As misérias partilháveis dos National e a bonita sujidade de Kurt Vile

No Super Bock Super Rock, uma noite para os National mostrarem a sua tarimba de banda de massas e Kurt Vile deixar claro que muitas cabeças podem existir num só corpo. O refrão mais ouvido, ainda assim, foi um cântico dos futebóis.

Fotogaleria
Os National de Matt Berninger: da auto-comiseração em privado para o miserabilismo de estádio DR
Fotogaleria
Matt Berninger, o vocalista dos National DR
Fotogaleria
Kurt Vile: filho de Dylan, postal da América cujo charme é a ausência de charme DR
Fotogaleria
Kurt Vile DR
Fotogaleria
Benjamim, música em português com febre africana DR
Fotogaleria
Disclosure DR
Fotogaleria
Disclosure DR
Fotogaleria
O Meo Arena, o palco principal do Super Bock Super Rock DR

Os dois Disclosure deveriam estar em palco há uns 15 minutos. Já tinham puxado o numeroso público para dentro do seu house cançonetista, arrancando com White noise, a sua colaboração de boa memória com os AlunaGeorge, quando uma súbita falha técnica obrigou a uma interrupção. Retiraram-se de palco, rapidamente foi colocada música no PA que prolongava o ambiente festivo instalado no Meo Arena e logo se ouviu o refrão mais escutado nas bocas do povo na primeira noite do Super Bock Super Rock (SBSR) deste ano. Um cântico futebolístico que tanto podia ser entoado como “e quem não salta é francês” ou “e o campeão é Portugal”. A variação mais popular e mais repetida noite fora, no entanto, a que se ouviu naquele momento no Meo Arena, seguia uma linha um pouco mais hooliganesca: “e foi o Éder que os fodeu”.

A euforia pós-vitória de Portugal no Europeu de Futebol fez-se, portanto, sentir com estrondo no dia inaugural deste SBSR e era já visível ao início de uma tarde especialmente quente, quando várias bandeiras portuguesas ornamentavam as costas de muitos dos que se passeavam pelo recinto. Sem surpresa, o facto foi também compreendido pelos músicos como gancho certeiro para ganhar o público para o seu lado. Bastou que Disclosure ou The National dessem em palco os parabéns aos portugueses para que concertos que já gozavam de uma aura de sessão de comunhão colectiva subissem para um outro patamar. Preciosa ajuda suplementar numa noite em que ficámos à míngua de concertos memoráveis.

No caso dos Disclosure, o concerto pareceu obedecer à ideia tão simples quanto eficaz de montar na Meo Arena uma enorme discoteca. Resultou, serviu o propósito, mas discotecas há muitas. Para os National, tratou-se sobretudo de uma noite de consagração de uma banda que foi alargando o culto até ao ponto de parecer fadada para esta sua pele de cabeça-de-cartaz, diante de uma considerável multidão. Mesmo a nível sonoro, há qualquer coisa de rastilho épico que os aproxima dos U2, a mais talhada das bandas para ter hordas de gente a seus pés. Bloodbuzz Ohio, um dos primeiros temas da noite, evidencia isso mesmo – basta olhar em redor para os incontáveis telemóveis virados na direcção do palco e o apreciável número de ocorrências de gente na assistência a tocar emocionadamente uma bateria fantasma.

O que é de facto estranho é que estas canções encimadas pela voz lamuriosa de Matt Berninger, seguidor da melhor escola de Stuart Staples e inaugurada pelo mestre Ian Curtis, estas canções que o colocam em palco confessando ter medo de toda a gente e faltarem drogas para domar esse medo (Afraid of everyone), admitindo a sua absoluta fragilidade (I need my girl) e a mais devastada dependência (This is the last time), possam ter sido promovidas de auto-comiseração íntima para um certo miserabilismo de estádio. E Berninger encarna esse desconforto de quem passou anos a escrever entradas diarísticas desconsoladas e, de repente, se vê na situação de ter de as ler em voz alta diante de multidões. O certo é que a aclamação desde o primeiro segundo de concerto, o banho de público a que o vocalista se submete no final e o amor palpável jurado a pés juntos pelo público não deixam dúvidas de que isto funciona.

Lá fora, diante do Meo Arena, Samuel Úria vai em simultâneo, e fortemente prejudicado pela sobreposição com os National, desenleando um concerto em que se apresenta como campeão europeu e em que cita Fernando Santos para justificar a máxima de “em equipa que ganha não se mexe” para desembainhar Ninivitas, canção já apresentada num outro SBSR e que transforma em punk a boa herança de António Variações. Em palco, no entanto, havia mais do que uma equipa de futebol – graças a um coro assinalável – a ajudar Samuel Úria na partilha da sua bela apropriação da tradição blues/folk/rock norte-americana nos belíssimos exemplares Ei-lo, Carga de ombro, Repressão ou Lenço enxuto. Merecia um palco e um horário com outra visibilidade.

Estrela de várias cabeças

É difícil perceber uma única palavra saída da boca de Kurt Vile. A sua voz nasalada, tão bem aprendida com Bob Dylan, o som cheio de uma distorção desmazelada que suja tudo à volta e aquela maneira de cantar e falar como se estivesse em frente ao espelho não impedem, no entanto, que as suas canções convoquem de forma desarmante e sem esforço os grandes heróis da canção popular norte-americana. Vile parece estar sempre a fazer canções “à moda” de Dylan, Neil Young, Bruce Springsteen ou Lou Reed, numa torrencial citação de toda a matriz que interessa reter e preservar do cancioneiro folk-rock daquele lado do Atlântico. Dir-se-ia uma estrela de freak show, tantas são as cabeças que reúne no seu corpo, mas há algo magnético nisto que supera qualquer vestígio de aberração. É demasiado real para ser transcendente.

E é demasiado evidente a honestidade do gesto quando se transforma na primeira estrela de quinta-feira, noite inaugural deste SBSR, levando o público junto do Pavilhão de Portugal ao delírio nos primeiros segundos de Pretty pimpin, Jesus fever ou Downbound train. Vile, que é mais filho de Dylan do que dos outros porque o é também nas verborreicas narrações que despeja para dentro de cada canção, é um postal ilustrado de uma América cujo charme é a ausência de charme. Exactamente o contrário dos Lucius, música movida a percussão para duas vozes femininas plenas de sacarina e roupas a condizer. São desmesuradamente pop, tão girl group dos anos 60 quanto Stevie Nicks dos anos 80, tão country-pop quanto rés-vés Festival da Canção. Gente com piada suficiente para voltar a ser ouvida noutras condições.

A representação portuguesa esteve quase por inteiro concentrada nos suores de final de tarde, numa altura em que os atrasos nos dois palcos em acção não facilitavam a vida a quem gosta de depenicar um bocadinho aqui e ali em dias de festival. Ainda assim, conseguimos vislumbrar a música aquosa que vai saindo de Débora Umbelino – em palco dá pelo nome Surma – ou intuir o quanto de pop de linhagem adolescente americana existe na música de Alek Rein, personagem inventada por Alexandre Rendeiro que tem o seu quê de Pavement e um pouco do Elvis Costello inicial, como quem pegando na folk e no rock batidos se dedicasse a criar-lhes arestas, uma busca por atrito em géneros que se diriam pacificados.

Ora atrito é precisamente o que não falta aos Peixe:Avião que, tal como Alek Rein, foram chamados ao palco programado pela Antena 3 para passar em revista Peso Morto – e pontas soltas do seu álbum gémeo Peixe:Avião. Em palco, como vem sendo habitual no grupo bracarense, o seu rock cada vez mais sintetizado e devedor de passada alemã (o imperturbável andamento do kraut) é atirado para extremos de saturação sonora que só reforçam a urgência e a tensão de uma música em que a voz parece, em cada momento, um fio de luz que rasga uma quase insuportável escuridão.

Benjamim, que os precedeu em palco, caminharia no sentido contrário. Se há muito que sabemos que Luís Nunes é um dos maiores inventores de música pop em Portugal, a sua transição para o português e o abandono da designação Walter Benjamin abriram portas a uma tomada de assalto da sua música por uma muito saudável febre africana. A música de Benjamim foi colonizada, deixou de se guiar apenas por gente mui respeitável como Eels ou Beck, engrandeceu, fez-se adulta e até já tem direito a Volkswagen – a canção que homenageia o carro do músico, por estes dias tristemente na oficina.

Já a altas horas, a primeira noite de SBSR encerraria com DJ Shadow e Riot na Sala Tejo, depois de os colombianos Bomba Estéreo fazerem da cumbia uma sonoridade psicadélica e objecto de uma imparável chinfrineira. Se em disco ainda se lhes detecta alguma meiguice, em palco o quarteto de Bogotá faz de cada música um disparo de fogosidade, de uma tal pontaria que nos resistentes não se vê ponta de cansaço. O SBSR prossegue esta sexta-feira com Iggy Pop, Massive Attack e Bloc Party, e termina no sábado com Kendrick Lamar, GNR e De La Soul.