Crítica

Tempos negros

Na tradição das grandes distopias do século XX, Kallocaína mostra que a concepção de ditadura pode ser algo inerente à consciência individual.

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Uma personalidade destemida da literatura escandinava

A sueca Karin Boye (1900-1941), que à época se destacou sobretudo pela poesia que escreveu, foi uma das personalidades mais destemidas (e inovadoras) da literatura escandinava da primeira metade do século XX. Foi fundadora de uma revista de vanguarda, Spektrum”– responsável pela primeira tradução para sueco de T. S. Eliot e de autores surrealistas – e membro de um movimento político importante, Clarté, de orientação socialista e antifascista. Comprometida social e politicamente ela viveu as inquietudes do seu tempo: em 1928 visitou a União Soviética de Estaline, e em 1932 a Alemanha de Hitler.

Entre as cinco obras narrativas de Boye, destaca-se este Kallocaína (em subtítulo, Romance do século XXI), escrito em 1940, inscreve-se na tradição das grandes distopias que tiveram o seu apogeu nos anos centrais do século XX. Publicado poucos anos depois de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Kallocaína é um predecessor de 1984, de George Orwell, e de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Karin Boye descreve um futuro cinzento, totalitário e desumanizado, num mundo dominado por um Estado policial que suprime toda a forma de liberdade, invadindo mesmo a esfera íntima dos cidadãos (os “consoldados”), ao mesmo tempo que os converte em “máquinas humanas” com as funções de se reproduzirem, obedecerem e não sentirem: “Antigamente, as nossas noites possuíam o esplendor de uma gala festiva, na qual nós éramos nada menos que dois oficiantes conscientes e devotados de um rito solene a que assistia o Estado em pessoa.” O Estado é omnipotente e ubíquo e controla todos os movimentos de qualquer cidadão; tudo está submetido aos seus desígnios. Atendendo à época em que foi escrito, parece quase óbvio que Karin Boye se tenha inspirado no apogeu do nacional-socialismo na Alemanha: “(…) o rufar dos tambores, os discursos, a multidão festiva, o aplauso unânime, tudo criava no salão um grande êxtase em uníssono, como era habitual e desejável”.

Kallocaína é o nome de uma substância química, uma espécie de “soro da verdade”, inventada pelo protagonista, o investigador Leo Kall (que vive e trabalha na “Cidade Química nº4”) para garantir ao Estado mais segurança, uma invenção que será um benefício para todos – “para garantir a segurança de todos nós, a segurança do Estado”, diz a personagem. E acrescenta: “A partir de agora, nenhum criminoso poderá negar a verdade. Nem mesmo os nossos pensamentos mais íntimos nos pertencem, como durante tanto tempo pensámos, sem ter esse direito.” Mas a utilização da kallocaína acaba por escapar aos propósitos iniciais e os seus efeitos são demolidores. Leo Kall é um indivíduo absorvido pelo sistema, mas que aos poucos se vai começar a questionar, e assiste horrorizado ao surgir no seu espírito, de maneira gradual, uma consciência individual e autónoma, ele que sempre foi um “consoldado” do Estado sem sentimentos pessoais por os achar anti-sociais. Dentro do género das distopias, um dos aspectos que faz deste livro um romance singular é a concepção de ditadura ser apresentada como algo inerente à consciência individual – o que de certa forma justifica a “alegria” inicial e a subserviência das massas que a autora presenciou na União Soviética e na Alemanha. Karin Boye consegue fazê-lo bem ao longo de Kallocaína, friamente e sem mostrar necessidade de  emprestar à narrativa qualquer traço evidente de ironia. O protagonista está convencido da necessidade de um Estado que proceda como vigilante; ele é um cidadão satisfeito com a vida que esse Estado lhe proporciona, sem nada para esconder, trabalhador leal que considera ser aquela situação em que vive a melhor possível. Assim pensa a personagem: “Dos pensamentos e sentimentos nascem palavras e acções. Assim sendo, como poderiam os pensamentos e os sentimentos ser um assunto privado? O consoldado não pertence por completo ao Estado? Então a quem deveriam pertencer os seus pensamentos e sentimentos, se não, também eles, ao Estado?”

Enquanto nas outras distopias publicadas mais ou menos pela mesma altura, há pela parte das personagens uma ardilosa busca de liberdade devido a insatisfação sentida pela privação da liberdade individual que é sufocada pelo totalitarismo, em Kallocaína a alteração do modo de pensar do protagonista dá-se de maneira subtil e é provocada pelo facto de testemunhar acontecimentos que o incomodam, embora quase ao de leve. Karin Boye construiu magistralmente uma personagem lúcida que de maneira subtil se metamorfoseia diante do leitor.