Kendrick Lamar apoteótico no Super Bock Super Rock

Lotação esgotada no último dia do festival Super Bock Super Rock, numa noite em que De La Soul, Orelha Negra, Capicua ou o fantasma de Prince também estiveram presentes.

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Kendrick Lamar: “Adoro-vos! Hei-de voltar!” DR
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O público gritou as letras de Kendrick Lamar de uma ponta à outra DR
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Kendrick Lamar foi recebido em apoteose em Lisboa DR
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Francisco Rebelo dos Orelha Negra DR
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De La Soul DR
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Fred Ferreira dos Orelha Negra DR
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Sam The Kid esteve na Meo Arena com o colectivo Orelha Negra DR
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Os GNR tocaram na íntegra o clássico Psicopátria DR
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Capicua continua a dar voz aos direitos das mulheres DR
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Samuel Úria a interpretar "Kiss" de Prince DR
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Houve lotação esgotada no derradeiro dia do Super Bock Super Rock DR

Uma extraordinária demonstração de força. Numa frase, foi isso o concerto do rapper americano Kendrick Lamar na noite de sábado, no Meo Arena de Lisboa, último dia do festival Super Bock Super Rock.

Os mais atentos ao fenómeno da música intuíam que iria ser assim. Mas o público mais casuístico é capaz de ter ficado surpreso. Não tanto pelo que se passou em palco, mas pelo que aconteceu na plateia e nas bancadas que lotaram o espaço, numa comunhão apoteótica que não é muito comum.

Saltou-se, agitaram-se braços e gritaram-se com convicção as letras de uma ponta à outra. É verdade que antes de Kendrick e a sua banda entrarem em palco já o ambiente estava ao rubro com cânticos futebolísticos no ar. Mas o que se passou depois, com uma mole humana miscigenada e em total delírio, como é raro ver em Portugal, pede meças à imaginação.

Há dois anos, no Nos Primavera Sound do Porto, já tinha mostrado ao que vinha, com um concerto exaltante. Mas ainda não lançara o álbum To Pimp a Butterfly (2015) que cimentaria a sua posição como uma das forças mais poderosas do cenário musical dos últimos anos.

Dir-se-ia que na noite de sábado tudo se conjugou. O seu impacto, a fama e também a disponibilidade do público. Às tantas, ele, que se tornou numa das vozes de consciência política nos Estados Unidos, atirou que o mundo estava a viver um momento estranho, numa alusão velada aos inúmeros conflitos das últimas semanas, e que por isso agradecia aquela celebração. Mas não foi festejo lúdico. Foi catarse. Libertação. Purificação.

Em palco, Kendrick, sério, compenetrado, focado. Na plateia, em troca, uma intensidade rara. A dominar o cenário, uma frase, assinada pelo mago do funk George Clinton: “Look both ways before you cross my mind”. Clinton, como Gil Scott-Heron, Sly Stone, Jimi Hendrix ou Marvin Gaye, enfim, figuras de sempre da soul, do funk ou da palavra feita poesia e política, estão muito presentes no último álbum de Kendrick, obra de homenagem e superação da música negra. E isso esteve patente no espaço, com uma banda (bateria, baixo, guitarra e teclados) que alia o dinamismo sincopado do hip-hop à vibração corpórea do funk, com notas jazzísticas pelo meio e, por vezes, algum envolvimento soul.

Mas o que agarra é o ritmo imparável do concerto, com temas como Backseat freestyle, The art of peer pressure, Swimming pools ou Hood politics a serem arremessadas ao público que as recebe e envolve em delírio, cantando a plenos pulmões Bitch, don’t kill my vibe ou m.A.A.d city, com a base sonora opulenta a mover-se em câmara lenta, perante uma massa que salta ao mesmo tempo. Por vezes Kendrick pára. Quer ouvir o público. E aí trocam-se juras de amor entre palco e plateia.

Em For free, a sua banda e ele próprio mostram a agilidade instrumental e vocal que os caracteriza, num momento de exuberância para voz guiada por uma sonoridade jazzística, enquanto em Alright – já depois de terem regressado para o encore – palco e plateia voltam a ser um só. Antes de sair de cena ainda tem tempo para lançar: “Adoro-vos! Hei-de voltar!”. Alguém duvida?

Kendrick Lamar, por si só, foi a grande atracção da última noite de um festival onde, nos dois dias anteriores, já tinham vingado The National, Kurt Vile, Massive Attack ou Iggy Pop. Mas é justo dizer-se que o sábado foi também noite de triunfo para a cultura hip-hop, e tudo à volta, nem sempre compreendida quando se pensa em eventos de massas em Portugal.

Os portugueses Orelha Negra e os americanos De La Soul não se podem queixar, tendo actuado também no Meo Arena para uma plateia mais do que saciada. Os primeiros tocaram alguns temas novos, a integrar o terceiro álbum que será lançado este ano, e expuseram faixas menos recentes, todas elas marcadas por inúmeras alusões (à história da soul, do funk ou do hip-hop americano, ao quotidiano e à música feita em Portugal, nomeadamente aos Mind Da Gap), recriadas numa sonoridade que tem tanto de balanceamento físico como de nervo e eficácia. Em palco, dispostos lado a lado, sem hierarquias, são quase sempre uma máquina de ritmo exemplar. E mais uma vez foi isso que aconteceu.

Quem também agarrou o público foram os De La Soul, apesar de a qualidade do som não ter ajudado à festa. Eles que com o histórico álbum Three Feet High and Rising (1989) definiram uma nova forma de estar no hip-hop à época – mais jovial, lúdica e recreativa – fazem hoje por perpetuar esse legado. Não existem propriamente grandes novidades naquilo que têm para apresentar, com um DJ e dois cantores-declamadores em interacção, mas o que fazem é realizado com empenho e alguma exuberância, numa actuação em que misturam canções do passado (Me, myself and I, Saturday ou Ring ring ring) e do presente, desafiando com bonomia a assistência a competir com braços e vozes ao alto.

Esse constante desafiar à participação popular foi também patente no espectáculo de Capicua, acompanhada pelo DJ D-One, pela MC M7 (Beatriz Gosta) e por um ilustrador que desenhava em tempo real. Medo do medo, com ela a concluir que “eles têm medo que um dia não tenhamos medo”, ou Maria capaz, com mais quatro cantoras-declamadoras em palco, como Blaya (Buraka Som Sistema), foram alguns dos momentos-chave de um concerto em crescendo, em que o hip-hop andou sempre a par da realidade social e política. “A liberdade não é uma coisa que se festeja apenas no 25 de Abril, mas sim uma conquista quotidiana”, disse antes de o concerto terminar em júbilo com Vayorken

Com concertos a decorrer em simultâneo existe sempre quem seja mais lesado. Aconteceu com o espectáculo de homenagem a Prince concebido por Moulinex e também com a apresentação integral de Psicopátria dos GNR. No primeiro caso, e do que vimos, apesar dos problemas técnicos iniciais, a experiência merece ser repetida. Não só as canções de Prince são recriadas com imaginação como a banda e os convidados (Da Chick, Selma Uamusse, Samuel Úria, Marta Ren ou Best Youth) revelam um genuíno entusiamo por um projecto que não receia o confronto com algumas das canções mais icónicas da música popular das últimas décadas. Afinal, não é todos os dias que se vê Samuel Úria a recriar Kiss, apenas com recurso a voz e guitarra, numa versão ainda mais descarnada do que a original.

Os GNR não estavam no seu elemento, com um público maioritariamente adolescente e mais afecto a outras famílias musicais que não propriamente à sua pós-pop de 1986. Mas até por isso – e do que vimos – o concerto acabou por ser refrescante, com o grupo a abordar esse álbum dos anos 1980 e depois outras canções do seu vasto repertório. Os GNR não tiveram uma multidão à sua volta, mas quem ficou mostrou entusiasmo por Reininho reescrever ironicamente detalhes das letras de canções como Choque frontal, Nova gente, Efectivamente ou Vídeo maria, que mantêm a vitalidade de sempre.

Às tantas Reininho aludiu ao facto de a esmagadora maioria dos que estavam presentes no festival estar à espera de Kendrick Lamar. É verdade. Na noite quente de sábado, o americano foi o elo mais escaldante do Super Bock Super Rock. Ele e as 20 mil pessoas que com ele celebraram apoteoticamente o poder de transcendência da música.