Bling reluziu na prova que não era para si

Fascinado pelo luxo, Michael Matthews tem visto o sonho de se impor no Tour cair por terra nos últimos anos. Nesta terça-feira, a maré mudou.

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LIONEL BONAVENTURE/AFP

Goste-se ou não do estilo, um tipo que tem a audácia de dedicar a vitória no Tour – e, portanto, o sonho de uma vida – ao cão (Gigi), merece a nossa admiração. É assim o vencedor da décima etapa do Tour: transparente, confiante e despudorado - autodenomina-se "Bling", uma alcunha que recebeu, ainda nos subúrbios de Camberra, onde nasceu há 25 anos, por pedalar carregado de adereços, assume-se apaixonado por tudo aquilo que brilha (como atestam os seus acessórios de ouro e diamantes) e fascinado pelo luxo (não será por acaso que vive no Mónaco, colecciona carros topo de gama e só veste roupas de marca).

Michael Matthews é australiano, mas não parece. Ao contrário de todos os ciclistas da sua geração, não se formou na pista. Era o asfalto, o mesmo que tinha pisado durante dez anos nas competições de motos, que o atraía e, por isso, foi na estrada que se concentrou quando entrou no programa de formação do Cycling Australia. O talento inato levou-o a uma ascensão meteórica: com apenas 19 anos, a correr em ‘casa’ (em Melbourne), sagrou-se campeão do Mundo de sub-23 e maravilhou a Rabobank, que lhe abriu as portas do continente europeu e do WorldTour.

Condicionado pelas expetativas sobre o seu futuro e pela excessiva atenção mediática que o seu estilo (tem um enorme anjo tatuado nas costas e vários piercings), o normalmente confiante aussie acusou a pressão. No seu primeiro ano na equipa holandesa e no seu quarto em cima de uma bicicleta, somou três vitórias. No segundo, duas.

Só o reencontro com Shayne Bannan, seu mentor no Cycling Australia, e a mudança para a Orica-GreenEdge revelaram todo o seu potencial. Em 2013, terminada a sua primeira época na equipa nacional, tinha somado quatro triunfos, dois dos quais etapas na Vuelta. Seguiram-se duas vitórias e a camisola rosa no Giro, outra na Vuelta, acompanhada da camisola vermelha, um ciclo que hoje ficou (quase) completo, com o triunfo sobre Peter Sagan, o homem que o privou do título mundial no ano passado e aquele que é um dos seus ídolos a par de Oscar Freire, o já retirado espanhol com quem se cruzou na Rabobank.

“Passaram três anos desde que o meu sonho de participar ou planear participar no Tour se tornou realidade. Mas, quando estava programado voar para o Reino Unido para o arranque da Volta a França (2014) caí. Depois, no ano passado, caí na terceira etapa e parti quatro costelas. Este ano, já estive envolvido em quedas duas vezes. Estava quase a desistir desta corrida, pensei que o Tour não era para mim”.