Ataque em Nice: “Estão a dizer-nos para nos fecharmos em casa. Eu não quero sair”

Há 77 mortos confirmados, vítimas de um camião que foi conduzido contra uma multidão que celebrava o Dia da Bastilha. Emigrante português estava no local e descreve o que viu. Hollande prolonga estado de emergência por mais três meses e diz que "não se pode negar o carácter terrorista deste ataque".

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Jean-Pierre Amet/Reuters
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Há soldados a fazer a segurança nas ruas de Nice Eric Gaillard/REUTERS
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Nem 30, nem 60, nem os mais de 80 de que se chegou a falar. Segundo o Presidente francês, François Hollande, há 77 mortos confirmados, incluindo crianças, até às 3h (hora portuguesa). Porém, poucos minutos depois de Hollande se dirigir à nação, a AFP citava um ministro francês não identificado, afirmando que há 80 mortos e 18 feridos em estado muito grave.

Um balanço trágico provocado por um camião que avançou contra a multidão no Passeio dos Ingleses em Nice, enquanto festejavam, numa zona muito turística, o dia nacional de França. Há ainda pelo menos meia centena de feridos em estado muito grave, no que as autoridades estão a classificar como um atentado. Tinha-se juntado muita gente ali, para assistir ao espectáculo de fogo-de-artifício e festejar o feriado nacional do 14 de Julho, Dia da Bastilha.

"O camião rolou sobre a multidão durante uma longa distância, o que explica este número tão grande vítimas", disse à televisão BMF Sebastien Humbert, prefeito para a região dos Alpes Marítimos. O camião percorreu o Passeio dos Ingleses a alta velocidade durante 100 metros antes de se lançar contra a multidão, onde arrastou tudo à frente durante cerca de dois quilómetros.

“Foi um pesadelo. Era uma noite de festa”, diz ao PÚBLICO Miguel Cunha, natural de Paredes de Coura e a viver em Nice há quatro anos, contando que tudo aconteceu depois do fogo-de-artifício. O fisioterapeuta de 28 anos estava no Passeio dos Ingleses. Estava do lado onde o camião apareceu. Escapou por ter atravessado a estrada minutos antes para se encontrar com uns amigos (quatro portugueses e dois espanhóis).

Na madrugada desta sexta-feira, após se reunir com o gabinete de crise, em Paris, o Presidente francês sublinhou o “carácter terrorista” do atentado perpetrado em Nice. "O carácter terrorista não pode ser negado", sustentou. François Hollande carregou nas palavras e qualificou este acto como uma “monstruosidade”, uma “violência absoluta” cometida num dia simbólico para os franceses, o feriado nacional de 14 de Julho, “dia da liberdade”. Entre as vítimas mortais, há também várias crianças, enfatizou o Presidente.

Com o autor do ataque – que conduziu um camião contra uma multidão no Passeio dos Ingleses – ainda por identificar, Hollande disse: “Fica claro que devemos fazer tudo para lutar contra o terrorismo.” “A França está enlutada, perturbada, mas é forte e será sempre mais forte do que os fanáticos”, declarou Hollande, depois de informar que o estado de emergência se irá prolongar por mais três meses, até Outubro. A França “vai recorrer a todos os meios” para travar novos ataques. E apelou à mobilização dos militares na reserva, garantindo ainda que vai intensificar a acção francesa na Síria e no Iraque.

"Pareciam moscas a voar"

Ao PÚBLICO Miguel Cunha relatou o que viveu. “Quando nos estávamos a encontrar, olho para o outro lado e só vejo pessoas a voar”, conta o português, ainda em choque. “Pareciam moscas a voar. Foi horrível. A rua estava cheia de pessoas, de famílias. Toda a gente tinha saído, havia concertos”, continua, explicando ter visto o camião parar “uns 30 metros à frente”, antes de se terem ouvido tiros. “Não foram os tiros que o pararam, ele parou antes. Deve ter tido algum problema. Ainda vi uma pessoa a tentar subir ao camião para puxar o homem para fora.”

O camião, conta o emigrante, já vinha a atropelar pessoas desde trás. “Dizem que vinha em ziguezague para chegar a mais pessoas, mas nos últimos 30 metros, o que eu vi, ele já vinha em linha recta e a abrandar. Não devia vir a mais de 50 km/h.” Uma fonte policial citada pela AFP declarou, cerca das 2h20 (hora portuguesa), que dentro do veículo foram encontrados documentos em nome de um cidadão franco-tunisino. A identificação ainda está em curso, acrescenta a mesma fonte, mas, segundo os documentos em causa, o condutor poderá ser um cidadão francês de 31 anos, de origem tunisina e morador naquela cidade do Sul de França.

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Eric Gaillard/Reuters

A prefeitura está a tratar o caso como um ataque terrorista e aconselha os habitantes a ficar em casa. O local onde se deram estes acontecimentos é um ponto altamente turístico desta cidade do Sul de França. Houve uma troca de tiros e o condutor do camião foi abatido, após ter saído do veículo a disparar, avança a prefeitura. O camião parece estar crivado de balas, dizem os vários media franceses. Dentro do camião foram encontradas armas, diz o Le Figaro, espingardas e granadas.

Miguel Cunha lembra que, tendo em conta os últimos ataques em França, a presença de militares na rua é constante e que por isso a resposta não tardou. Os tiros que se ouviram na rua foram disparados pela polícia e os militares.

O atentado ocorreu perto do Hotel Negresco e a polícia impôs um significativo perímetro de segurança, noticia a AFP. Há muitos polícias, militares e ambulâncias a circular, relata o jornal Le Figaro. "Foi o caos absoluto", descreveu um jornalista da AFP que estava presente no local no momento da investida do camião sobre a multidão. "Vimos gente atingida por estilhaços que voavam por todo o lado, ouvíamos pessoas a gritar. Tive de proteger a cara dos destroços."

“O camião ficou todo cravejado. Na confusão, eu fugi para o casino”, para onde fugiram tantas outras pessoas, conta Miguel Cunha. Lá dentro, temeu-se pela segurança. “Pensámos que poderia haver algum terrorista e voltámos a fugir. Eu saí pela porta de emergência dos fundos e perdi-me dos meus amigos”, diz. “Ainda tenho uma amiga portuguesa que está presa no casino, não a deixam sair”, acrescenta, já em casa, explicando ter seguido as ordens das autoridades que pediram às pessoas que fugissem para casa. “E agora estão a dizer-nos para nos fecharmos em casa. Eu não quero sair.”

No entanto, Miguel Cunha sabe que amanhã é outro dia e o medo não poderá vencer. “A vida continua. Vai ser difícil, mas vou sair de casa e vou trabalhar”, afirma. A não ser que receba indicações contrárias. “Vamos ver o que vai acontecer. Por exemplo, amanhã [sexta-feira] há um concerto de Rihanna no estádio”, refere, ao mesmo tempo que vai relatando as novidades que vai ouvindo na televisão. “Não consigo dormir, só penso que não era a minha hora.”

O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, esteve ainda durante a noite em Nice. O Presidente francês, que estava no Festival de Teatro de Avignon, regressou a Paris, para se juntar à célula de crise, no Ministério do Interior. Este ataque ocorre quando François Hollande acabara de anunciar que o estado de emergência, que vigora desde desde os atentados de Paris, em Novembro do ano passado, ia ser levantado a partir de 26 de Julho.

Não há reivindicação do atentado, mas, diz Romain Caillet, investigador do jihadismo, na Internet os extremistas felicitam-se por ter acontecido, refere o Libération.

A "total solidariedade" da comunidade internacional

O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, enviou uma mensagem de condolências ao seu homólogo francês. Segundo fonte oficial de Belém, citada pela Lusa e não identificada, Marcelo enviou a François Hollande “um telegrama de condolências e ao mesmo tempo de solidariedade pelo bárbaro atentado acabado de cometer em Nice, exprimindo o pesar de todos os portugueses ao Presidente francês".

Na mensagem, citada pela Lusa, o Presidente afirma que "foi com grande consternação" que recebeu a notícia "do hediondo atentado ocorrido esta noite em Nice, que teve lugar, para mais, num dia tão especial para França" – o feriado nacional em que se evoca a Tomada da Bastilha, que marcou o início da Revolução Francesa, em 1789. "Os meus pensamentos estão com as dezenas de vítimas e com os seus familiares, com todos os franceses, em solidariedade fraterna neste momento de dor e de angústia. Em meu nome e no de todos os portugueses, envio as mais sentidas condolências ao Presidente François Hollande e a todo o povo francês", acrescenta Marcelo Rebelo de Sousa.

O primeiro-ministro enviou logo na sequência do atentado de Nice, esta quinta-feira à noite, um comunicado a repudiar o ataque e a informar que os consulados e a embaixada estão a trabalhar para procurar portugueses. "O Governo português repudia e condena veementemente este atentado, que, mais uma vez, ataca a França e todos os europeus", diz num curto comunicado. Na mesma mensagem, António Costa lamenta as vítimas e manifesta "total solidariedade para com França e os franceses".

Numa altura em que ainda não é conhecida a identidade das vítimas, Costa informa que "a embaixada e os consulados portugueses estão a trabalhar com as autoridades francesas e disponíveis para ajudar todos os que necessitem". Em Nice vivem cerca de dez mil portugueses. "Portugal sofre com a França neste dia 14 de Julho, dia nacional da França. Todos partilhamos os seus valores: liberdade, igualdade, fraternidade", termina o primeiro-ministro.

Em declarações à Sic Notícias, o secretário de Estado português das Comunidades, Jose Luís Carneiro, disse não ter informação de portugueses entre as vítimas do ataque.

Nos EUA, o presumível candidato republicano às presidenciais de Novembro, Donald Trump, decidiu adiar a conferência para anunciar a escolha do seu candidato a vice-presidente. O actual inquilino da Casa Branca, o democrata Barack Obama, por seu lado, mantém-se “informado da situação em Nice, e a sua equipa de segurança nacional vai mantê-lo ao corrente da situação”, declarou o porta-voz do executivo americano, Ned Price, citado pela AFP.

Cerca de uma hora mais tarde, Obama foi citado numa declaração em que condena “aquilo que parece ser um horrível ataque terrorista”. “Estamos solidários com a França, o nosso aliado mais antigo, neste momento em que enfrenta um ataque”, disse o Presidente norte-americano, citado pela AFP, oferecendo ajuda do seu país para apurar responsabilidades neste caso.

A agência Lusa diz que a secção antiterrorismo da procuradoria de Paris anunciou a abertura de um inquérito-crime.

A nova primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, segue também os “terríveis acontecimentos” de Nice, segundo um porta-voz do executivo com sede em Downing Street, que acrescentou que o novo Governo, empossado há um dia, se sente “chocado e inquieto”. “Estamos prontos a ajudar todos os cidadãos britânicos e a apoiar os nossos parceiros franceses”, acrescentou a mesma fonte, citada pela AFP.

Nota introduzida às 17h40 de 15 de Julho: A identidade do condutor que lançou o camião contra as pessoas no Passeio dos Ingleses em Nice foi confirmada ao final da manhã desta sexta-feira pelas autoridades francesas. Trata-se do franco-tunisino Mohamed Lahouaiej Bouhlel. O número de vítimas mortais foi actualizado nesta sexta-feira para 84.