Crítica

Nem novo, nem clássico

A Canção de Lisboa é o “menos mau” dos três remakes de comédia a portuguesa, mas continua a ser televisão ampliada para grande ecrã.

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Com esta reinvenção contemporânea do filme que “despoletou” a “comédia à portuguesa” em 1933, encerra-se a trilogia de (pretensos) “Novos Clássicos” que fez de O Pátio das Cantigas o maior sucesso da produção portuguesa com 600 mil espectadores e de O Leão da Estrela um êxito que, sem repetir o predecessor, fez 200 mil. Até poderia ser uma saída para uma tentativa (ainda assim improvável) de “indústria de cinema” à nossa pequena escala, mas qualquer semelhança entre estes “Novos Clássicos” e uma ideia de cinema é inexistente. O que os três filmes têm em comum é serem uma transposição para o grande ecrã do modelo mais rasteiro da estética da produção televisiva nacional.

A Canção de Lisboa sofre de muitos dos mesmos problemas de O Pátio das Cantigas e O Leão da Estrela mas é o menos mau dos três. É o que segue mais de perto a trama do original sem a esvaziar por completo: continua a ser a história do estudante de medicina calão que quer enganar as tias da província para elas não lhe cortarem a mesada principesca, e do seu romance turbulento com a filha de um comerciante, e a sua história é a que mais “resiste” às actualizações. Talvez por isso, mas também porque está “melhor acabado” do que os anteriores, vê-se com menos cansaço, com direito a momentos engraçados envolvendo as tias do Porto (Maria Vieira e São José Lapa) ou a espanhola da pensão (Nuria Mencia). Percebe-se aqui e ali uma ambição, ou um conhecimento, de cinema que não se sentia nos anteriores (como a curiosa energia a atirar para o screwball da Alice interpretada pela brasileira Luana Martau). Mas dizer que sobe um bocadinho a fasquia não é dizer muito face ao nível subterrâneo em que Leonel Vieira a colocara nos filmes anteriores. Pedro Varela, vindo da televisão e da publicidade e já guionista de O Pátio das Cantigas, filma com sobriedade mas no mais completo anonimato o que não passa de um “projecto de marketing”. E por muito que Miguel Guilherme confirme o talento que já lhe conhecíamos, César Mourão está longe de ser Vasco Santana (a comparação é inevitável). Estes “novos clássicos” não têm nada de “novo” a não ser uma actualização que os irá datar mais depressa do que os originais, e que face aos originais dificilmente poderão ser vistos como “clássicos”. Apenas um objecto desalmado, calculista, mercantilista.