A Mafia que vem do frio

Susanna White dirige com indistinção funcional. A história sobrevive, apesar de tudo, o que é quase um milagre — que prova que Le Carré é melhor escritor do que produtor executivo.

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Um Traidor dos Nossos: a história sobrevive, apesar de tudo...

Se uma história de John Le Carré nos sugere um filme de espionagem pragmático, intrincado e cheio de ironia no comentário à actualidade geopolítica, desenganemo-nos. As histórias de Le Carré já serviram para filmes plenos desses atributos, do Espião que Veio do Frio (Martin Ritt, nos anos 60), ao Alfaiate do Panamá (John Boorman, mais recentemente). Neste Um Traidor dos Nossos, que até tem o próprio Le Carré como produtor executivo, encontramos apenas, e na melhor das hipóteses, uma pálida réplica de tais características. O começo é, aliás, altamente desencorajador, com um genérico estranhíssimo, cheio de efeitos de teledisco e um bailarino semi-despido que parece uma caricatura involuntária do homoerotismo de Derek Jarman, a que se segue uma entrada na matéria (só depois cabalmente explicada) que implica mostrar vários assassinatos violentos num maneirismo “lírico” (aspas) mais ou menos “russo” (mais aspas).

Depois melhora um pouco, à medida que a situação é apresentada — um casal britânico (McGregor e Naomie Harris) de férias em Marrocos, a tentar recuperar de uma crise matrimonial, trava amizade com um mafioso russo vagamente arrependido (Stellan Skarsgard), que os encarrega de uma missão fulcral (entrar em contacto com o MI6) para a segurarança dele e da família dele. A história, que é simultaneamente a da intriga policial e a da reaproximação do casal, é suficientemente rica para que o espectador mantenha um mínimo de interesse — e tire até algum gozo na forma despudorada como narrativa é bem deste tempo em que se tende a diluir a fronteira entre a finança “legal” e a finança “subterrânea” (em fundo está a atribuição da licença para operar na City de Londres a um banco controlado pela mafia russa e especializado na lavagem de capitais). Mas as personagens nunca são muito desenvolvidas, num “apagamento” que em parte se justifica no caso de McGregor e Harris (personagens acidentalmente envolvidas naquilo tudo e como que “esmagadas”) mas que não se justifica de todo no caso de Skarsgard, representante de uma mafia russa tomada por clichés de caracterização, muito, muito longe do que Cronenberg fez no seu último grande filme, Eastern Promises (que trabalhava os códigos da mafia russa, das tatuagens às regras de “honra” e comportamento, numa proporção incomparável). Susanna White dirige com indistinção funcional, e só nas duas sequências parisienses (no “spa” e no bairro de subúrbio) consegue uma tensão realmente digna de nota — ou pelo menos, que nos faça esquecer a enjoativamente decorativa fotografia de Anthony Dod Mantle, o cinematographer mais cabotino da actualidade (lembrar-se-ão do que ele fez com Danny Boyle ou Lars von Trier), incapaz de uma imagem “limpa”, sempre a saturar uma cor aqui (normalmente os azuis) e a diluir outra ali, a carregar a fotografia de reflexos e efeitos artificiosos duma inutilidade exibicionista e meramente poluente. A história sobrevive, apesar de tudo, o que é quase um milagre — que prova que Le Carré é melhor escritor do que produtor executivo.