Mike Pence, a primeira concessão de Trump?

Na escolha do governador do Indiana para a vice-presidência prevaleceram os interesses do Partido Republicano, e não as preferências pessoais do milionário, habituado a fazer as coisas à sua maneira.

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O governador do Indiana, Mike Pence, é o candidato à vice-presidência REUTERS/Eduardo Munoz
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Na apresentação do "ticket" republicano, em Nova Iorque REUTERS/Eduardo Munoz

Agora que o movimento anti-Trump no interior do Partido Republicano está morto e enterrado, se é que alguma vez esteve suficientemente vivo para ser levado a sério, o magnata do imobiliário e antiga estrela da televisão pode dormir descansado em Cleveland, a cidade que acolhe a partir desta segunda-feira a convenção nacional do partido.

Sim, é verdade que ainda surge uma ou outra voz a dizer que há uma última hipótese para travar Trump na convenção, mas também é verdade que de hipótese em hipótese, desde o início das eleições primárias, o candidato acabou por conseguir unir uma boa parte do partido à sua volta, ainda que grandes nomes como os irmãos Bush, John McCain ou Mitt Romney, entre muitos outros, insistam em manter um cordão sanitário à volta do candidato do seu partido.

Depois de a comissão que define as regras para a convenção ter fechado quase todas as portas aos que tentaram travar a escolha de Donald Trump, pouco mais há a fazer do que esperar uma espécie de coroação – algo impensável há um ano e incerto há um par de meses, quando ainda se estudavam várias formas de impedir que o empresário milionário fosse a cara do Partido Republicano nas eleições para a Casa Branca, em Novembro.

E, até à semana passada, pode dizer-se que Trump fez tudo à sua maneira – a sua retórica divisiva, muitas vezes misógina, xenófoba e a roçar o racismo, deu dores de cabeça à sua própria família, que muitas vezes lhe recomendou mais contenção.

Mas tudo mudou com a sua escolha para candidato a vice-presidente. Ou melhor, muita coisa mudou com a escolha para candidato a vice-presidente que nunca poderia ser a sua, se Donald Trump fizesse questão de ser igual a ele próprio.

Em muitos aspectos, o governador do Indiana, Mike Pence, está tão próximo de Donald Trump como Tom e Jerry – em Dezembro do ano passado (dito de outra forma: há apenas sete meses), Pence escreveu no Twitter que “os apelos à proibição de entrada de muçulmanos nos Estados Unidos são ofensivos e inconstitucionais”. Não é preciso recordar que candidato do Partido Republicano propôs fechar a porta a todos os muçulmanos, em Dezembro do ano passado.

Em vários jornais norte-americanos, do New York Times ao Washington Post, conta-se a história de como Donald Trump foi finalmente convencido a fazer alguma coisa que não queria – escolher para candidato a vice-presidente um homem com quem nem sequer tinha falado antes da semana passada, tudo em nome de um sinal interno para o Partido Republicano. Habituado a premiar os mais fiéis, Trump terá insistido o mais que pôde em escolher Chris Christie, o governador de Nova Jérsia que chegou a ser ridicularizado por surgir atrás do magnata em comícios sem dizer nada, como que a esperar pacientemente pelo momento em que iria ser escolhido para o “ticket” republicano.

“Foi morte por humilhação. Lenta, retorcida e acompanhada em público, como uma eliminação num reality show”, disse ao New York Times Julie Roginsky, estratega do Partido Democrata e analista na Fox News. Foi como se Christie tivesse dado por tudo pelo seu patrão e acabasse despedido em directo no programa O Aprendiz.

Para além de Chris Christie, Trump deixou cair também Newt Gingrich, o antigo speaker da Câmara dos Representantes (entre 1995 e 1999), que disse aos jornalistas na sexta-feira que ainda esperava ouvir a escolha de Mike Pence pela boca de Donald Trump.

Por tudo isto, a escolha do governador do Indiana é talvez a primeira concessão que Donald Trump fez ao chamado establishment do Partido Republicano, num caminho que diz ser apenas influenciado por si mesmo e iluminado pelo seu “cérebro muito bom”. O actual speaker da Câmara dos Representantes, Paul Ryan – um homem que resistiu muito antes de finalmente apoiar a candidatura do milionário – disse mesmo que não conseguia pensar numa escolha melhor do que Mike Pence para acompanhar Donald Trump.

Antes de Bill Clinton ter escolhido Al Gore para seu candidato a vice-presidente, em 1992, era habitual que o número dois surgisse no “ticket” depois de um acordo para pacificar o partido, o que muitas vezes resultou em convivências difíceis em várias Administrações – o nomeado acabava por ter de escolher o segundo mais votado nas primárias, e nem sempre a equipa funcionava bem. Depois de uma campanha em que se distinguiu precisamente por fazer tudo ao contrário do que os especialistas esperavam, muitos acreditavam que Donald Trump fosse manter o seu caminho e escolher alguém com quem já tivesse uma boa relação, ou com quem pudesse vir a construí-la; não alguém que estaria no cargo como se fosse um rebuçado para a ala mais tradicional do Partido Republicano.

Mas Mike Pence não poderia estar mais distante de Donald Trump, apesar de tudo o que um possa dizer do outro a partir de agora. Para além de se ter manifestado contra a proibição da entrada de muçulmanos proposta por Donald Trump, Pence é muito diferente do seu candidato a Presidente dos EUA em muitos outros aspectos. É profundamente religioso, ao contrário de Trump, que lutou várias vezes na campanha para dar exemplos de uma passagem preferida da Bíblia e que se referiu à comunhão como o momento em que vai beber o seu “vinhinho” e comer a sua “bolachinha”.

Para Mike Pence, a vida não tem significado sem a religião, e as suas prioridades são explicadas numa frase que repete vezes sem conta desde a década de 1990, quando tinha um programa de rádio: “Sou cristão, conservador e republicano – por esta ordem.”

Como conhecido opositor do casamento gay e do aborto, a escolha de Mike Pence é uma concessão à ala do Partido Republicano mais conservadora em termos sociais, que está indecisa por ver em Donald Trump um convertido de última hora – Trump tem um discurso divisivo, ofende outros candidatos com alcunhas como “Pequeno Marco”, “Ted Mentiroso” ou “Hillary Desonesta” e já fez declarações que chocaram milhões de pessoas em todo o mundo.

Pence tem um estilo completamente diferente – fala com calma, não levanta a voz e diz que ainda hoje se arrepende de um dia ter feito uma campanha negativa. Numa entrevista conjunta ao programa “60 Minutes”, que foi transmitida ontem à noite, Pence precisou da ajuda de Trump para responder a uma pergunta sobre essas diferenças: “Nós somos pessoas diferenças. Eu sei isso. Vou dar um exemplo: Hillary Clinton é uma mentirosa”, disse Trump.

Mas o magnata nunca teve completamente do seu lado a ala do Partido Republicano mais conservadora em termos sociais, e é isso que os seus conselheiros esperam receber de Mike Pence. Isso e o seu estado do Indiana nas eleições gerais, em Novembro.