Editorial

Rigidez robótica

Uma estranha onda de rigidez paira sobre Bruxelas e, para variar, não vem dos comissários europeus. A Comissão Europeia não propôs sanções contra Portugal e, embora falte a decisão dos ministros das Finanças, Pierre Moscovici lembrou que, mesmo havendo uma sanção, a sanção pode ser cancelada – ou seja, Portugal pode ter uma “multa zero”. A multa prevista pelas regras europeias para estes casos – e nunca aplicada até hoje – vai de zero euros a 0,2% do PIB e suspensão de fundos. Como em tudo no universo, a Comissão tem uma escala para os castigos e prevê “amnistias”. No futebol há cartões amarelos para avisar e cartões encarnados para expulsar. Na diplomacia há notas verbais para mostrar desagrado e há o corte de relações no extremo oposto. Há condenados amnistiados, há amnistias fiscais e há, em todas as relações de poder – como a que a Comissão tem com os Estados-membros – tabelas de gravidade na punição. O espanto em relação ao conceito de “multa zero”, equivalente a uma pena suspensa, revela uma rigidez robótica eivada de anti-europeísmo primário.