Bossa Nova: afinal nunca chega de saudade

Em 1990, Ruy Castro escreveu um livro definitivo sobre a bossa nova. E em 2016 tornou-o ainda mais definitivo. Chega de Saudade é uma obra-prima com direito a bis — e em Portugal.

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FOTO: DANIEL ROCHA

Há algum livro sobre bossa nova melhor do que Chega de Saudade? Já há. É a edição de 2016 de Chega de Saudade revista pelo autor. Ruy Castro, jornalista, escritor, autor de 23 livros (um dos quais Carmen, biografia monumental de Carmen Miranda), fez de uma obra-prima outra obra-prima. “Agora é que ficou realmente bom”, diz-nos ele, em Portugal, ao folhear a recente edição portuguesa, com chancela da Tinta da China. O livro, o primeiro que Ruy Castro escreveu (antes só editara Mau-Humor: Uma antologia definitiva de citações venenosas), foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 1990. Mas essa edição não o satisfez completamente. Por isso, vinte e seis anos depois, quis corrigir erros, suprimir expressões que ele usava na época mas depois se tornaram clichés, aplainar certos conceitos “para os tornar mais compreensíveis” agora. Mesmo em termos gráficos, as imagens e legendas seguiram as suas indicações ao pormenor; não foram espalhadas pelo livro mas sim reunidas em cadernos gráficos com um nexo narrativo de que ele se orgulha. E, pormenor importante, a sua escrita não foi adaptada à edição portuguesa, manteve-se intocável (ao contrário do que sucedera com Carmen).

Como nasceu a ideia para Chega de Saudade? Foi no final de Fevereiro de 1988, após entrevistar Tom Jobim para a Playboy. “Para entrar naquelas perguntas que a Playboy gosta que se façam, eu tive de amaciá-lo primeiro. Pelo menos uma hora de conversa, sobre assuntos dos quais eu acho que ele gostaria de falar e que eu tinha curiosidade em saber. Falámos bastante de bossa nova e, quando a entrevista terminou, percebi que aquele material do início do início ia ser jogado fora. E era um material extraordinário!” Ruy estivera com Tom pela primeira em 1968; conhecera Vinicius de Moraes antes disso; entrevistara Carlos Lyra, como jornalista, várias vezes; conhecera e entrevistara Nara Leão. “Eu conhecia toda a geografia da bossa nova: os bairros, as ruas, Ipanema… Para mim era uma segunda natureza. E essa história nunca tinha sido escrita. Havia uns poucos livros sobre bossa nova, mas eram altas análises, interpretações musicais.”

E as histórias? As das pessoas que fizeram a bossa nova, onde estavam? Reunidas, não estavam em lado nenhum. Mas havia muita coisa dispersa, sobretudo na cabeça dele. “Comecei em 1962, sem saber. E já estava à frente de qualquer um, para começar um livro como este.” Com a Companhia das Letras interessada, foi só lançar mãos à obra. “Embora eu tivesse uma discoteca bem razoável de bossa nova, tudo LP, tive de comprar discos em sebos [lojas de artigos usados] e ouvir muitos. Só que em Fevereiro de 1988, no Brasil inteiro, não se encontrava nas lojas um único disco original de bossa nova! Só compilações, antologias, Tom, Vinicius, Nara Leão, mais nada. Ainda não tinham sido lançados em CD, que mal existia. Ninguém queria saber de bossa nova.” E ele sentiu essa resistência quando se pôs a fazer entrevistas. “Eu não falo de bossa nova, senão não vão me dar emprego”, ouviu ele a alguns músicos. “Era música do papai, coisa antiga, velha, ultrapassada. E estava assim, nessa época, desde há vinte anos!”

Negações

Além das resistências, havia negações da bossa nova. “A Nara negou, o João Gilberto negou. Só Tom Jobim falava dela num tom de carinho. Enfim, eu estava mergulhando num trabalho sobre o qual as pessoas tinham, ou desinteresse ou uma certa hostilidade. Ao mesmo tempo, pessoas que tinham sido jovens naquele período e o tinham vivido, cariocas normais não ligados ao meio artístico, tinham uma saudade enorme da sua juventude, marcada por uma época e uma música fabulosa. Então havia um saudosismo que até tornava pior a percepção dela. Foi isso que inspirou o título. Chega de Saudade foi a gravação original da bossa nova, a primeira que se pode dizer de bossa nova, mas usei esse título no livro como uma espécie de protesto contra esse saudosismo rançoso. O que eu queria dizer era: chega de saudade daquela época! A bossa nova não merece esse saudosismo, a bossa nova é um património musical que precisa ser recuperado e mostrado para as gerações mais jovens, é uma questão de cultura, não de saudosismo.”

Mergulhado nos discos, nas entrevistas, nas mil e uma leituras que tal trabalho exigia, Ruy Castro viveu uns dois anos em função do livro. “Foi uma grande surpresa. Porque depois de vinte anos trabalhando para jornais e revistas, habituado a escrever em todos os tamanhos possíveis, desde matérias curtinhas até grandes reportagens de dez ou quinze páginas para a Playboy, escrever um livro era outra coisa, é como comparar uma lagoa com o oceano Atlântico.” Mas ter mais espaço não significava, isso percebeu ele logo, escrever à vontade. “Tinha que tentar ser tão rigoroso, preciso e conciso quanto no jornal ou na revista. E descobri também que não adiantava ser apenas um bom repórter ou um bom jornalista, tinha de ser mais; tinha de conhecer de cara coisas que na imprensa nós não valorizamos. Só no final do trabalho é que eu comecei a perceber que esse livro podia ter consequências na própria reavaliação da bossa nova.” E teve. Com o livro publicado, a bossa nova voltou à rádio e aos ouvidos e conversas do Brasil. Porque durante esse período nunca deixou de estar nos ouvidos universais. Como Ruy Castro diz nas últimas linhas do seu livro: “A Bossa Nova, sentindo-se fora de casa, pegou seu banquinho e seu violão, e saiu de mansinho. Felizmente tinha para onde ir: o mundo.”

PÚBLICO -
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Ruy Castro, jornalista, escritor, autor de 23 livros, fez de uma obra-prima, Chega de Saudade, outra obra-prima, a sua versão revista, 26 anos depois. “Agora é que ficou realmente bom”, diz-nos FOTO: DANIEL ROCHA

O mais surpreendente para ele, neste processo, foi “perceber que o João Gilberto foi de certa maneira o fio condutor da história. Quando comecei, eu não sabia. Teria de ser um dos três: Tom, Vinicius ou João. Mas toda a gente com quem falei, na hora de atribuir a origem da novidade, me falava em João Gilberto. E isso se confirmou quando descobri que ele um dia bateu na porta do Tom e mostrou p’ra ele aquela batida de violão. Ora isso fez com que Tom praticamente adaptasse tudo o que fazia àquela batida, mudando a sua maneira de compor. Se não houvesse João Gilberto, não haveria bossa nova.”

Na edição de 2016, revista ao pormenor, caíram as notas da edição original, manteve-se um índice remissivo de nomes (excluindo canções só na edição portuguesa, porque não havia tempo para incluí-las de modo ao livro estar pronto em Junho, na Feira do Livro) mas, em compensação, foi ampliada (e muito) a bibliografia, tal como a discografia, e foi acrescentada uma inovadora “cançãografia” de “antes, durante a depois da bossa nova” com muitas páginas. “Esse é o meu grande orgulho, nesta edição. Tive essa ideia ao fazer o meu último livro, chamado A Noite do Meu Bem, sobre o samba-canção. Lá fiz uma cançãografia a começar em 1928, esta começa em 1929. A música popular, em toda a parte, pode ser dividida, grosso modo, em duas partes: a romântica e a sincopada. Ora há canções que a partir de 1929 inspiraram uma bossa nova. O João Gilberto gravou muitas, até músicas americanas, francesas, espanholas. Porque bossa nova não é só um jeito de fazer música, é um jeito de tocar. Qualquer música pode virar bossa nova, como João Gilberto provou. Então essa cançãografia (termo que eu nunca vi ninguém usar) demonstra como há uma coerência da música brasileira, desde o começo.”

Ao escrever sobre o samba-canção (livro que já vendeu mais de 70 mil exemplares no Brasil), Ruy fez outra descoberta. “O samba-canção tem os seus antecedentes na mesma época dos da bossa-nova, foi contemporâneo dela e sobreviveu à bossa nova, sem outro nome. Inclusive os grandes da bossa nova, Tom Jobim e João Gilberto, continuaram a fazer samba-canção. Nas lojas brasileiras, a nova edição de Chega de Saudade é apresentada assim: “do autor de A Noite do Meu Bem”. Razões comerciais, mas não só. Como diz Ruy Castro: “São histórias paralelas. São dois livros gémeos, na verdade.”