A genialidade de Mark Cavendish está no cérebro

Um dos melhores sprinters de sempre, o britânico esconde, debaixo da pele de bad boy que o notabilizou, uma faceta invulgar. Dono de uma memória fotográfica, vê o que os outros não vêem. “Para mim, é como um cálculo”, descreve.

Fotogaleria
Ed Sykes/Reuters
Cavendish, à direita, a exercitar o cérebro antes da etapa
Fotogaleria
Cavendish, à direita, a exercitar o cérebro antes da etapa Jeff Pachoud/AFP
Fotogaleria
Ao centro, na ponta final do sprint que lhe valeu o triunfo na 6.ª etapa deste Tour Jeff Pachoud/AFP

Mark Cavendish que nos perdoe o preconceito, mas diante do seu jeito brusco, do estilo irascível e emocional, do carácter incendiário — já o vimos dar cabeçadas em sprints, ser desclassificado por comportamentos “idiotas”, insultar jornalistas —, nunca pensámos estar diante de um génio. “A última vez que fiz um teste de QI era-o”, confessou, em Novembro de 2013 ao The Telegraph, o diário responsável por revelar o lado desconhecido do segundo ciclista mais vitorioso de sempre no Tour.

O cérebro do explosivo ciclista da Ilha de Man é um lugar especial. “Se eu fizer um circuito, depois de três voltas sei dizer onde estão todos os buracos”. O agora ciclista da Dimension Data, de 31 anos, não conhece a origem da sua extraordinária memória fotográfica, mas sabe apontar o momento em que esta se converteu num aliado natural para a sua brilhante carreira.

Com apenas 18 anos, o miúdo, que se iniciou no ciclismo aos três anos e começou a competir aos 11, apresentou-se em Manchester para integrar a academia britânica de ciclismo. Feitas as apresentações da praxe, o treinador Rod Ellingworth pediu-lhe para contar a sua jornada desde Man. O que aconteceu de seguida deixou-o atordoado: Cavendish descreveu a viagem com detalhes tão precisos, quanto surpreendentes, como as povoações que atravessou e a que horas o fez ou os números das portas.

Ellingworth percebeu, de imediato, que à sua frente estava um sobredotado. Ao longo dos anos, nas suas passagens pela T-Mobile (2006), Team Columbia (representou a equipa alemã nas suas várias versões até 2011), Sky (2012), QuickStep (2013-2015), também Cavendish compreendeu que poderia usar o cérebro em benefício da força. Mais baixo (tem 1,75 metros) e menos possante (pesa 70 kg) do que os rivais — basta olhar para os alemães Marcel Kittel ou André Greipel para notar a diferença —, superou a desvantagem genética com a capacidade de analisar em slow motion os metros finais de um sprint.

“Para mim, é como um cálculo, uma série de movimentos, uma sucessão de jogadas de xadrez. Não ter de pensar. Reagir simplesmente. No momento em que começamos a sprintar, o meu batimento cardíaco é, provavelmente, 20 ou 30 batidas mais lento do que o dos outros tipos. Há tantos ciclistas que treinam o corpo e não treinam a mente”. Para maximizar as suas oportunidades, insiste em actividades — o seu iPad está repleto de puzzles, sudoku, hanidoku — que potenciem a velocidade do cérebro. “Num sprint, tomas 100 decisões por minuto. ‘E se X acontece agora e Y acontece depois?’. ‘Devo seguir esta roda ou a outra?’. Tens de ser esperto. Com o tempo, torna-se um instinto. Alguns ciclistas gritam. Eu sou frio, clínico”.

Meticuloso e perfeccionista, prepara cada etapa com precisão forense, recorrendo ao GoogleMaps para analisar o estado e a superfície das estradas e às imagens televisivas de helicóptero para conhecer a táctica das equipas rivais. “Tenho sempre de ganhar. Era o mesmo na escola: tinha de ser o melhor em cada ditado”.

No entanto, é na análise imediata que “Cav” é superior a todos os outros. Aconteceu ontem, quando deixou Kittel sozinho na frente contra o vento, protegendo-se na roda do alemão e beneficiando do seu desgaste para conquistar a 30.ª vitória em etapas no Tour. Aconteceu em 2011, nos Mundiais de Copenhaga, quando sentiu o vento soprar para a esquerda e se desviou para a direita, ciente de que acabaria por acontecer um corte no pelotão — o decifrar do enigma valeu-lhe então o título de campeão do Mundo.

Considerado um dos melhores sprinters de sempre — tem 141 vitórias no currículo, 48 das quais em grandes Voltas (tem 15 no Giro e três na Vuelta e pertence a uma restrita elite de homens que conquistaram a camisola da regularidade em todas elas), além de títulos mundiais na pista —, o ciclista da Dimension Data é ele próprio um puzzle. Especialista em danças latinas — ganhou o campeonato da Ilha de Man e competiu nos nacionais —, este Membro da Ordem do Império britânico tem demonstrado neste Tour ser um pai dedicado e um marido apaixonado, uma imagem cimentada pela sua pacífica vida na Toscana, que contrasta e muito com a postura de bad boy que o notabilizou. “Sempre fui passional e muito directo, porque amo o que faço. Quando comecei no ciclismo, era um miúdo. Talvez, em algumas ocasiões, tenha falado demais, mas agora tenho 30 anos, não 20”.

A viver uma segunda vida nos sprints, Cavendish tem usado o seu cérebro como nunca e promete não ficar por aqui. Afinal, a 24 de Julho, há uma chegada aos Campos Elísios, onde, em 2012, se tornou o primeiro a vencer em quatro anos seguidos.