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A casa foi pensada para ter um aspecto oriental Rui Gaudêncio
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Dina Pereira recebia os convidados e família num anexo separado da casa Rui Gaudêncio
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A casa tem vista para a praia, onde a construtora se gabava de nunca ter tempo para ir Rui Gaudêncio
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A casa fica num alto, como se estivesse numa montra Rui Gaudêncio
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A empresária gostava de receber os convidados sentada junto à piscina Rui Gaudêncio
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Dina Pereira morreu em 2013, a casa está fechada desde essa altura Rui Gaudêncio
Série Casas Portuguesas

Há dez quartos de hóspedes onde nunca dormiu ninguém

A construtora civil Dina Pereira pintava o cabelo de um ruivo que era suposto parecer artificial, uma cor que só podia ser dela, que não queria ser como mais ninguém. A casa que mandou construir de raiz tinha de ser a condizer. Mas a família nunca lá pôde ficar.

“Reservado.” Não é que a placa fosse precisa, não havia propriamente enchentes de clientes no Café Havaneza. Servia para sinalizar que aquela mesa do canto, virada para o mar, a única com um jarro de flores, era especial. Mesmo quando Dina Pereira não vinha jantar ficava vazia, mas reservada, à sua espera.

Quando chegava, estacionava à porta um dos dois Mercedes, o branco ou o verde, também podia ser o Porsche vermelho, e o empregado de mesa Martinho já sabia o que lhe fazer, com o seu paninho branco e os seus jeitos de deferência exagerada. Quanto mais etiqueta, mais gorjetas, “o Martinho sabia”, lembra, irónica, Maria da Graça Sousa, a proprietária deste café-restaurante na vila costeira de Santa Cruz, próxima da cidade de Torres Vedras. Quando o empregado de mesa “dos salamaleques” morreu, Dina Pereira deixou de lá ir. Passou a ter uma outra mesa reservada com um jarro de flores num restaurante ali perto, o Manjar Real.

Dina Pereira gostava de ser servida, de ser respeitada, de ser apaparicada, que fizessem o que mandava. Sem sair do carro, parava às vezes à beira da farmácia da vila, baixava o vidro, fazia “psst”, e iam entregar-lhe os medicamentos, recorda Maria da Graça Sousa, 78 anos. Depois, arrancava.

Era uma figura “quase diáfana”, a maioria conhecia-a de passagem: “Olha lá vai a Dina Pereira...”, lembra Fátima Vasconcelos, que ia passar as férias de Verão a casa da avó, natural desta povoação, e lembra-se muito bem dela, em plenos anos 1980 (como esquecer?).
 
Nessa altura, Santa Cruz era ainda uma povoaçãozinha em que as pessoas viviam de costas viradas para a praia, o sustento local vinha das hortas e das estufas, e não ainda do turismo. Ao mar ia-se buscar uns polvos mas nem havia pesca. O casario reduzia-se a umas quantas casas de camponeses, e umas poucas vivendas apalaçadas de famílias endinheiradas da cidade que ali tinham uma segunda residência.

E, depois, havia aquela mulher, que andava quase sempre sozinha, quando as mulheres daqueles meios não se viam assim, desacompanhadas, “com um ar de estrela de cinema”, recorda Fátima Vasconcelos. Usava óculos de sol, chapéus altos que a faziam parecer menos baixa, fumava cigarros por uma longa boquilha dourada.

Havia uma enorme curiosidade em torno daquela “figuraça”. Como ficava por saciar, surgia depois muita especulação. A tese que reinava, nas idas de férias de Fátima Vasconcelos à terra da avó, era a de que era a herdeira de um marido muito rico, uma viúva excêntrica, portanto. Só podia ser. “Uma interpretação que tem tudo a ver com a época.”

Nesse tempo, a poucos passaria pela cabeça que tinha enriquecido sozinha, como construtora civil, num mundo só de homens. Que andava com um revólver na mala de senhora para se proteger, que construiu tudo sem nunca pedir empréstimos ao banco, tinha orgulho em dizer que pagava tudo a pronto. Que começara como administrativa numa pequena firma de construção civil em Mafra.

Dina Pereira não era viúva, chegou a casar-se, com um cumpridor funcionário público da junta dos produtos pecuários, mas cedo decidiu separar-se dele. “Enfastiou-se. Ele não tinha pedalada para a acompanhar”, explica o genro, José Nunes, que fala em nome da filha única de Dina Pereira.

Corriam os anos 1960, era Dina Pereira uma mulher de trinta e poucos anos. Quando conheceu Santa Cruz percebeu, foi a primeira a perceber, que se enchesse de moradias e apartamentos aquele pedaço ainda selvagem de litoral português podia chegar aonde queria, “alcandorar-se de posição”, como diz José Nunes.

PÚBLICO - A casa foi pensada para ter um aspecto oriental
A casa foi pensada para ter um aspecto oriental Rui Gaudêncio
PÚBLICO - Dina Pereira recebia os convidados e família num anexo separado da casa
Dina Pereira recebia os convidados e família num anexo separado da casa Rui Gaudêncio
PÚBLICO - A casa tem vista para a praia, onde a construtora se gabava de nunca ter tempo para ir
A casa tem vista para a praia, onde a construtora se gabava de nunca ter tempo para ir Rui Gaudêncio
PÚBLICO - A casa fica num alto, como se estivesse numa montra
A casa fica num alto, como se estivesse numa montra Rui Gaudêncio
PÚBLICO - A empresária gostava de receber os convidados sentada junto à piscina
A empresária gostava de receber os convidados sentada junto à piscina Rui Gaudêncio
PÚBLICO - Dina Pereira morreu em 2013, a casa está fechada desde essa altura
Dina Pereira morreu em 2013, a casa está fechada desde essa altura Rui Gaudêncio
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“Ela queria subir na vida”, mesmo literalmente, assim que teve dinheiro comprou o andar mais alto que conseguiu, um 19.º andar em Lisboa, o mais próximo de um arranha-céus americano. Natural de uma aldeia da Beira Alta, Touro, filha de uma doméstica e de um pequeno negociante de cereais, vivia fascinada com a América, “a terra de oportunidades”. Santa Cruz foi a aproximação ao que ela podia ter sido, se ao menos tivesse ido para lá. Era a sua pequena América.

No conceito de Dina Pereira subir na vida significava enriquecer e ser poderosa, mas não discretamente, incluía também ser famosa. “Meio mundo me conhece”, dizia ufana. Certo é que toda a gente em Santa Cruz a conhece e que se tornou tão célebre na região que Maria Matos, de 62 anos, conhece quem se mascare de Dina Pereira no Carnaval de Torres.

Hoje Santa Cruz enche-se de habitantes no Verão, esvazia-se no Inverno, como tantas outras zonas balneares. Tem a marginal orlada por prédios altos e vivendas de todos os formatos e feitios, construídas pelas muitas firmas de construção que proliferaram depois de Dina Pereira.

Como numa montra

Mas a casa que mais destoa não fica à beira-mar, fica à saída da povoação, numa rotunda onde surge mais alta, como se estivesse numa montra.

Fátima Vasconcelos lembra-se de ser adolescente e tentar espreitar por cima do muro, tentar perceber o que havia dentro da casa diferente. Estava rodeada de vegetação densa e nunca conseguiu ver nada.

A casa que Dina Pereira idealizou, e mandou construir quando já se podia considerar rica, foi pensada para sobressair.

José Nunes foi apresentado à sogra, nunca mais se esquece do momento, do seu aspecto extravagante, ainda só metade da casa estava de pé mas já surgia como “uma coisa fantasmagórica, uma coisa fora do ambiente natural da zona”. Dina Pereira queria que a sua casa chamasse tanto a atenção a quem passava na estrada, como ela, quando passava na rua.

A maquilhagem que se lhe conhecia era sempre carregada, como nesta foto que nos mostra, aqui já passava dos 80 anos: duas riscas azuis demasiado grossas a envolverem-lhe os olhos em cima e em baixo, o baton encarnado a ultrapassar-lhe ligeiramente o contorno dos lábios, tornados finos pela idade, o cabelo muito ruivo, um ruivo que não era suposto parecer natural, era suposto parecer pintado, artificial, uma cor que só podia ser dela, uma mulher que não queria ser como ninguém. A sua casa tinha de ser a condizer.

Fê-la com telhados negros, que terminavam com uns jeitos que queriam fazer lembrar um Oriente que ela trouxe de Macau — uma das duas visitas que fez ao estrangeiro, com um grupo de empresários. A outra foi à América, claro.

Há quem lhe chame “o pagode [como os chineses] da Dina Pereira”. Na ponta dos prédios que mandava construir tentava pôr os mesmos “arrebiques” orientalizantes dos telhados da sua casa, “era a marca dela”, conta José Nunes. “Mandava fazer plantas e dava-lhe os toques finais. A tudo queria dar um toque chinês. Mas às vezes havia arquitectos que não deixavam que ela se metesse.”

A casa está fechada desde a sua morte, em 2013, e o genro não deixa que seja fotografado o interior. No enorme guarda-fatos do seu quarto, alcatifa garrida, branco, castanho, bourdeaux, ainda estão penduradas peças do seu vestuário. É difícil oferece-las, diz José Nunes. Quem é a mulher que se atreve a vestir aquela roupa? Mesmo em 2016.

Pendurados em cabides estão casacos de pele, um com padrão de pele de leopardo, outro de tigre, outro muito felpudo com ar de pele de ovelha, há também uma capa-agasalho, que mistura losangos geométricos de azul petróleo e verde esmeralda, ao lado está um macacão verde de pele com um fecho de alto a baixo, outro roxo, outro azul.

Nalgumas divisórias da casa vazia as lâmpadas fundiram-se e o que se vê por todo o lado são sombras, algumas do tamanho de pessoas adultas, outras de crianças, outras dão pelo ombros, pela cintura, pelo joelho. A casa tem o chão repleto de jarrões com motivos chineses, há dezenas e dezenas deles, de muitos tamanhos, alguns com tampas onde estão sentados dragões dourados, outros têm pintadas figurinhas de chapéus cónicos que carregam legumes em cestas de palha apoiadas no ombro, há-os com pagodes dourados no meio de lagos aonde se aproximam pequenos barcos.

“Os chineses fazem coisas maravilhosas”, dizia, e convidava a família a atentar, rapidamente, nos pormenores das peças de cerâmica que mandava vir de forma obsessiva, directamente da China e com certificado de autenticidade, quando ainda não havia lojas de chineses em Portugal. “Já viram estas flores?”, perguntava a quem entrava, logo antes de ter de voltar a sair.

Por todo o lado há espelhos de corpo inteiro afixados às paredes. Um enorme, logo à entrada, um na escada, que sobe até ao seu escritório, ao lado de uma fotografia sua, a preto e branco, de quando era jovem e bonita. Não é preciso vir ninguém de fora para dizer que ali vivia “uma pessoa que gostava dela própria”, comenta José Nunes.

A outra coisa que espanta é o número de divisões. A moradia tem três andares, repletos de quartos. "Em todo o lado tem um quartinho, para se fosse preciso alojar alguém”, diz José Nunes. Há uma cozinha no rés-do-chão, mas também uma no primeiro andar, esta junto a outro quarto, no caso de algum dia ali ter de ficar uma empregada interna, se ficasse mais debilitada com a idade. Há ainda dois salões enormes, para se, um dia, quisesse dar uma  festa, e há sofás e poltronas para receber pessoas.

Desenhada para o “se”

É uma casa desenhada para o “se”. Dina Pereira nunca deixou ninguém da família lá dormir, nunca lá cozinhou, “comia sempre fora, dizia ‘eu sou uma empresária, não gosto de cozinhar’. Tinha cozinha só por ter”, nunca arranjou uma empregada, mesmo quando no fim sofria de hipertensão. Nunca ninguém lá foi a festas, porque ela nunca as deu.

É uma casa gigantesca, com dez quartos, onde viveu uma mulher que não deixava ninguém lá ficar, e que foi encontrada morta, sozinha em casa, aos 84 anos. Os poucos privilegiados que lá entraram ficavam pouco tempo. “Era entrar e sair.” Família, filha e neto adorado, os únicos que teve, incluídos.

Toda aquela casa foi um mundo que se abriu à família apenas depois da sua morte, conta José Nunes. Dina Pereira recebia quem quer que fosse, contactos de negócios ou família, num anexo separado. “Com tantos quartos vazios, nós dormíamos no anexo.” Era um pouco como se ela fosse a rainha e eles os súbditos. “A casa dela era um palácio com segredos. Ninguém lá podia entrar.”

“A filha ficou espantada, nunca tinha estado no rés-do-chão”, diz ainda.

O que Dina Pereira adorava era receber pessoas no enorme banco que acompanha a piscina a toda a largueza. José Nunes viu-a entrar na água uma única vez, na parte com pé, pensa que não sabia nadar. Também nunca ia à praia, para a qual tinha vista panorâmica. “Não tenho vida para ir à praia”, gabava-se. A piscina, a casa, eram décor. Recebia cá fora, fora de si.

Dina Pereira repetia-se muito. Toda a vida José Nunes lhe ouviu uns adágios que aparentemente lhe norteavam a vida: “eu sou como as águias, gosto de estar no alto”, “quem não tem manha morre no ar como uma aranha”, “eu sou antes quebrar que torcer”, “morra mulher e deixe obra”. E dizia também muito: “Uma coisa é a mulher de negócios, outra sou eu.” A família nunca soube bem quem ela era, mesmo quando lhe puderam entrar em casa.

O neto, Bruno Nunes, também quis ser famoso. Foi um dos participantes do programa televisivo a Casa dos Segredos, quarta temporada. O seu segredo, revelado a todo o país: “sou herdeiro de uma grande fortuna”, no programa falou-se da “magnata do imobiliário”. A avó já tinha morrido, mas a casa apareceu na televisão. Talvez Dina Pereira tivesse gostado.