O hipster emocional do pelotão

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Ver um barbudo, de gesto fechado, a chorar como um menino, é uma imagem inusitada. No entanto, se souber o que escondem as lágrimas de Simon Geschke, perceberá porquê. Há um ano, o berlinense fugiu para a vitória na 17.ª etapa da Volta a França e depois de cortar a meta, peito em riste, punhos erguidos ao lado do corpo, desfez-se em lágrimas. “Não tinha previsto chorar na televisão”, reconheceu, num misto de embaraço e orgulho.

Mais conhecido pela sua barba — o jornal The Guardian dedicou-lhe um texto, considerando-o rei do estilo, por se atrever a quebrar a monotonia capilar instalada há anos no pelotão e a GQ lançou um apelo para que nunca se barbeasse —, o ciclista da Giant-Alpecin teve nesse dia o seu momento de glória. “[Ganhar uma etapa no Tour] era um sonho com 15 anos. Esta é só a minha terceira vitória como profissional”, balbuciou, entre soluços.

Aos 29 anos, Geschke imitou os passos de Jens Voigt e Tony Martin, os compatriotas, autores de "cavalgadas" impressionantes e fugas corajosas, que o deixavam colado à televisão em cada encontro anual com a Volta a França. A caminhada até aí foi uma longa travessia no deserto. Inspirado pelo pai, Hans-Jürgen, antigo campeão mundial de pista nos anos 70, Simon escolheu a bicicleta como futuro aos 16 anos, depois ganhar um punhado de provas de BTT na sua região. Mas os resultados na estrada, vertente que escolheu devido à admiração por Jan Ullrich, tardavam.

Profissional desde 2009, sempre nas variantes da Giant-Alpecin, o alemão percebeu que o seu destino era ser um trabalhador e não um campeão como o seu progenitor. “O Simon é um corredor polivalente, um équipier fiel e disciplinado, que pode ajudar os líderes em quase todos os terrenos”, descreveu Iwan Spekenbrink, o manager da equipa. Relegado à condição de lançador de sprint, tanto de Marcel Kittel como de John Degenkolb, o barbudo acumulou postos de honra na Amstel Gold Race, na Volta à Baviera ou na Milão-Sanremo, vencendo ainda uma etapa no Critério Internacional (2011). “Adoro as clássicas das Ardenas e adoraria, um dia, ter uma palavra a dizer numa”, vai confessando, sem nunca colocar os objectivos pessoais à frente dos da equipa.

Talvez por isso, aquilo que desejou no pós-triunfo no Tour (o relançamento da carreira) ainda não tenha acontecido. Mas isso não significa que Geschke tenha voltado ao anonimato. “Sinto que sou mais reconhecido [desde a vitória no Tour], mas a principal razão é a barba. A memória [da sua barba] ficou presa na cabeça das pessoas. Parece que passei imenso tempo na televisão nessa etapa e as pessoas lembram-se de mim por causa disso”.