Cimino: "Nunca soube como se fazia um filme"

O realizador de O Caçador esteve em Portugal e, depois de dez anos sem rodar, sente-se feliz longe do cinema. Michael Cimino veio a Lisboa para acompanhar a retrospectiva integral que lhe está a ser dedicada pela Cinemateca Portuguesa.

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Cimino mostrou-se consciente da aura de mistério que o rodeava; era um conversador afável, gostava de contar histórias e descrevia-se como um cineasta acidental Miguel Madeira/Arquivo

Nota: entrevista originalmente publicada em 6 de Novembro de 2005

Michael Cimino realizou apenas sete filmes em 20 anos, mas bastaram dois para cimentar a sua reputação: O Caçador (1978), vencedor de cinco Óscares da Academia e uma das primeiras ficções americanas sobre o Vietname, e As Portas do Céu (1980), um dos grandes filmes malditos da história do cinema. Eternamente à margem do circuito de Hollywood, Cimino não filma há dez anos - e não tem pressa nenhuma de voltar a fazê-lo, como confessa neste fim de tarde no átrio do Hotel Tivoli enquanto toma sem pressas um capuccino.

Em Lisboa para acompanhar a retrospectiva integral que lhe está a ser dedicada pela Cinemateca Portuguesa desde a passada quinta-feira e até dia 21, enquadrada por seis clássicos da sua preferência, o realizador americano é uma figura franzina, com algo de dandy andrógino impecavelmente arranjado em botas de cowboy e camisa de ganga abotoada nos pulsos sobre t-shirt preta, que se esconde por trás de um par de óculos escuros (mesmo na penumbra do átrio) e se deixa fotografar relutantemente.

Consciente da aura de mistério que o rodeia, nada faz para a dissipar; é um conversador afável, que gosta de contar histórias e descreve-se como um cineasta acidental, falando com mais entusiasmo das suas inspirações na arquitectura e na arte, num sotaque discreta mas inegavelmente nova-iorquino, do que dos filmes que realizou.

A conversa podia ter ido por aí fora, mas esperava-o a projecção de Homens para Queimar, de John Ford, "que nunca vi em sala".

Como encara este tipo de retrospectivas?
É espantoso, e uma espécie de elogio, que as pessoas ainda achem filmes feitos há tanto tempo tão vibrantes, que ainda se entusiasmem com eles... Mas não olho para trás. A minha natureza está em olhar para a frente.

Mas não realiza um filme há dez anos.
É verdade. Mas escrevi três romances, um dos quais ainda não foi publicado, tenho estado envolvido em muitas coisas de que gosto... E estou (risos)... até tenho vergonha de o dizer... feliz!

Não tem saudades do cinema?
Nunca soube como se fazia um filme e continuo sem saber. Estou bastante espantado por ter feito o que fiz (risos). Porque, como provavelmente sabe, venho da arquitectura e da pintura. Quando me perguntam sobre as minhas influências, falo de Frank Lloyd Wright, Degas, Mahler... O meu mundo nunca foi o cinema com exclusão de tudo o resto. Nunca. Nem sequer fui para a Califórnia para fazer cinema - fui porque tinha lá família, e em miúdo adorava o estilo de vida californiano, fazer surf, montar a cavalo, andar de moto no deserto. Não precisava de dinheiro e garanto-lhe que não queria ser famoso...

Tudo aconteceu de uma maneira bizarra, e quando dei por mim... Foi tão misterioso como a própria vida. Nunca se sabe quando é que a nossa vida vai dar a volta ou quem a vai fazer dar a volta, quem vamos conhecer. Mas é muito importante mantermo-nos abertos às possibilidades. O importante, em tudo o que se faz, é continuar a tentar ser-se o mais perfeito possível. Todos sabemos que nunca conseguiremos atingir a perfeição, mas é essencial que continuemos a tentar. Reside aí a essência da vida. É uma questão de manter o coração vivo e vibrante, de nos mantermos abertos e agradecidos à vida que nos rodeia. Recordo-me sempre da grande frase de Louis Pasteur, que disse que "a sorte favorece o espírito preparado". Para mim, isso resume tudo.

Estava preparado quando a sorte lhe possibilitou trabalhar em cinema?
Sim! E é preciso manter essa abertura, nunca deixar o espírito quebrar. Não se fazer um filme não quer dizer que se esteja morto. Pense no tempo que os cantores levam entre gravar discos...

Terrence Malick leva anos entre filmes.
Sinto uma grande afinidade com ele, acho-o um talento notável, mas é um poeta - devia estar a escrever poesia em vez de fazer filmes. Tal como eu não sou um cineasta, mas sim um arquitecto e um pintor. Estamos os dois a fazer coisas que não era suposto [risos]. Em arquitectura, quando se olha para um edifício, não se está a olhar para uma criação abstracta de betão e aço, mas sim para a configuração do espírito de um homem. Se estamos a ver um edifício medíocre, é porque quem o concebeu tinha um espírito medíocre. Se é um edifício superior, estamos a olhar para um espírito superior. O edifício é completamente expressivo de quem se é, tal como um filme ou um romance.

Pode-se então dizer que os seus filmes exprimem quem era quando os fez?
Penso que sim. [pausa] Deixe-me clarificar: escrevi todos os filmes que realizei, e devo ter escrito três vezes mais filmes do que os que realizei. Por isso, tenho uma relação completamente diferente com o processo de escrita: não consigo escrever sem integrar as personagens no espaço, tenho de ter um espaço tridimensional na minha cabeça. Não faço filmes "planos" - não trabalho num plano bidimensional, quero deitar abaixo a parede do ecrã, trazer o público para dentro da história. Preciso de pré-imaginar a arquitectura, o espaço do filme, até o espaço de uma sala para criar as personagens. Preciso de "ver" antes de conseguir passar para papel.

Uma espécie de mistura de arquitectura com coreografia?
Sim! Adoro coreografia. E enquanto os actores estão sempre ao telefone ou nos camarins, com os bailarinos basta dizer "em posição" e estão todos prontos a trabalhar. Tenho um respeito imenso por eles. John Ford disse que os três assuntos mais interessantes para uma câmara de filmar são um cavalo a correr, uma grande montanha e um casal a dançar. E se pensarmos nas cenas maravilhosas de A Desaparecida, nos cavalos a correr de Kurosawa, nos bailados magníficos de Fred Astaire e Ginger Rogers...

Depois disso, o que se pode filmar?
Não sei... Deve ser por isso que se faz tanta ficção científica. Mas o mundo é demasiado interessante para se tentar inventar um mundo novo. Para mim, as dimensões da arte humana são imensuráveis. Passa-se tanta coisa interessante na vida que a maior parte das pessoas que escrevem ficção científica estão a fugir da vida para criar um mundo ficcional. Prefiro o mundo real.

Se tivesse de escolher um dos seus filmes para ser recordado, qual seria?
É sempre o filme que ainda não se fez.

Haverá, então, um novo filme de Michael Cimino?
Quem sabe? Terá de perguntar a Deus [risos], que eu não sei.

Tem-se falado de alguns projectos...
Algumas coisas são puros boatos, outras são tretas, aqui e ali há qualquer coisa de verdade... Mas nunca falo dessas coisas. É como um livro - quanto mais se fala sobre ele menos vontade se tem de o escrever.

Nota: entrevista originalmente publicada em 6 de Novembro de 2005.