Reportagem

Dez anos de esquerda.net: eles contam histórias com uma ideologia

Neste domingo 3 de Julho, o site esquerda.net faz uma década e vai haver novidades: um destaque, depoimentos de fundadores, vídeos, entrevistas. Este mês muda o layout e é criada uma nova secção, de ciência.

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São militantes do BE que asseguram a actualização do esquerda.net e de outros sites do Bloco Enric-Vives Rubio

Dois cartazes do Bloco de Esquerda estão pendurados no ar condicionado. De cabelo grisalho e óculos, Carlos Santos, 63 anos, ri-se: “Isso é só para quem está sentado aí à frente não apanhar com o frio.” Estamos no último piso da sede daquele partido, em Lisboa. Sobe-se a escada em caracol, vê-se a clarabóia. Naquele andar, há três salas ocupadas por secretárias com computadores nos quais todos os dias um grupo dá vida ao esquerda.net: faz, neste domingo, 10 anos.

Vai haver novidades no site nesse dia e nos seguintes: um destaque, depoimentos de fundadores, de pessoas que não são do BE. No domingo, vai ser publicado um vídeo sobre actualidade e uma entrevista ao eurodeputado Miguel Urbán, do Podemos – um formato que irá manter-se quinzenalmente. Ainda em Julho, mudará o layout e nascerá uma nova secção: ciência.

São sete militantes do BE que trabalham no esquerda.net, mas também no bloco.org e no beparlamento.net. Há ainda vários colaboradores. Carlos Santos, coordenador, recorda o debate que houve no partido sobre a presença que devia ter na Internet. Chegaram à conclusão que o bloco.org serviria para dar informações sobre o Bloco, numa perspectiva mais institucional. E que criariam o beparlamento.net, para registar os requerimentos, as perguntas ao Governo, a actividade parlamentar, e outro site mais amplo.

No esquerda.net há textos sobre atentados, refugiados, desastres naturais. Quando os escrevem, os autores não pedem opiniões à direcção, embora esta possa dar ideias para trabalhos. Eventualmente, ligam a um dirigente a pedir uma declaração, mas na maior parte das vezes usam as mesmas citações que os órgãos de comunicação nacionais. Não publicam nada que não consigam confirmar, citam fontes, só não cumprem o contraditório.

“Temos respeito pela neutralidade e pelo contraditório num jornal, acho bem que o façam, aqui não é o que fazemos. Aqui procuramos um olhar crítico e tem algo de ideológico. Contamos histórias com o nosso olhar, num sentido ideológico, sim, mas em sentido amplo, não é só BE, é esquerda”, diz o coordenador, numa sala com secretárias, computadores, jornais amontoados, televisão ligada.

No site não se fazem, ou faziam, textos sobre o “não” ao aborto. Tal poderia vir referido numa qualquer linha, mas só escreviam sobre o “sim”. Carlos Santos solta uma gargalhada: “Não somos o prós e contras.” Explica: “Não é propaganda, noticiamos factos relevantes, mas com o nosso olhar político. Não estamos obrigados a ouvir a outra parte e não temos a pretensão de ser neutros. Mas ninguém deve pensar que isto é a posição do BE. Há opiniões que publico com as quais não concordo e não são todas do BE. Somos plurais como o BE é plural. No dia em que o BE deixar de ser plural...". Isso não quer dizer, porém, que publiquem opiniões contrárias à ideologia do BE.

O site permite comentários, mas não são abertos: “Para evitar insultos, mesmo que sejam dirigidos a pessoas que nos criticam”. Exemplifica: se alguém fizer um insulto gratuito ao antigo Presidente da República não o publicam – mesmo que Cavaco Silva seja dos principais alvos de crítica do BE. Se lhes disserem que são uns panfletários, publicam; se o comentário for que são uns “sacanas” já não.

Atrás de Mariana Carneiro, 36 anos, estão colados alguns postais: “greve geral”; “os ricos que paguem a crise”. Com estudos em sociologia do trabalho e especialização em direito do trabalho, já teve outros trabalhos no BE. Foi, por exemplo, assessora parlamentar. Está no esquerda.net (também no bloco.org e no beparlamento.net) há seis anos. Uma das dificuldades que sentiu foi libertar-se da forma de escrever sobre o que se passa no Parlamento – o “jurisdiquês”, como lhe chama – e encontrar uma escrita mais clara. “Fazemos notícias diferentes, tentamos um equilíbrio. Não ter uma homepage repleta de notícias do BE, claro que temos todos os dias, mas também temos ambiente, cultura…” Os números do site foram oscilando ao longo dos anos: em 2015, por exemplo, tiveram uma média de 15.977 visitas por dia.

Pedro Ferreira é o editor do dia, uma função rotativa. Com 53 anos, trabalhou sempre na área da comunicação, incluindo em jornais. Está no esquerda.net há oito meses. “Não é um site tradicional de um partido, tem uma abertura diferente que transcende a fronteira partidária. Não falamos com pessoas com visões diametralmente opostas, mas falo com pessoas que não sei de que partido são ou se têm partido, embora saiba que têm posições de esquerda. Podem ser PS, PCP, independentes ou não." Não haver contraditório não o incomodou? “Estamos num site que tem uma determinada linha de orientação. Não subvertemos a realidade, temos é uma perspectiva.”

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