Crítica

O grande ritual da transmissão

Jorge Pinto é o actor ideal para interpretar a personagem do Rei Lear em modo simultaneamente cómico e trágico.

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Jorge Pinto é o Rei Lear nesta encenação de Rogério de Carvalho NELSON GARRIDO

Rei Lear é uma espécie de grande ritual para as personagens, os actores e os espectadores. Querendo mudar o seu lugar na hierarquia social, um monarca decide fazer partilhas em vida. Ao abdicar da coroa, dá o tiro de partida na corrida ao trono por parte das filhas (uma boa e duas más). Mas que lugar ocupará um rei tão cego que não vê o desastre que se anuncia? Ao renegar a filha boa e compensar as filhas más, Lear traça para si um destino funesto. Daí até ao final da peça, quando finalmente encontra o seu lugar, terá passado por uma espécie de mundo ao contrário. Várias personagens vêem a sua identidade trocada durante a acção. E o rei? Ao longo da peça, vemos que troca de posição com o bobo, até que se fundem. A figura do bobo, omnipresente durante o processo, desaparece de repente, de modo misterioso, se aplicarmos os critérios do drama e da ficção, mas justificado, se olharmos para a peça como um rito. Durante a tempestade, Lear está em comunhão com a natureza, mas separado da corte. Depois de se transformar em monarca louco, aprende a lição e, no final, reconhece-se no papel de velho pai — tal como Cordélia, no início, se reconhecia no papel de uma filha e nada mais. Será tarde.

Para os actores, o ritual é duplo: por um lado, interpretar este papel é um marco na carreira, que os faz pertencer a um restrito grupo de intérpretes. A provação não é apenas questão de oportunidade: num curto espaço de tempo, é preciso fazer um rei aparentemente magnânimo, mas cheio de soberba; depois, um rei cínico e desesperado; e, finalmente, não um rei, mas somente um homem. As demais personagens passam por transformações similares.

Para o público, o ritual é outro, e mais quotidiano: atravessar os umbrais do teatro até ficar perante esse último umbral que é a ribalta, o qual será finalmente cruzado em pontos-chave da narrativa, mas apenas pelos actores. O espectador deve despir-se dos preconceitos acerca da hierarquia natural do mundo e conseguir imaginar a igualdade profunda entre os homens, saindo do teatro, em teoria, de alma lavada, por ter visto a humilhação simbólica de um monarca soberbo.

Por que razão avançam as personagens para toda esta actividade ritual? Em reacção ao avançar da idade. É o envelhecimento que faz Lear querer ajustar o seu papel na vida. Os actores avançam para este papel conforme chegam à idade madura. E até os espectadores, diria, se dedicam a esta peça conforme o tempo avança, tais os mistérios de amor filial e paternal da peça. A obra é propícia, pela evocação que faz das forças da natureza, desde as tormentas e das falésias de Dover aos vermes e aos insectos, à tentativa de determinar o lugar e o destino dos homens.

As figuras e as coisas postas assim, fica fácil de ver que Jorge Pinto, capaz de aliar a vaidade do Lear inicial à exposição ao ridículo dos passos seguintes, é o actor ideal para interpretar a personagem em modo trágico e cómico ao mesmo tempo. A encenação de Rogério de Carvalho aposta na universalidade das figuras do rei humilde, do sábio louco e do profeta cego para apresentar os dilemas das personagens e expor a parábola shakesperiana de modo reconhecível, mas original e singular. A ganância dos filhos que conspiram contra os próprios pais, em contraste com a abnegação dos que se remetem a um papel mais modesto, é uma medida da injustiça que esta versão tenta focar. A tradução forte de ViIlas-Boas — forte porque assenta as ideias em palavras claras, conforme as circunstâncias de cada cena, ancorando o discurso nas situações dramáticas, e estabelece um campo próprio para a sua discursividade — devolve o Rei Lear à sua expressão mais concreta, o que ajuda, e muito.

A abstracção da encenação, por um lado, e a concreção do texto, por outro, nem sempre são bem sintetizadas no todo. Aqui e ali, os actores formulam as personagens sem articular bem os objectivos e as motivações, e sem transformar os corpos no processo. Ao contrário disso, a contundência de Cordélia na primeira cena, ou do Bobo quando Lear está perdido, ou ainda do criado que se insurge contra o castigo imposto ao velho Gloucester, são detalhes memoráveis desta montagem. O ritual da passagem do poder, tanto no seio da família como na cabeça do Estado, procede, mas não é efectivo.