Cruz tira o tapete a Trump em plena convenção e aconselha republicanos a votarem “em consciência”

Senador do Texas corrido do palco sob um coro de protestos e insultos.

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Nos dois primeiros dias da convenção do Partido Republicano que está a decorrer em Cleveland, no estado do Ohio, a campanha de Donald Trump foi forçada a fazer várias acrobacias para não deixar cair os ovos que ela própria ia atirando ao ar, num exercício quase suicida que foi adiando uma imagem de união.

Mas quando muitos julgavam que nada mais podia acontecer depois do plágio no discurso de Melania Trump e de uma última tentativa para travar a nomeação do magnata por parte de um grupo de delegados, eis que na noite de quarta-feira surgiu em cena o senador Ted Cruz, que chegou do Texas, em pose de cowboy insolente, para desafiar o nomeado do seu partido perante milhões de telespectadores: em vez de apelar ao voto em Donald Trump, Cruz aconselhou os republicanos a, em Novembro, “votarem em consciência” nos candidatos em quem mais confiam, e acabou por ser corrido do palco sob insultos e um coro de protestos que não se via numa convenção deste género há mais de 50 anos.

Apesar de os primeiros sinais do que acabou por acontecer terem começado a surgir horas antes do discurso, os delegados presentes no pavilhão Quicken Loans, e milhões de eleitores do Partido Republicano que estavam a seguir a convenção através da televisão, esperavam que Ted Cruz acabasse por recomendar o voto em Donald Trump sem quaisquer equívocos – afinal estava em causa a união de um partido que acabou de sair de umas eleições primárias muito duras, e quem melhor do que o último adversário que Trump atirou ao chão para fazer as pazes no partido e pô-lo finalmente a pensar apenas na luta pela Casa Branca?

Mas não eram esses os planos de Cruz, um conservador que nasceu politicamente no movimento Tea Party e que tem feito carreira no Partido Republicano a lutar contra o establishment – foi ele quem forçou a paralisação do Governo norte-americano em Outubro de 2013, mesmo contra a vontade dos seus líderes no Senado e na Câmara dos Representantes.

Com os olhos postos nas eleições de 2020, à espera de um desastre eleitoral de Donald Trump contra Hillary Clinton em Novembro, e sem esquecer que Donald Trump ainda há três meses se divertia no Twitter a dizer que a mulher dele é feia e o seu pai esteve ligado ao assassínio de John F. Kennedy, Ted Cruz deu a provar ao magnata um pouco do seu próprio remédio: não foi politicamente correcto e deixou bem claro que Trump não é o seu candidato.

Ainda é cedo para saber se foi um acto de grande coragem que será recompensado no futuro ou se foi uma jogada tão arriscada que poderá enterrar para sempre a sua ambição de chegar um dia à Casa Branca em nome do Partido Republicano, mas que foi um momento histórico, isso ninguém pode negar.

E a resposta dos delegados não foi menos histórica: à medida que Cruz ia falando – e nunca mais proferia as palavras mágicas –, a maioria dos delegados começou a vaiá-lo, destacando-se a delegação de Nova Iorque, com alguns dos seus membros a fazerem gestos que, traduzidos por palavras, diriam qualquer coisa como "anda lá com isso e vê lá bem o que vais dizer".

A coisa até nem começou mal – Cruz foi muito bem recebido quando subiu ao palco. Logo no início, deu os parabéns a Donald Trump por ter garantido, na terça-feira, a nomeação como candidato do partido, e tudo parecia bem encaminhado.

Depois de vários minutos a recontar a história da filha de um dos polícias mortos em Dallas por um atirador furtivo, na noite de 7 para 8 de Julho, Ted Cruz parecia começar a encaminhar-se para o momento por que quase todos os delegados ansiavam: “E se isto é, neste nomento, a nossa última oportunidade? O nosso último momento para fazermos algo pelas nossas famílias e pelo nosso país? Vivemos de acordo com os nossos valores? Fizemos tudo o que podíamos?”, questionou Cruz.

“A liberade significa ter juízes do Supremo Tribunal que não determinem as políticas, mas sim que cumpram a Constituição.” Até aqui, tudo bem – uma das promessas do magnata do imobiliário é nomear juízes à imagem de Antonin Scalia, um ultra-conservador que morreu em Fevereiro passado.

Congratulou-se com o "Brexit" (tal como Trump), disse que as pessoas “estão fartas de políticos que não as ouvem” (uma frase que já saiu várias vezes da boca de Trump), criticou os acordos internacionais de comércio (sim, outra vez Trump) e até disse que os Estados Unidos merecem ter um muro para manter os seus cidadãos seguros (onde é que já ouvimos isso?).

Mas os dois parágrafos assassinos chegaram pouco depois e deram início a uma cena que já não se via numa convenção do Partido Republicano desde que o moderado Nelson Rockefeller foi vaiado pelos apoiantes do conservador Barry Goldwater em 1964. A principal diferença é que na noite de terça-feira não havia nenhum moderado em cena – a batalha foi entre um conservador e os apoiantes de um populista.

“Precisamos de líderes que defendam princípios. Que nos unam à volta de valores comuns. Que troquem a raiva por amor. É essa a fasquia que devemos esperar, por parte de todos”, disse Cruz, antes de puxar o tapete a Donald Trump. “E a todos os que estiverem a ouvir, por favor não fiquem em casa em Novembro. Levantem-se, falem e votem de acordo com a vossa consciência, votem nos candidatos [republicanos] a qualquer cargo em quem confiam para defenderem a nossa liberdade e para serem fiéis à Constituição.”

Por entre os berros, os insultos, as vaias e as ameaças da esmagadora maioria dos delegados, ainda se ouviram algumas manifestações de apoio a Cruz na delegação do Utah, mas a tensão era tão elevada que a mulher do senador, Heidi Cruz, teve de ser escoltada do pavilhão por seguranças enquanto lhe gritavam aos ouvidos o nome da empresa para a qual trabalha, e que Donald Trump usou contra ela durante as primárias: "Goldman Sachs!”

Posição de força

Numa jogada muito ao seu estilo, Donald Trump decidiu aparecer de surpresa no pavilhão quando Ted Cruz ainda estava no palco, já sem conseguir fazer-se ouvir por cima dos gritos dos delegados. O senador ficou então numa posição confrangedora, alvo da ira dos delegados que estavam mais próximos e da indiferença dos que estavam mais afastados, que se viravam para saudarem a grande entrada do seu candidato.

E assim terminou a história de Ted Cruz no Partido Republicano de Donald Trump, sem que ninguém perceba muito bem qual foi o objectivo do senador do Texas. Podia ter decidido não discursar, como fizeram tantas figuras do partido que não querem ser vistas com Donald Trump, como os Bush, John McCain, Mitt Romney e o próprio governador do estado onde decorre a convenção, John Kasich; podia ter deixado uma mensagem em vídeo, como fez o senador Marco Rubio também na noite de quarta-feira, depois de ter pensado melhor e não ter aceitado o convite para discursar em carne e osso; ou podia ter quebrado perante a pressão para ser ele o homem que iria finalmente apagar a imagem de desunião no partido, e dizer as palavras: “Recomendo o voto em Donald Trump.”

Ao decidir manter a sua posição de força e demonstrá-la na cara de Trump, perante uma audiência nacional, Cruz mostrou coragem – não é fácil enfrentar o apoio a roçar o fanatismo que se nota nas palavras e nas expressões dos seus apoiantes mais fervorosos por estes dias, em Cleveland. O seu futuro depende agora do futuro de Trump nas presidenciais: se o nomeado do Partido Republicano sofrer uma pesada derrota em Novembro, Cruz poderá sair desta história como a única grande figura que o enfrentou até ao fim e foi dizer-lhe isso cara a cara; se o magnata continuar a desafiar todas as probabilidades e chegar à Casa Branca, Ted Cruz terá uma vida muito difícil no Partido Republicano de Donald Trump.

O caos no terceiro dia da convenção sublinhou mais uma vez o aparente amadorismo da organização que apoia o magnata, mas também há quem diga que, assim como assim, e de escândalo em escândalo, Donald Trump evita falar sobre os temas que realmente importam.

Na segunda-feira, os discursos sobre segurança nacional passaram para segundo plano depois de Melania Trump ter feito um discurso em que foram plagiados dois parágrafos do discurso de Michelle Obama na convenção do Partido Democrata em 2008. Após o responsável pela campanha, Paul Manafort, ter dito que a acusação de plágio não fazia nenhum sentido, e de o próprio Donald Trump o ter elogiado já depois de a polémica ter estalado, o caso foi finalmente resolvido na quarta-feira: a culpa foi de Meredith McIver, uma funcionária da Trump Organization que diz ter participado na escrita do discurso. McIver disse que apresentou a demissão, mas Donald Trump disse que não aceitou porque “toda a gente comete erros”.

Também na segunda-feira, Trump desviou a atenção do discurso mais emocionante do primeiro dia da convenção – o de Pat Smith, mãe de um dos quatro norte-americanos que foram mortos no ataque em Bengazi, na Líbia. Enquanto Smith falava, em lágrimas, o magnata resolveu telefonar em directo para o programa do apresentador Bill O’Reilly, na Fox News, para falar, entre outras coisas, sobre o seu discurso de aceitação na noite desta quinta-feira. Perante a entrada em directo de Trump, a Fox News interrompeu a transmissão do discurso da mãe de um dos mortos no ataque que os seus apoiantes dizem ser da responsabilidade de Hillary Clinton.

O discurso de Cruz na noite de quarta-feira acabou também por retirar um pouco do brilho ao discurso de aceitação do candidato republicano a vice-presidente, o governador do Indiana. Mike Pence foi o último a falar e felizmente para ele Trump não fez uma introdução – quando apresentou ao país o seu escolhido, no sábado passado, o magnata falou durante 28 minutos antes de chamar Pence ao palco, numa cerimónia que costuma reservar o protagonismo para o candidato a vice-presidente.