo Tribunal.

Só que a polícia diz que alguns dos manifestantes acabaram por atear fogo a si próprios sem querer e entraram em acção, até porque já havia membros dos Bikers for Trump (motoqueiros a favor de Trump) metidos ao barulho. Foram detidas 17 pessoas, entre as quais Joey Johnson, o activista e membro do Partido Comunista Revolucionário que queimou uma bandeira na convenção do Partido Republicano em 1984, no Texas, e teve um papel fundamental na decisão que o Supremo viria a tomar cinco anos mais tarde.

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Mas este foi o desvio à norma da semana: muita cor, muitas palavras de ódio, muito humor, e só alguns sustos. À saída de mais uma noite de discursos, e para lembrar que a vida não é feita apenas de medo e histeria, dois jovens recebem os delegados do Partido Republicano com largos sorrisos e dois cartazes, um deles em espanhol, para os mexicanos verem lá em casa: "Donald, eres un pendejo."

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