O Ronaldo não cabe numa folha de Excel

A Goldman Sachs falhou nas previsões contra Portugal para o Europeu de futebol e Wolfgang Schäuble até parece desejar que Portugal falhe na concretização

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Charles Platiau/Reuters

No dia 6 de Junho, a Goldman Sachs divulgou uma projecção na qual Portugal estava condenado a ser eliminado nos quartos-de-final do Europeu de futebol pela Inglaterra. A base foram as probabilidades estatísticas de cada uma das selecções apuradas, tendo a final sido destinada à França e à Espanha — a Alemanha também ficaria à nossa frente. Claro que prognósticos no final do jogo são fáceis de fazer e agora todos podemos rir destas previsões. Afinal de contas, Portugal foi mesmo à final e é campeão europeu. Contra muita coisa e contra a França.

Para chegarem a esta conclusão, acredito que os peritos da Goldman Sachs tenham cumprido todas as regras analíticas que vêm nos manuais e que a folha de Excel com os cálculos estivesse inatacável do ponto de vista técnico. O problema das previsões é que não conseguem avaliar a grande dose de aleatoriedade de um jogo como o de futebol, porque deixam de fora o lado humano, da imprevisibilidade.

Pois bem, esta terça-feira reúne-se o Conselho Ecofin para decidir se Portugal vai ser alvo de sanções por ter apresentado défice excessivo. Hoje, os portugueses ficam a saber se lhes vais ser aplicada mais austeridade. E se fizermos uma transposição do mundo do futebol para o da política, vemos que até chega a ser irónico que nesta previsão do banco de investimento estejam os principais actores da Europa actual. De um lado, a Inglaterra (Reino Unido para ser exacto) com o seu nada fleumático Brexit e a confusão que está e vai causar na União Europeia; do outro, Portugal e Espanha sentados no banco dos réus à espera do “veredicto” dos senhores do Ecofin, ou seja, dos países da zona euro, em cuja votação os dois países ibéricos ficam de fora por razões óbvias. Como "compagnon de route" dos “réus” está a França, que vê neste momento político o tempo ideal para reconquistar o protagonismo de outros tempos. Por fim, mas não em último, a Alemanha, cuja veia “controleira” da Europa ganhou nova força com o Brexit. Basta recordar a verbosidade do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, quando defendeu que Portugal estava pedir um segundo resgaste… embora depois tenha dado o dito pelo não dito.

A questão é que nem no futebol, nem na política as pessoas cabem numa folha de Excel. O senhor Schäuble não parece ter ligado pevide ao que aconteceu com o Reino Unido e nem daí conseguiu (ou quis) tirar conclusões. Bem ou mal, os britânicos decidiram dizer adeus a esta Europa e seguirem sozinhos o seu caminho. Em França, na Áustria e nos países nórdicos (mas não só) as ideias extremistas ganham terreno e a União corre o risco de uma crise política e económica ainda maior do que a actual.

A Goldman Sachs falhou nas previsões contra Portugal para o Europeu de futebol e Wolfgang Schäuble até parece desejar que Portugal falhe na concretização. Não dos golos, mas das metas traçadas para o cumprimento do défice. Num caso, como noutro, Portugal é muito mais do que uma simples folha de cálculo. E, como bem se viu, mesmo estando lesionado, o Ronaldo não caberia nunca numa folha de Excel.