E viemos nascidos do mar

Sobre E do Mar Nasceu, de Ricardo Costa.

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A figura da mulher surge como elemento fundamental ao ofício piscatório em E do Mar Nasceu

O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Rodada nas Caxinas, em Vila do Conde, E do Mar Nasceu é uma média-metragem realizada, em 1977, por Ricardo Costa e pelo Grupo Zero, um dos vários colectivos cinematográficos que surgem após a revolução de Abril e que tentaram registar, de forma fulgurosa, o momento histórico então vivido (o filme foi rodado em apenas quatro dias). Pulsava uma certa urgência em, sobretudo, conhecer de perto a realidade do país, que atravessava um inédito processo revolucionário, através do contacto directo com as transformações sociais que ocorriam em zonas descentralizadas. Resumidamente, o cinema estava na rua.

Produzido com apoio público, através da Direcção Geral da Educação Permanente, que promovia uma campanha de alfabetização de adultos, este filme pretende consciencializar as populações sobre a igualdade no trabalho, o direito à educação e o combate ao patronato, aqui expressas como parte fundamental da matriz do discurso destas cooperativas de pescadores e que não tem hora ou lugar: nas ruas, nos cafés, em casa, em família ou com os colegas.

E do Mar Nasceu retrata a comunidade piscatória local e o processo de politização da mesma, nomeadamente através da criação de cooperativas, dividindo-se em dois momentos: por um lado, a montagem alterna entre a tentativa de traçar a génese e a história do lugar recorrendo a material de arquivo e a um narrador em voz-off; por outro, uma série de quadros vivos, notoriamente encenados, que retratam o quotidiano familiar e de trabalho das famílias caxineiras. Os diálogos versam sobre tramas corriqueiras, adquirindo um tom cómico, que remete para o imaginário popular de crenças, mitos e superstições (alguém dirá, a certa altura: “Eu tenho muito medo das bruxas, comadre”).

A figura da mulher surge como elemento fundamental ao ofício piscatório. Da força das suas mãos, filmadas em pormenor, criam-se as redes que se lançarão ao mar e transportam-se os baldes para a lota. Os planos fixos conjuntos destas mulheres no interior das casas, enquanto cosem as redes ou contam estórias, convocam a pintura barroca. Para além do cenário e da temática popular, através do acentuado contraste claro-escuro, cujos pontos de luz incidem essencialmente nos rostos que sobressaem do fundo negro, colocam-se em evidência as expressões corporais e a carga dramática das cenas.

A religiosidade tão característica destas comunidades, que enfrentam a morte pelo trabalho (fala-se, por exemplo, da "sobrevivência"), é mostrada em justaposição e por oposição à actuação de um rancho folclórico numa festa da Comissão Pró-progresso das Caxinas. Representação dentro de representação, ao aproximar-se de um diálogo da peça, operando um recorte no plano geral prévio, importa a cena para o filme, iludindo o espectador, para logo depois voltar a mostrar do que se trata.

“Trabalhar para trabalhar para os patrões, trabalhamos para nós”, diz um dos pescadores numa reunião com um representante do Governo que visava a constituição de várias cooperativas locais, uma das quais intitulada Nós Venceremos. Essa frase mostra-nos o mar e a luta juntos, num gesto emancipatório. No fundo, encontra-se um paralelo nas acções levadas a cabo pelo próprio Grupo Zero e outras cooperativas de realização, por onde passaram por esses anos vários cineastas portugueses (Jorge Silva Melo, Solveig Nordlund, Margarida Gil, Acácio de Almeida ou mesmo João César Monteiro, entre outros). Se os pescadores anulavam o patronato em prol do colectivo, estes grupos de cineastas pretendiam anular a figura do realizador, favorecendo um cinema colectivo. Muito para lá da relevância enquanto documento histórico, E do Mar Nasceu é um filme realizado por uma cooperativa (dispositivo) sobre outras cooperativas (representações) afirmando-se, por isso, como uma experiência de partilha assente numa ideia de devir comum.

Texto editado por Jorge Mourinha