Diário do Aluno

Há mais dias que linguiças

Há dias e dias, e dias não são dias. Até tenho amigos com o apelido Dias: João Dias, por exemplo. Porém, este dia foi um dos mais importantes dias da minha vida, e espero ainda ter muitos dias pela frente. Pronto eu paro... Diz? Só mais um? Certamente! Há mais dias que linguiças, mas eu não gosto muito de linguiça, quer dizer nunca provei, ou se já provei não me lembro. Eu tenho muito esta mania de dizer que não aprecio coisas nunca as tendo degustado. Por exemplo: ainda ontem... Espera! Sinto que estou a divagar um bocadinho, vão-me perdoar mas ainda estou de ressaca da tenebrosa e constante ansiedade, dúvida e tremor que este dia transpirou. Prometo que vou à ante-estreia do primeiro filme que tiver um título parecido com este: "Dia de afixação de resultados finais : O terror regressa, mas em números de 1 a 20! " ou então melhor " Dia de ir ver as notas", uma comédia romântica sobre dois alunos que se odeiam e que, após chumbarem o ano e descobrirem que são colegas de carteira, percebem que têm de unir esforços para obterem bons resultados. Triunfará o amor e a amizade sobre o ódio? Não percam, um filme tão genérico que nem o Adam Sandler aceitou protagonizar (prescindo já dos meus direitos de autor, sejam criativos amigos!)

Gosto de pensar que a nossa vida, no final de contas, resumir-se-á a poucas centenas de dias que, embora não pensemos... bem, olhando para trás se não fosse aquela tarde,  hoje não seria uma estrela de rock-astronauta-playboy multimilionário ( um rapaz pode sonhar...), a verdade é que o nosso fado pode mudar drasticamente numa manhã e isso, mesmo que assombrosamente assustador, é o que torna a nossa existência mágica, o nosso sangue único. Este, para alguns, foi um desses dias. 

Como a primeira fase já voou nos cabelos de Junho é altura de celebrar. Dessa forma e em jeito festivo, gostaria de fazer um brinde (com limonada, mãe!) a todos nós no décimo e décimo primeiro que achávamos que estudar era coisa de marrão e ter dez era suficiente (obrigado Henrique de dezasseis ou dezassete anos, eu realmente prefiro estar fechado em casa a estudar para melhoria de nota, do que na praia.). A todos os professores que pertencem à máfia dos 0,4 que, impressionantemente, acham que se subirem uma décima o mundo vai acabar! E a todos os nossos colegas que nos perguntam a nota e antes de respondermos, já eles declamaram para toda a sala ouvir que tiveram mais. Agradeço-vos profundamente,  como seria o meu desempenho escolar se não fossem vocês?

Sair pela porta da escola uma última vez, criou dentro de mim um sabor agridoce. Por um lado, senti que tinha cumprido o dever, fechei o capítulo, passei o ano e as notas dos exames superaram as minhas expectativas. Por outro lado, não consigo parar de pensar em todos aqueles beijos às escondidas, dos intermináveis jogos de futebol e daquelas atrevidas e loucas aventuras em manhãs chuvosas de Janeiro. Custa-me não poder reviver tudo isso, mas ainda bem, de outra forma estaríamos presos, ofegantes e emaranhados dentro das memórias e nunca conseguiríamos dar aquele corajoso passo em frente. 

Haverá sempre mais mares por descobrir. 

Concluiu o 12.º ano na Escola Secundária Rainha Dona Amélia, em Lisboa