Lamiya foi escrava do Estado Islâmico durante 20 meses e ainda vai ser professora

Ana Gomes e Josef Weidenholzer identificaram 470 yazidis na Grécia que querem vir para Portugal, onde o Governo tem “total abertura” para os receber. A iraquiana Lamiya foi vendida e violada até pensar que não aguentava. Mas sobreviveu.

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Lamiya Aji Bashar, de 18 anos, tem a cara desfigurada por uma bomba Enric Vives-Rubio

Dizem dos yazidis que são adoradores do Diabo, mas eles sabem que o Diabo são os outros. A religião deles é anterior a Maomé mas desde que há muçulmanos, vivem entre eles. Os yazidis sempre foram perseguidos e estão espalhados pelo mundo. Em 2010, sobravam uns 800 mil, a maioria no Iraque. Hoje, depois de Saddam Hussein e dos extremistas, ninguém sabe quantos são.

Estejam onde estiverem, os yazidis acreditam que o dia do julgamento final vai acontecer no templo de Lalish, a montanha do Curdistão iraquiano. É dali, dizem, que se separam os caminhos: para um lado, o Inferno; na direcção oposta, o Paraíso. Em Lalish há uma serpente e é desta que os ignorantes falam quando os acusam de adorar o Diabo. O que eles não sabem é que foi com esta serpente que Noé tapou o buraco da arca e, assim, a vida pôde continuar.

O pediatra Mirza Dinnay sabe bem o que é resgatar crianças ao Inferno. Lamiya Aji Bashar exibe as marcas do Diabo no rosto, mas continua a adorar a vida e ainda quer ser professora. Tem 18 anos e a cara desfigurada pela bomba que explodiu quando fugiu de quase dois anos de cativeiro impensável. O impensável chama-se Daash (o autodenominado Estado Islâmico). A bomba tirou-lhe o olho direito e deixou-lhe o esquerdo com a visão 90% reduzida.

As piores marcas são as que não se vêem. O pediatra Mirza sabe disso. Afinal, é ele que está a salvar Lamiya.

“Sou uma das milhares de raparigas yazidis capturadas pelo ISIS [sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque e de al-Shams, como o grupo se fazia chamar antes de 2014]. Eu e toda a minha família fomos capturados em Agosto de 2014 em Korcho, a nossa aldeia. Os combatentes chegaram e disseram: ‘têm três dias para se converter ao islão ou serem mortos’”, conta Lamiya, com Mirza a fazer de intérprete.

O que é o Estado Islâmico

Quando os combatentes chegam, o terror só acabou de começar. “No fim desses três dias, obrigaram-nos a ir para a escola da aldeia. Separaram as mulheres e as crianças dos homens. Levaram os homens lá para fora e mataram-nos. Depois, transportaram-nos para outra zona e foi aí que nos dividiram, mulheres para um lado, raparigas para outro”, descreve. Na aldeia, diz Mirza, viviam 1900 pessoas – 400 eram homens, como o pai de Lamiya que ela nunca mais viu; os outros eram mulheres e crianças.

“As raparigas, como eu, fomos para Mossul [a segunda maior cidade do Iraque, no Norte do país, sob controlo dos jihadistas]. Às mulheres mais jovens e às crianças mais pequenas levaram-nas para Tal Afar [outra cidade]. Às mais velhas mataram-nas”, conta a jovem. “Depois de uns dias, levaram-me para Raqqa [a cidade síria a que os membros do Daash chamam capital do seu autoproclamado 'califado'], a mim e à minha irmã. Um combatente saudita levou-nos e violou-nos às duas, no mesmo dia, antes de nos devolver ao grupo.”

Vendida e comprada

Foi então que Lamiya foi vendida e comprada pela primeira vez. Tinha 16 anos e pensou que não aguentava. “Um dos emires, um saudita, comprou-me e levou-me. Torturou-me, espancou-me, violou-me e eu cortei os pulsos, tentei matar-me. Estive três dias no hospital e, logo a seguir, ele levou-me para Deir Ezzor, outra cidade da Síria. Voltei a tentar fugir e passei uns dias com uma família. Eles denunciaram-me e eu fui capturada outra vez”, recorda Lamiya, franzina e frágil, t-shirt branca e fio ao pescoço.

Por tentar fugir, foi punida com nova dose de espancamentos e violações. “Depois, quiseram levar-me para Caim, no Iraque, mas eu saltei do carro e fugi. Capturam-me num controlo do ISIS e voltei para Deir Ezzor. Enfiaram-me numa prisão, e violaram-me sem me darem comida nem água. Entregaram-me a outro combatente e fui escrava deste durante três meses. Este vendeu-me a um que era o responsável por fazer as bombas. Para além de me violar, obrigava-me a construir explosivos. Consegui fugir, passados outros três meses e voltei a ser capturada”, conta, num só fôlego.

“Levaram-me de volta para Mossul, para ser julgada num tribunal de sharia [lei islâmica]. Devia ser morta ou ficar sem pés, por ter fugido. Decidiram matar-me, mas veio outro saudita que perguntou se me podia comprar. Primeiro, espancaram-me até todo o meu corpo sangrar por todos os lados. Depois, deixaram que o saudita me levasse para o mercado de escravos”, lembra. “Fui comprada por um médico iraquiano que era muito mau para mim. Passei um ano com ele, ele comprava e vendia raparigas yazidis o tempo todo.”

A grande explosão

Lamiya não estava sozinha e conseguiu convencer duas outras yazidis a fugir com ela. Determinada, entrou em contacto com uns familiares afastados para lhe enviarem um contrabandista. “Consegui escapar com duas amigas, uma de 18 anos, outra de oito. Fugimos de noite, mas perto da fronteira com o Curdistão uma delas pisou uma bomba e houve uma grande explosão. Elas morreram e eu perdi o meu olho direito e fiquei com a cara assim, quase cega do olho esquerdo. Um contrabandista levou-me ao Curdistão.”

Para além do pai, um irmão de Lamiya foi assassinado. Duas irmãs já estão na Alemanha, onde Lamiya chegou há um mês; como ela, foram resgatadas pela organização do pediatra Mirza. Outro irmão, com 12 anos, foi forçado a combater durante um ano nas fileiras do Daash. “Conseguimos resgatá-lo e está no Curdistão. A mãe dela e outro irmão estão desaparecidos até agora”, diz Mirza.

“O plano é reunir a família que sobra na Alemanha”, explica o pediatra. Mas nos campos de deslocados no Norte do Iraque não faltam “outros casos de raparigas a precisarem de cuidados médicos e de quem as acolha depois do trauma” do cativeiro. “As condições em que vivem no Iraque são terríveis”, diz o eurodeputado Josef Weidenholzer, que visitou os campos com Ana Gomes e sabe do que fala Mirza. O médico vive entre o Curdistão e a Alemanha a resgatar crianças ao Inferno. Os deputados europeus querem ajudar e Portugal também.

A caminho de Portugal?

Os dois eurodeputados, membros da Comissão das Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu, já visitaram os yazidis no Iraque e na Grécia, onde identificaram 470 que querem vir para Portugal. Lamiya e Mirza vieram com eles a Lisboa reunir-se com o ministro-adjunto da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que tem a cargo a recepção e integração de refugiados em Portugal. O Governo tem “total abertura” para os receber, dizem.

No Iraque, lembra Mirza, “ninguém quis nunca estudar psicologia e não há infra-estruturas” onde começar a curar as feridas escondidas. “Em todo o Curdistão, há 20 psiquiatras para milhões de pessoas. E há mais de seis mil crianças que passaram meses e anos em cativeiro”, descreve.

“Estas pessoas estão muito traumatizadas, vivem em campos de tendas sem qualquer ajuda, o apoio psicológico é quase inexistente”, diz. “Há crianças de seis anos que ainda acordam às 6h da manhã para rezar com medo de serem mortas pelos homens do ISIS... Não perceberam que já não estão em cativeiro”.

Ainda em fuga

Na Grécia, conta o médico, há 4700 refugiados yazidis em diferentes campos. “Fugiram da discriminação que sofriam no seu país, mas estão em campos onde continuam a ser discriminados. Sabemos que 231 escaparam dos campos o mês passado porque os refugiados sírios muçulmanos queriam obrigá-los a fazer jejum durante o Ramadão. Houve uma rapariga que se suicidou há dias. Temos de os tirar de lá.”

Os yazidis e todos os refugiados que permanecem na Grécia estão também vulneráveis aos traficantes. São 15 mil ao todo, quase cinco mil são yazidis. E entre estes, há os 470 identificados. “Sabemos onde estão, sabemos quem são, são famílias que só precisam de um empurrão”, diz a eurodeputada socialista.

Lamiya fugiu em Abril em direcção ao Curdistão iraquiano. Na Alemanha, não tem estatuto de refugiada, foi levada pela associação do pediatra Mirza. Tem um visto de curto prazo, três meses, para tratamento médico. Mas Mirza vai tentar mantê-la lá, impedir que regresse às tendas do Iraque, onde não tem perspectivas.

Ainda há 3000 yazidis escravos do Daash, lembra a jovem. “Gostava que todos fossem resgatados”, diz Lamiya. “A situação das mulheres e das crianças que conseguiram fugir é muito má. Espero que outros países as queiram acolher.”

A vida no Estado Islâmico