Reportagem

A mini-revolta dos anti-Trump morreu no primeiro dia da convenção

Delegados que ainda tinham esperança que fosse autorizado o voto livre e em consciência viram a sua proposta rejeitada. E apesar dos apelos à unidade em torno do nomeado, alguns admitem votar noutro partido em Novembro.

Fotogaleria
A delegação do Texas, com os seus típicos chapéus de cowboy, foi a mais rebelde REUTERS/Jonathan Ernst
Fotogaleria
Movimento "Stop Trump" protestou na rua em Cleveland sem violência Justin Sullivan/Getty Images/AFP

“Cleveland Rocks”, repete oito vezes o vocalista de serviço no primeiro dia da convenção do Partido Republicano, num falsete que começou a irritar os ouvidos mais sensíveis ainda a prestação não ia a meio. Os delegados procuravam os seus lugares no pavilhão Quicken Loans, mais habituado a noites de basquete e hóquei no gelo do que a estas coisas da política, e a canção passou despercebida: foi adoptada como hino rock da cidade há quase 30 anos, mas a versão mais popular é da banda Presidents of the United States of America, confessos eleitores do Partido Democrata e apoiantes de Bernie Sanders este ano.

Por essa altura já o presidente da comissão do Partido Republicano, Reince Priebus, tinha aberto a sessão com uma pancada de martelo no pódio onde Donald Trump vai prometer uma América grandiosa outra vez, na quinta-feira. E, com a tradicional frase “This convention will come to order!”, Priebus libertou de trás do palco uma série de oradores que se sucediam ao ritmo de uma banda de thrash metal. Ao todo, serão 26 quando o dia acabar, com a maior estrela desta bandeira reservada para Melania Trump, a antiga modelo que se casou com o magnata do imobiliário em 2005.

Lá fora, bem longe do pavilhão, ele próprio encerrado num outro gigantesco pavilhão feito de grades de ferro, blocos de cimento, helicópteros, 2500 polícias e mais cães do que é possível contar, começava o protesto de uma coligação do movimento “Stop Trump”, com mais de 40 sindicatos, organizações de defesa dos direitos dos imigrantes e activistas afro-americanos segundo os números dos organizadores, que as rígidas condições de segurança e as ruas estreitas não são boas conselheiras para uma estimativa independente. “Estamos aqui para sermos vistos e ouvidos, e para discutir o caminho que estamos a trilhar como país. Chegou a hora de travar o Trump”, disse aos jornalistas Tom Burke, um dos responsáveis pela coligação “Stop Trump”.

O número de manifestações contra Donald Trump marcadas até ao fim da semana não fica atrás do número de oradores no interior do pavilhão onde o Partido Republicano vai nomear oficialmente o seu candidato à Casa Branca, mas a desta segunda-feira foi a primeira com alguma relevância, e sem qualquer sinal de violência.

Com a atenção do país mais centrada na morte de três polícias em Baton Rouge, no estado da Luisiana, do que na convenção do Partido Republicano em Cleveland, no estado do Ohio, vários delegados esforçavam-se por dar uma imagem de união à volta de Donald Trump, ainda que alguns não conseguissem convencer nem o mais fanático republicano.

Mike Tauriainen acabou de chegar do Alasca – “É longe, mas é mais perto do que Portugal!”, diz sorridente depois das primeiras apresentações. Como delegado do Alasca, está obrigado a votar em Ted Cruz nas duas primeiras votações na convenção (embora quase ninguém espere que o processo passe da primeira). Mas, se for preciso ir a uma terceira volta, votará em Trump para “contribuir para a união do partido”, já que segundo as regras do seu estado fica livre para apoiar quem ele quiser.

Tauriainen não está preocupado com a convenção, os olhos já estão postos em Novembro, nas eleições gerais. “Acho que não vamos ver nenhum grande movimento para travar a nomeação de Trump na convenção. Ele tem o número de delegados necessário e ganhou de forma limpa. Depois da nomeação poderá não conseguir todas as alas do Partido Republicano, mas vai conseguir unir a maioria, sem dúvida.” Quanto a Novembro, na luta contra Hillary Clinton, o máximo que se arranca a este delegado do Alasca é um “veremos”.

Em passo de corrida, contra o tempo e o vento, seguia outro delegado, do “grande estado do Texas”. O típico chapéu texano estava com problemas em manter-se preso à cabeça, mas a camisa não enganava: toda ela era uma bandeira do Texas, azul de um lado com uma estrela branca, branca e encarnada do outro sem estrela alguma. Era difícil encontrar um estereótipo mais gritante, nem que mergulhássemos numa piscina para crianças cheia de estereótipos gritantes.

Isto ao longe, porque quando nos aproximamos descobrimos que demos de caras com Sichan Siv, um antigo refugiado cambodjano que chegou aos Estados Unidos em 1976, em fuga dos campos de morte do regime khmer vermelho. Como estava com pressa, resumiu os útlimos 40 anos da sua vida em duas frases e deixou um ignorante jornalista a salivar por mais perguntas: “Cheguei com dois dólares no bolso. Apanhei maçãs no Connecticut e conduzi um táxi em Nova Iorque e depois fui trabalhar para a Administração de George W. Bush e fui nomeado embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas.”

Já quase a correr, aceita contar um pouco mais da sua história, que culminou na nomeação para embaixador na ONU entre 2001 e 2005. “Depois de me ter naturalizado americano, em 1982, registei-me no Partido Republicano porque me revi na sua posição anti-comunista. Tinha acabado de escapar ao khmer vermelho e queria reconstruir a minha vida sozinho.” Já sem tempo para mais histórias de vida, acaba a dizer que, por ele, o nomeado seria Ted Cruz, mas vai apoiar o vencedor das primárias: “Os eleitores falaram e acho que as pessoas devem unir-se à volta do nomeado.”

Ainda menos entusiasmado com Donald Trump está Nathan Dahlin, vice-presidente da juventude do Partido Republicano no estado do Oregon. Ar cansado, que a viagem foi longa, e já depois de ter recusado a proposta de dois jornalistas para fingir que ia anunciar a nomeação de Donald Trump, “como se estivesse no palco”, Nathan Dahlin deixa que a multidão de crachás presos ao casaco preto falem por ele: Ted Cruz aqui, Ted Cruz ali, outro Ted Cruz mais acima, um Ted Cruz mais abaixo. Também há espaço para um “Bush/Cheney” e até um “Carly Fiorina”. O casaco de Dahlin apanhou uma infecção de Partido Republicano, mas de Donald Trump nem sinal.

“Acho que não há união suficiente à volta de Trump, porque ainda há muitas divisões no partido e ele não fez muito para ir ao encontro das pessoas que não o apoiaram”, diz o delegado do Oregon – um estado onde Donald Trump venceu com 49 pontos de vantagem sobre Ted Cruz. E em Novembro? “Estou inclinado a votar num candidato de outro partido, mas não em Hillary Clinton. Ainda não decidi em qual. Não estou confortável com a nomeação de Trump porque ele não tem feito nada para cativar os independentes.”

Três horas depois do início da convenção, e ainda sem sinal de Melania Trump, a banda continuava a tocar. Felizmente o vocalista aproveitava o nosso merecido descanso para bater o pé e apreciar um instrumental, apenas interrompido pelos gritos da delegação do Texas, de longe a mais rebelde.

Numa espécie de mini-revolta, alguns delegados exigiam que a convenção votasse as regras aprovadas pelo partido na semana passada, o que poderia dar alento ao movimento anti-Trump que está na plateia do pavilhão. Era uma jogada difícil de concretizar, mas se a proposta fosse aprovada, os delegados que são obrigados a apoiar Donald Trump numa primeira votação – mas que gostariam de ver outro candidato no seu lugar –, poderiam convencer mais delegados a alterarem uma das principais regras: libertar todas as delegações para votarem de acordo com a sua consciência, e não de acordo com os resultados das eleições primárias nos seus estados.